A Visão anuncia hoje um Sócrates Privado.

Sinceramente não percebo exactamente o alcance ou objectivo (seria antes uma competência?) da peça.

Se era mostrar que Sócrates é, afinal, humano, a coisa falha rotundamente. Desde as imagens em que o sorriso não aflora, mas o cenho franzido sobeja, passando pelo destaque dado às suas peculiaridades (o fanatismo do detalhe, do controle da agenda dos ministros, das fixações em objectos-amuleto incaracterísticos como a Parker anódina, a agenda encenada), chegando mesmo aos pormenores que supostamente visariam aligeirar o cenário, como o boneco de um dos anões acompanhantes da Branca de Neve que é sintomaticamente o Rezingão.

Se era para dar a imagem de um Sócrates que é igual em público e privado, a peça é ou redundante ou um exercício que coloca o nosso actual primeiro num patamar que nenhum anterior líder do poder exectivo em Portugal desejou: o de pretenso/real autómato. Mesmo os mais sisudos governantes nacionais (Salazar, Cavaco) fizeram-se representar como seres humanos, com as suas pequenas fraquezas, um seu lado íntimo que, mesmo encenado com melhor ou pior gosto, dava uma vaga sensação de privacidade. Pelo contrário, o Sócrates Privado é aborrecidamente semelhante ao Sócrates Público.

Eu se fosse a ele despedia já quem, na sua task-force comunicacional, foi responsável por esta ideia. A menos que o objectivo passasse mesmo por sublinhar uma diferença que poucos apreciarão, salvo alguns saudosistas…