O Diário de Notícias tem hoje uma notícia profundamente enigmática na forma como está elaborada. O título é:

Só um em 10 alunos do 6.º teve 100% a Gramática

A seguir citam-se os dados do relatório do GAVE sobre as provas de aferição no qual se refere, como aqui se mostrou, que só 11% dos alunos do 6º ano tiveram as respostas completamente certas na parte destinada a avaliar o conhecimento explícito da língua. A certo passo escreve-se que:

Os dados, destinados à informação das escolas e dos professores, foram divulgados por um “blogue” dedicado a questões de educação, chegando a alimentar a ideia de que 89% dos estudantes do 6.º ano tinham falhado na gramática. Porém, o director do GAVE, Carlos Pinto Ferreira, assegurou ao DN que essa leitura é “ompletamente” errada.

Como o blogue não é identificado (são critérios jornalísticos, estes de colherem os dados e depois não citarem onde, o que é estranho em Pedro Sousa Tavares – será apenas homonímia?) julgo que não se trata aqui do Umbigo e que não foi aqui que foram buscar a tal ideia dos 89% de insucesso. assumir isso seria demasiado narcísico. Mas, para esclarecer as coisas, o que aqui se escreveu foi que existia um esquisito diferencial entre a margem de acerto dos alunos do 4º e 6º ano na ordem de mais de 50% nas questões do conhecimento explícito da língua, enquanto que nas restantes partes da prova esse diferencial era relativamente menor.

Fico com curiosidade em saber em que blogue se terá fundamentado o DN para interpelar o director do GAVE (vou já dar uma volta pela blogosfera educativa), cuja explicação é divertida, em especial na parte das «respostas imaculadas, sem qualquer falha», quando que classificou as provas sabe que de imaculadas muitas respostas cotadas com o máximo tinham pouco. Basta ir ler os critérios de classificação. Mas fico satisfeito por saber que:

Ainda assim, o director do GAVE admitiu que “faltam apurar os motivos para a diferença entre o 4.º ano e o 6.º”, lembrando que “está a ser preparado um relatório público sobre as provas de aferição”.

Era trabalho que tinha ficado prometido estar acabado em Outubro passado, mas provavelmente os relatores foram pouso assíduos e estão a fazer provas de recuperação para se saber se podem continuar a fazer o trabalho. 

Extremamente lamentáveis são as declarações do Presidente da Associação de Professores de Português, de que agora tenho bastante orgulho de não pertencer, nem nunca ter pertencido, pois foi extremamente rápido a apontar o dedo aos colegas sem qualquer fundamentação que não seja o seu fraco senso comum.

Paulo Feytor Pinto, da Associação de Professores de Português, admitiu que a quebra poderá ficar a dever-se a factores como o facto de a componente gramatical do 1.º ciclo ser de “muito menor quantidade e complexidade” e a existência de “muitos professores, no 2.º ciclo, sem formação linguística-literária de base“.

Esta declaração só é compreensível à luz do trauma aparente que alguns (reforço o alguns) docentes formados na tal área linguística-literária de base têm relativamente aos docentes que leccionam Língua Portuguesa com origem em outras áreas académicas, mas que fizeram a profissionalização no 1º grupo de docência do 2º CEB. Sou originariamente de História, sei o que já ouvi por parte de gente de fraca formação pessoal de base, mas por acaso consegui que uma turma de PCA’s tivesse um desempenho acima da média nacional, quando muita gente super-formada de base em coiso e tal não conseguiu o mesmo.

Fica ainda por explicar por Paulo Feytor Pinto, na sua iluminada presciência, que formação de base terão então os docentes do 1º CEB que tão bons resultados alcançaram.

Regista-se ainda que PFP nem sequer levanta a questão da hesitação sobre a implementação da TLEBS durante o ano lectivo anterior, que tanta desorientação levantou nas escolas. Suponho que seja porque PFP não tenha uma especial relação de afinidade com tal ciclo de ensino, cheio de docentes… como é?… ahhhhh, já me lembro «sem formação linguística-literária de base». E quase que aposto sendo poucos associados da APP.

E depois ainda me perguntam se existem divisões na classe ou se há quem dê dela uma má imagem.

Nem precisamos de ajuda, pois com amigos destes não há qualquer necessidade de adversários ou inimigos. À primeira oportunidade atiram logo em cima dos colegas de classe.

Pelo menos a Associação e a Sociedade de Professores de Matemática têm um pouco mais de solidariedade para com os colegas e firmeza na forma de enfrentar estas questões.