Quinta-feira, 8 de Novembro, 2007


Oiçam, oiçam… 

O intelectual Vital do socratismo cada vez faz mais lembrar o Pacheco Pereira do cavaquismo, defendendo todas as medidas, abrigando todas as causas, rejeitando todas as críticas contra o poder do senhor do momento com a sua pena flamejante. Mas a cada poder maioritário o seu firme e hirto prócere destacado para iluminar a opinião pública.

Finalmente temos acesso ao seu maravilhoso texto (por sistema não compro o Público no dia em que ele escreve, mas é por mero acaso) em defesa da Escola Pública onde, pelo entremeio de coisas com sentido, surgem passagens como esta, nas quais sublinho os laivos épicos que nos fazem quase retornar a textos panegíricos de há algumas décadas sobre o Grande Pai dos Povos:

A quarta razão para o fracasso da ofensiva contra o ensino público, apesar da força dos interesses e das ideologias dominantes em contrário, deve-se à consciência de que, pesem embora as deficiências e os insucessos que persistem na escola pública, as coisas estão em vias de melhorar com as reformas em curso. Entre essas medidas, contam-se a universalização do ensino pré-escolar, a supressão de milhares de escolas do ensino básico sem condições adequadas, a “escola a tempo inteiro” (porventura a medida singular mais virtuosa entre todas), a melhoria de instalações e de equipamentos (incluindo equipamento informático), as providências para a estabilidade e qualificação do pessoal docente, a avaliação de escolas e de professores, os avanços na autonomia e responsabilidade das escolas, os programas específicos de formação e a aprendizagem para certas disciplinas (Matemática e Português), o programa Novas Oportunidades, etc.

É que é tudo bom, tudo do melhor, nada merecedor de reparo ou, quiçá, uma ligeira crítica. Parece que estamos em pleno Grande Salto em Frente Educativo. Só faltam mesmo aparecer por aí umas milícias de boina a gentilmente alinhar os que incompreendem o Grande Líder. Sei que já saltei das referências ao estalinismo para o maoísmo, mas já acho que é tudo porreiro, pá.

E logo a seguir, mais um naco que poderia ter saído directamente da pena de um Raul Rêgo a escrever sobre a República Triunfante (de saudosa memória, mas já um pouco ultrapassado) ou quiçá mesmo um Afonso Costa ou, talvez mais adequado à sensibilidade centrista socrática, um António José de Almeida. Ou então um João Camoesas em dia turbilhante, caso queiramos ser coerentes com o entusiasmo voluntarista e virtuoso da prosa.

É essa revolução em curso, apesar das resistências e interesses instalados (incluindo atavismos sindicais), e não proclamações retóricas, que pode melhorar a qualidade e reforçar a legitimidade e o prestígio da escola pública, como parte integrante do projecto republicano de emancipação pessoal, de igualdade e inclusão social e de progresso cultural.

A parte dos atavismos fica sempre bem em todo o texto que defenda qualquer revolução em curso e gosta de adjectivar quem não se acomoda à cartilha.

Só fico sem saber se, mesmo sendo eu republicano e laico (mas algo atávico), será justo excluir os monárquicos, anarquistas e crentes deste projecto de amanhãs ridentes.

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Reitor acusa Governo de financiar mais instituições norte-americanas do que portuguesas

O reitor da Universidade de Lisboa (UL), António Sampaio da Nóvoa, acusou hoje o Governo de cortar no financiamento do ensino superior público, transferindo para universidades norte-americanas, a troco de “contrapartidas reduzidas”, verbas superiores às atribuídas a algumas instituições nacionais.

No discurso de abertura do ano académico 2007-2008 da UL, António Sampaio da Nóvoa falou na necessidade de mudança, mas apontou o dedo ao Governo enquanto responsável por alguns entraves a essa mudança, como a “falta de modelos claros e transparentes de financiamento”.

O reitor referiu que nos últimos dois anos Portugal foi o único país da Europa que reduziu o investimento no ensino superior, “remetendo as instituições para uma lógica de pura sobrevivência”, apesar de estas terem cumprido as suas obrigações, nomeadamente no que respeita ao aumento do número de estudantes e à melhoria da qualidade da formação.

Afinal era a cerimónia onde também iam distribuir os diplomas e medalhas dos novos doutorados, evento a que não pode assistir porque para aparecer não o gostava de fazer sozinho e entre as duas metades do casal era uma dezena de aulas que seria necessário repor por ordem do excelentíssimo movo Estatuto Meritocrático da Carreira Docente.

O tal que não contempla que uma pessoa possa, de forma justificada, ir receber publicamente as distinções académicas obtidas por mérito próprio.

Mas quanto ao essencial António Nóvoa esteve bem, aliás, como já antes estivera quando se opusera a alguns dos termos do acordo do Estado português com o MIT, conseguindo alterar alguns dos seus parâmetros.

Posso elogiá-lo sem problemas, pois já não voltará a ser Presidente de qualquer júri de provas minhas.

