Domingo, 11 de Novembro, 2007


A Revolução Russa de 1917 vai acabando de fazer 90 anos para aqueles que só consideram mesmo revolucionários os acontecimentos de Outubro. É um dos acontecimentos mais marcantes do sécuilo XX, goste-se ou não, mas a historiografia portuguesa dedicou-lhe poucas linhas e menos estudos ou obras. Há uma de Pacheco Pereira, muito limitada nas fontes e amplitude cronológica, feita ainda antes do 25 de Abril, e outra de César de Oliveira limitada no olhar lançado sobre os acontecimentos e, novamente, no acervo documental usado.

Mais recentemente o tema foi aflorado de raspão em alguns estudos e este mês a revista História dedica-lhe um número especial.

Ora eu quando era jovem mestrando nos inícios dos anos 90, decidi numa cadeira/seminário coordenado pelo Professor Medeiros Ferreira, fazer um levantamento do noticiário publicado em Portugal durante um ano sobre os acontecimentos vividos na Rússia, desde a chamada “revolução de Fevereiro” até à assinatura da paz de Brest-Litovsk entre a Rússia bolchevique e o Império Alemão.

Gostei do assunto e ainda mais do que fui encontrando, porque não correspondia lá muito bem aos estereótipos que se foram criando sobre a recepção do acontecimento em Portugal, em especial os resultantes dos estudos acima citados. O texto original do trabalho acabou por parecer quase uma tese (cerca de 200 pp. de texto mais umas 120 de anexos) e sempre foi um dos resultados que mais estimei dos meus tempos de investigação. Estava no 1º ano do mestrado e cheio de força, com a energia dos vinte e tais e media o esforço pelo prazer e não pelos mínimos exigidos. Serviu-me de emenda. A partir daí joguei muito mais à defesa.

Sorte ou azar foi um dos poucos textos que, na sua versão integral, até hoje permaneceu na gaveta, sem grande hipóteses de publicação, mesmo no período em que tive maior capacidade (que nunca foi excessiva) de o fazer.

O facto de não ser uma leitura ideológica, mas sim meramente analítica, dos acontecimentos e do seu impacto em Portugal também ajudou à sua fraca recepção junto de algumas figuras influentes que podiam ter dado aquele empurrão que sabemos ser quase sempre necessário para ajudar o envelope com o original a não cair na trituradora.

Apesar disso, chegou a estar prevista a sua edição pela Cosmos na segunda metade dos anos 90 (iam pasar-se os 80 anos da dita revolução), mas depois aquilo levou uma volta e mandaram-me uma cartinha a lamentar. Bati a mais um par de portas, mas sem grande convicção, porque sei como isto é. Num dos casos acho que o mail de rejeição ainda terá saído (acho que foi da Gradiva) antes de sequer ter sido aberto o ficheiro do texto pela secretária do Director Editorial. Por isso está apenas publicada uma síntese de umas 40-50 páginas numas incógnitas actas de um colóquio simpático e um capítulo nos Estudos sobre o Comunismo do Pacheco Pereira.

A versão específica  que agora decidi colocar online a partir do Umbigo ao Quadrado, foi arrancada ao disco de um velho PC (computador, entenda-se) ainda com um Pentium 200 MMX e o saudoso Windows 95 que por sua vez já resultava de uma conversão para o Word de uma velha disquete produzida em Word, conversão essa que levou ao desaparecimento de todos os caracteres acentuados e a uma revisão apressada por ocasião da proposta enviada para a Cosmos.

Com falta de tempo para revisões, agora apenas alterei as primeiras linhas (substituindo 80 por 90 anos) antes de passar tudo para formato pdf. 

A razão porque agora coloco o texto para acesso público? Talvez porque quando criei este blogue já tinha pensado nisso, mas nunca mais tive oportunidade ou lembrança de o fazer. E porque agora se passa uma data redonda sobre os acontecimentos. E porque, modéstia à parte, o trabalho – gralhas à parte, que são e sempre foram a minha imagem de marca, fruto das pressas – até é razoável. Claro que a bibliografia poderia estar um pouco mais actualizada, mas em nada de profundamente essencial.

