Quarta-feira, 14 de Novembro, 2007


(c) Antero Valério

Lá porque um tipo se ri quanto explica de forma caricatural – a única suportável – certos disparates, não quer dizer que o assunto não seja sério.

Parece que, por fim, lá pelas minhas bandas começou a bater a sério em algumas pessoas a carga de trabalho que as espera na sua função de titulares-coordenadores-avaliadores. É tudo gente boa, felizmente, mas que na maior parte dos casos pareceu demorar muito a entender toda a adimensão da trabalheira que os espera. Neste momento acho que os quase 200 euros a menos que me custou a não-progressão (cortesia de ratoeira da DREL, que ainda dará que falar) acabam por compensar que me livrasse do desvario de tudo isto.

Após uma visita de um delegado sindical razoavelmente (in)formado e de um Conselho Pedagógico sobre o assunto, os Coordenadores de Departamento estão finalmente a cair em si e a fazer cálculos de tudo o que aí vem.

Que é um perfeito emaranhado burocrático-papelesco, como já sabemos.

Sobre as grelhas de avaliação (ato, hetero e acho que homo) já aqui se escreveu e discutiu. Entretanto, ficou a saber-se que alguns “especialistas” que o ME escolheu, andam pelo Minho a conceber mais grelhas para que os avaliadores saibam como preencher as grelhas já conhecidas.

Ou como eu e outros fomos dizendo: as grelhas que ensinam a preencher as grelhas e que, quase por certo, foram feitas a partir de outras grelhas.

Pois como parece que o processo ainda não é suficientemente labiríntico e quadriculado, os Coordenadores ainda deverão receber mais grelhas para saberem como distinguir um 1 de um 4 em matéria de cumprimento do programa pelos seus colegas avaliados, ou quanto à sua utilização de pedagogias diferenciadas ou ainda quanto ás oportunidades dadas aos alunos para participarem nas aulas.

Isto é especialmente ridículo.

Como ridícula é a minha situação que, vim a aperceber-me devagarinho, acabo por pertencer a três departamentos distintos, porque lecciono Língua Portuguesa, História e Geografia de Portugal e as famigeradas T.I.C.

Em vez de uma planificação geral, um lote de planificações aula a aula, um conjunto de objectivos a delinear com um(a) Coordenador(a), três aulas assistidas e um monte de etc’s por ano vou ter não o dobro – o que é comum em quem lecciona LP/HGP ou Matemática Ciências no 2º CEB – mas sim o triplo da dose.

Vai ser coisa bela de se ver, em especial aquela em que eu terei de justificar os progressos de todos os alunos ao longo dos anos lectivos que os tiver.

E já imaginaram como vai ser com quem tem 200 alunos como a minha cara-metade? Sete turmas a quase trinta alunos? Ou quem chega a ter 9 ou 10 turmas?

A submersão em tarefas inúteis para um eficaz trabalho pedagógico e uma efectiva dedicação ao desenvolvimento das aprendizagens dos alunos é uma coisa atroz e só concebível por quem não conhece o “terreno” e apenas leu uns livros sobre o assunto ou uns artigos em revistas da especialidade.

Há que ser claros: é necessária uma avaliação dos docentes e que ela seja rigorosa nos termos em que o pode ser.  Mas este modelo de avaliação que procura transformar tudo em parâmetros quantificáveis é a a completa destruição da alma do ensino. É massacrar os docentes com o mero registo do acto feito, mecânico, formal, realizado apenas para cumprir calendário.

E, como se verá e demonstrará quando houver tempo, um convite e pressão enormes para a mistificação do processo de avaliação dos alunos.

Um truque sem paralelo – mesmo no início dos anos 90 – para levar os docentes não a melhorar a sua  prática pedagógica, mas meramente a melhorar os resultados estatísticos. Então em anos e disciplinas sem avaliação externa, é um portão escancarado para que, para que não sejam penalizados, os professores inventem sucesso a partir do ar mais fino.

É, resumindo, uma absoluta vergonha feita à vista de todos, com o maior dos desplantes e nevoeiro retórico.

Embora ainda exista que não esteja plenamente convencido de que todo este sistema de avaliação não passa de um enorme quebra-cabeças kafkiano que, em termos globais, só conduzirá perversamente ao empobrecimento das práticas pedagógicas e não à melhoria das aprendizagens dos alunos.

Mas como aos senhores do momento o que interessa não é isso…

Aferir a qualidade dos dirigentes associativos de uma Federação de Associações de Pais pelo número de erros ortográficos existentes do seu site?

Isto é um suponhamos, claro, porque quem tão bem fala na TV e passa atestados de burrice aos professores não deixará certamente passar em claro erros básicos de acentuação e ortografia.

Penso eu de que.

Fotografia que me foi enviada por um leitor com a apropriada legenda A Guarda-Costas. Tirada da reportagem televisiva sobre a entrega do Prémio do Professor do Ano. Para que não restem dúvidas sobre a consonância entre ambos.

Hoje entrei na Escola às 10 e saí perto das 20, com um intervalo para almoço e 45 minutos para um sprint de quase 50 km para conseguir ir buscar a miúda ao infantário a horas decentes e regressar à Escola para duas reuniões (departamento e grupo disciplinar) em horário pós-laboral.

A minha coordenadora de Departamento Curricular de História entrara pouco depois das 8 da manhã e saiu bem depois das 19 horas, com uma manhã de aulas completa, reunião de Conselho Pedagógico e depois de Departamento. Com a cabeça justificadamente feita em água depois de perceber o que a espera em matéria de avaliação.

Amanhã é a vez da outra metade do casal cá de casa ficar até cerca das 20 horas na sua Escola.

Neste mês, entre reuniões intercalares (Conselhos de Turma, Encarregados de Educação), de Departamentos, Grupos Disciplinares, reunião periódica dos PCA e reuniões por causa do apoio individualizado a alunos com PEI) devo dar algumas dezenas de horas adicionais de presença na Escola.

Em Dezembro será a vez das reuniões de avaliação. Mais do mesmo.

privilégios, na boca dos detractores dos docentes.

Tomara eu ter um Estatuto como o do Aluno. Baldava-me e depois pedia para me fazerem uma prova de recuperação, para saber se eu tinha atingido os objectivos, desenvolvido as competências, vice-versa ou lá o que agora é prioritário.

E que devemos dar sempre o benefício da dúvida e mais uma série de chavões e ditos populares que acredito aplicáveis à situação.

Como órgão que se encontra a dar os primeiros passos, competirá ao Conselho das Escolas desmentir pela acção, ponderada e construtiva, as vozes cépticas que procuraram, a priori, desvalorizar a importância do seu papel, reduzindo-o ao de “legitimador” das políticas do Ministério. Este será, porventura, o maior desafio com que se confronta.

O Conselho das Escolas, percebido como mais-valia no panorama educativo, está disponível para responder às solicitações e desafios, mas também para, proactivamente, ajudar a desenvolver as políticas de educação e formação perante novos desafios da sociedade actual.

Álvaro A. Santos

Presidente do Conselho das Escolas(Correio da Educação, pp. 5-6)

Esperemos que assim seja. Até ao momento os sinais não são animadores. O parecer sobre a avaliação do desempenho dos docentes, apenas apontando constrangimentos de tempo para a sua aplicação, é nesse sentido. Validação da política definida, para a qual não foram consultados, apenas destacando questões de operacionalidade e não de substância.

Oxalá me engane.