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Depois do episódio recente sobre a utilização de um relatório que só estava (está?) disponível online a partir do Umbigo, aprendi os seguintes factos comparativos básicos sobre o funcionamento de alguns bloguistas e jornalistas (não vou generalizar).

  • Em alguns blogues, perante o conhecimento da existência de informação relevante sobre um assunto de interesse público, procura-se aceder a essa informação por vias normais e convencionais (em papel ou suporte digital), ou seja, através de fontes bem colocadas que, solicitando o anonimato, são mantidas dessa forma. A informação é publicada e feita a ligação para os dados integrais que podem ser consultados e confrontados com as ilações produzidas.
  • Em alguns jornais, com alguns dias de atraso (mais exactamente uns nove), acede-se a essa informação por simples pesquisa no Google, descarrega-se do sítio/blogue em questão, a que depois se alude de forma vaga, sem se ter contactado o autor que está devidamente identificado no seu espaço. A peça é feita sem qualquer menção específica à origem dos dados usados para inquirir “especialistas” ou “responsáveis”. Num caso (DN) insinua-se que nesse blogue se escreveu o que não se escreveu, e que se «alimentou» uma ideia que nem surge no post em causa. No outro (Público) não se identifica o blogue mas depois indicam-se todos os passos para lá se chegar. O que é estranho pois, se a ideia era proteger e anonimizar a fonte (porque eventualmente publicou dados “reservados” e talvez não queira que isso se saiba – o que não deixaria de ser um paradoxo, se os postou publicamente), não se fazia isso. Se não era, que tal darem logo o endereço certo e deixarem-se de coisas?

Pronto, estamos sempre a aprender como se fazem as coisas nos órgãos de comunicação de referência, como se pesquisa e usa a informação. Aqueles que têm provedores dos leitores, que têm livros de estilo e que, por vezes, se queixam da falta de regras da blogosfera.

Neste caso viu-se quem seguiu fielmente as regras 3 a 6 deste código.

Bela aliteração cacofónica a do título. Vê-se logo a minha falta de formação «literário-linguística» como diria o meu homónimo Feytor Pinto.

Mas sigamos em frente.

No Público de hoje (p. 43) o Presidente do Fórum Liberdade e Educação escreve uma bela prosa, com a qual consigo concordar na quase totalidade, apenas tendo algumas reservas a propósito de consequências perversas eventualmente imprevistas das popostas adiantadas. Mas como nada é perfeito, o texto é globalmente bom e começa de forma excelente ao fazer recordar que «os rankings avaliam os alunos, não avaliam as escolas».

Podendo considerar-se – com todo o respeito – metafórica e intelectualmente osculado desde já, Fernando Adão da Fonseca escreve o seguinte:

«Sempre que numa determinada vizinhança/zona não existam escolas suficientes para garantir o acesso de todos os alunos nela residentes, o Estado deverá lançar um concurso público para a abertura de uma escola “pública”, de propriedade estatal ou privada, e celebração do respectivo contrato-programa. Na mesma ordem de ideias, mesmo que numa determinada vizinhança/zona já existam ouytros estabelecimentos de ensino, o Estado é obrigado a integrar na rede de “serviço público de educação” qualquer nova escola que satisfaça os requisitos desta pertença, mesmo que isso possa desviar alunos de outras escolas e, portanto, estas sintam os efeitos da concorrência saudável. Só assim acabaremos com a ratoeira contra os pobres.

Já as escolas que não cumpram estes requisitos, ou seja, que não queiram pertencer à rede de “serviço público de educação”, mesmo que sejam do Estado (o exemplo clássico é o Colégio Militar) não são escolas “públicas”. São escolas que se designam por “independentes”. Prestam um “serviço de educação”, mas não um “serviço público de educação”. São, portanto, livres de cobrar as propinas que desejarem e não estão obrigadas a garantir, solidariamente com as outras escolas, o acesso aos alunos da sua vizinhança.

Oa bem. Aqui está uma proposta inteligente, mesmo se possa ter uma ou outra dúvida sobre alguns aspectos práticos. É simples sem ser simplista. Combina de forma flexível público e privado. Não é fundamentalista nas propostas.

Tomara que todos os textos sobre Educação fossem assim. Claros, objectivos e inteligentes. São um prazer raro.

Quem diz que aqui só se vê o lado negativo das coisas e que se tem aversão à iniciativa privada?

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É hoje tema de um artigo da revista Sábado. Depois digitalizo, mas desde já se registe que, não sendo «agarrada às notas», os ex-alunos a classificam como «fria e metódica» (não sabemos se a friezadava para ver o rosto dos números dos alunos), enquanto colegas a dizem de «trato difícil». Pois, nisso compreendo-a. Se fossemos colegas, eu também seria de trato difícil.

Interessante é o ex-aluno que presta declarações sob anonimato porque está «em início de carreira e nestas coisas nunca se sabe».

Pois. Mesmo eu que não estou no início.