Por isso, quem se interesse que se divirta. Eu, à época, diverti-me bastante. Mas os meus gostos sempre foram peculiares.

Bem-vindos à era do sucesso escolar!

Foram esta semana franqueadas de par em par (faltando apenas, que se saiba, a passadeira vermelha) as portas de acesso à gloriosa era do sucesso escolar. Refiro-me, como é bom de ver, ao regime de faltas às aulas os estudantes que andarem na gandaia durante o ano lectivo terão, no final, uma prova dita de “recuperação”, através da qual são absolvidos e aprovados, porventura com voto de louvor e registo de mérito. Está encontrado o sucesso estatístico para europeu ver.

Espera-se agora (é só mais um pequeno esforço de facilitismo) que a prova venha a poder ser feita em casa e enviada à escola por fax ou por e-mail, assim se aproveitando os computadores vendidos pelo Governo (bem entendido, os que ainda não avariaram).

Longe vão os tempos em que a ministra dizia recear a má sorte dos alunos que, faltando às aulas, se perdiam nos ócios deletérios dos cafés ou em sítios piores. Mais perto, e seguramente menos respeitáveis, estão também os tempos em que se cuidava dos interesses dos estudantes arrebatados pelos pais ao fiel cumprimento dos deveres em troca de férias na neve. E longíssimo ficam (ai de mim!) os tempos em que o velho e adorável professor Xavier me obrigava, e aos meus colegas, a papaguear a tabuada de trás para a frente e da frente para trás. Ah!, e a não dar erros na ortografia e na sintaxe, como agora até tem graça e confere estilo.

Ominosos tempos, esses, da «escola risonha e franca», quando não nos passava pela cabeça a ideia de magoar um professor – quanto mais de o insultar e agredir!

António Freitas Cruz

Na pedra já mais que branda da memória,
Escrevi
Com o tempo
que o musgo vai levando a crescer

Com o brilho que a esperança nos faz
no olhar
Escrevi
Que a saudade é prima afastada do vagar

E eu que nem posso dizer que seja, de há algum tempo, o maior dos fãs dos Madredeus.

Já está em DVD e recomenda-se a série documental de António Barreto sobre o Portugal que mudou nos últimos 30-40 anos.

No entanto, se Portugal mudou muito, não é menos verdade que mudou por vezes de forma superficial e localizada. Mas principalmente de forma pouco solidária e integrada.

Antes era Lisboa e o resto era paisagem, um pouco mais animada no Porto, em Coimbra e num ou outro centro industrial de maior dimensão.

Agora continuamos a ter Lisboa, algumas  auto-estradas, IP’s e IC’s que vão dar a algumas rotundas que permitem aceder a umas quantas capitais de distrito quase sempre suburbanizadas no pior sentido, enquanto a paisagem vai minguando.

Mas por sob a superfície do país que tem a cidade com mais lojas da Fnac da Europa (se excluirmos Paris), onde a maior fatia do negócio começa a ir para os gadgets dos portugueses modernos (os GPS, os IPod, o portátel da Apél, o elecêdê nem sempre com o soundsystem certo desde que seja espalhafatoso), continua a existir o Portugal de outrora, do interior rural cada vez mais deserto – eucaliptado – ou cada vez mais esquecido, mesmo que nos cafés exista SporTV.

Se é verdade que o delírio homicida daquele jovem finlandês não me impressionou sobremaneira, pois já sabemos que as taxas de suicídio e homicídio em série são tanto maiores quanto mais desenvolvidas e anestesiantes são as sociedades (Japão, Escandinávia, EUA), isso já não aconteceu com o homicídio por crueldade arbitrária que aconteceu no lugar da Borralheira, freguesia de Teixoso, nas imediações da Covilhã, e o qual vitimou na madrugada de 28 de Outubro um português das minhas idades, João Inácio de seu nome bem tradicional, prisioneiro das suas fraquezas, do seu mundo fechado e da maldade daquele quarteto de adolescentes e jovens adultos que procuram alegrar o seu tédio com o mal alheio.

