E escreve no Expresso sobre o interesse de bons rankings para um melhor conhecimento do sistema educativo, do seu funcionamento e distorções. A cópia do texto encontra-se no Umbigo ao Quadrado para quem não comprou o jornal, pelo que aqui não faço especiais transcrições apenas destacando os pontos essenciais de acordo e discordância com o que é escrito

Concordo, claramente, com a necessidade de divulgação de ferramentas estatísticas sobre o desempenho de alunos, escolas e, indirectamente, professores. Balanceando os prós e os contras, prefiro que existam rankings (ou seriações, em Português Técnico) do que não existam. Porque sempre preferi que existisse informação utilizável, do que o contrário. Até por deformação, em parte do meu trabalho passado como investigador, sou daqueles que gosta da informação organizadinha e à vista de todos, doa a quem doer. Claro que, se possível, devidamente tratada e contextualizada de forma isenta. O que nem sempre acontece.

Discordo quando David Justino afirma que não são relevantes no desempenho escolar as variáveis socio-económicas dos alunos, das suas famílias e do seu contexto. Não discordo em absoluto, pois admito que individualmente é possível superar a adversidade e ultrapassar handicaps de monta. Mas, em termos globais, não acho sustentável que uma escola com uma população maioritariamente do estrato A tenha, por regra, os mesmos resultados do que outra com uma populção do estrato D. Não é uma questão de QI, de determinismo socio-genético, nada disso. O problema são mesmo os pontos de partida do trabalho que é necessário fazer. O que acontece, em muitos casos, é que o trabalho desenvolvido na segunda escola implica um esforço muito maior dos professores e da organização escolar para ultrapassar os obstáculos.

Em favor da sua opinião, David Justino acena com a consulta ou uso de um estudo que incluía variáveis de tipo social numa regressão estatística para determinar se alguma era relevante em termos resultados. E a regressão dizia que essas variáveis tinham pouca influência. Pois, até acredito. As minhas dúvidas recaem é sobre o modelo de análise.

Não sei se é um trabalho mais recente do que o coordenado por Sérgio Grácio feito para o ME quando DJ era Ministro. Se estamos a falar desse, já na época se apontaram algumas insuficiências e lacunas em termos da metodologia usada. Se é outro, não o conheço e é difícil pronunciar-me para além de uma constatação óbvia: a base municipal (apesar de melhor do que a distrital ou nacional) como unidade de análise é insuficiente, pois ainda mascara grandes clivagens, devido às famigeradas médias que incluem Chelas e o Restelo no mesmo saco. A Boavista e a Campanhã. É preciso apertar mais a malha. É difícil? Pois é! Mas já foi mais.

Mas exemplifico – e será aquilo a que DJ chama uma leitura de “senso comum”, mas o inverso é o trabalho de gabinete que desconhece fronteiras que são evidentes no terreno – com um caso que me é próximo. Duas escolas separadas por algumas centenas de metros, num mesmo concelho (com indicadores de ponderação iguais), estão separadas no ranking de exames do 9º ano por 500 lugares.

Os professores de ambos os estabelecimentos têm percursos e qualidades/defeitos muito similares (fui colega de muitos deles), o modelo organizacional das escolas é o mesmo, embora com algumas diferenças de estilo. São ambas consideradas TEIP.

O que muda de forma objectiva? Uma está mesmo no meio de um bairro problemático, enquanto outra está nas suas franjas e tem uma população mais heterogénea e distendida em termos sociais e económicos.

Será isso irrelevante? Penso que não, embora pelo modelo de análise de DJ a explicação não possa ser essa, pois as variáveis “sociais” introduzidas no modelo sejam as mesmas, para resultados extremamente díspares.

Pois, o problema só se consegue ver do terreno, cá de baixo. De cima, tudo parece casario indiferenciado. Podem chamar-lhe 2senso comum”. Eu chamo-lhe mera observação e constatação dos factos.