A reportagem que leio na Visão desta semana devolve-me o Portugal de sempre, dos septuagenários de boina na mão ou lenço na cabeça, de traje negro ou pardacento, das terreolas sem perspectivas de emprego, das bebedeiras de todos os dias, da condescendência para com os pecados alheios a que se fecham os olhos e as janelas, agora também sem a velha escola primária, sem futuro que caiba num powerpoint governamental.

Esse Portugal continua a existir por muito que o tentem abafar, destruir ou esconder em nome da modernidade e racionalidade económico-tecnológica. As pessoas continuam lá com as suas frustrações, os seus bloqueios e os seus demónios.

Tão maus como o de qualquer letrado finlandês, armado em filósofo e rebelde de pacotilha. Por cá a maldade e a violência ainda não foram racionalizadas, ritualizadas ou mecanizadas a esse ponto. Por cá ainda temos a boa e velha violência visceral, mesquinha e cobarde, de quem bate nos indefesos ou em aqueles que estão em desvantagem, para exorcizar as suas próprias insuficiências. Digam que é preconceito socio-cultural meu, mas os latinos ainda não chegaram ao ponto de racionalidade homicida de outras paragens. O que não significa grande coisa. Apenas que, até aí, estamos mais atrasados e iletrados. Aposto que nenhum dos assassinos da Borralheira saberia citar qualquer filósofo ou dissertar sobre o vazio existencial que os levou a ser apenas cobardemente cruéis.

Há quem justificadamente se preocupe com a perda de identidade, a descaracterização e o anonimato da vida nas grandes áreas (sub)urbanas. Mas essa é apenas uma das facetas de um Portugal falhado, que progrediu não a duas, mas apenas a uma velocidade, pois o resto ficou parado, paradinho no tempo e preso, esse sim, dos atavismos de sempre.

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O Congresso Fugir Para a Escola vai acontecer no próximo dia 24 de Novembro, em Lisboa. Por entre todos os notabilíssimos participantes destaca-se a prelecção inaugural, reservada ao sempre excelente Presidente da Confap e a absoluta ausência de qualquer professor do ensino básico ou secundário.

Há psicólogos, magistrados, pediatras, professores universitários, apresentadores de televisão, até mesmo o proprietário da Delta Cafés (!?!).

Antevê-se cobertura televisiva pela SIC e RTP (no mínimo) e um razoável serviço de cafés.

Só não se encontra um único professor. São opções da organização Bebés & Crescidos.

Há inscrições para estudantes e profissionais. Sinceramente, não sei se esta última designação contempla os professores. Também não sei em que categoria me incluir se lá quiser ir como pai e encarregado de educação.

À organização as suas opções. Legítimas como quaisquer outras. Mas reveladoras, de igual modo.

Agradeço à Amélia Pais a chamada de atenção para esta iniciativa, certamente notável e, pelos detalhes e omissões, curiosa.

Os sindicatos estão presentes numa multitude de lugares e instituições: a negociação colectiva, o paritarismo, as instituições «representativas» nas empresas e áreas especializadas, os comités técnicos ou as comissões paritárias da função pública, os conselhos de administração das empresas públicas, etc; participam igualmente em diversas instâncias do «diálogo social» como o Conselho Económico e Social (…). Eles estão aí em nome de uma representação presumida, atestada (…) por regras públicas garantindo a sua capacidade de representar os assalariados. Esta legitimidade de representar não encontra a sua fonte na própria instituição mas no laço representativo que as organizações sindicais estabelecem com o grupo social «em nome do qual» falam e agem. (Jean-Marie Pernot, Syndicats: lendemains de crise?, Paris, 2005, p. 262)

Obra a ler com atenção por todos aqueles que não foram convidados ou não terão paciência de ler a recente tese de doutoramento do agora algo heterodoxo Carvalho da Silva, autor de uma raríssima reflexão (boa ou má, ainda o não sei, porque não li) sobre o sindicalismo contemporâneo português.