Sábado, 3 de Novembro, 2007


 

Another turning point, a fork stuck in the road
Time grabs you by the wrist, directs you where to go
So make the best of this test, and don’t ask why
It’s not a question, but a lesson learned in time

 

It’s something unpredictable, but in the end it’s right.
I hope you had the time of your life.

Quando há livros de estarrecer como este e a nossa descendência não discorda nada da sua aquisição e uso frequente.

E escreve no Expresso sobre o interesse de bons rankings para um melhor conhecimento do sistema educativo, do seu funcionamento e distorções. A cópia do texto encontra-se no Umbigo ao Quadrado para quem não comprou o jornal, pelo que aqui não faço especiais transcrições apenas destacando os pontos essenciais de acordo e discordância com o que é escrito

Concordo, claramente, com a necessidade de divulgação de ferramentas estatísticas sobre o desempenho de alunos, escolas e, indirectamente, professores. Balanceando os prós e os contras, prefiro que existam rankings (ou seriações, em Português Técnico) do que não existam. Porque sempre preferi que existisse informação utilizável, do que o contrário. Até por deformação, em parte do meu trabalho passado como investigador, sou daqueles que gosta da informação organizadinha e à vista de todos, doa a quem doer. Claro que, se possível, devidamente tratada e contextualizada de forma isenta. O que nem sempre acontece.

Discordo quando David Justino afirma que não são relevantes no desempenho escolar as variáveis socio-económicas dos alunos, das suas famílias e do seu contexto. Não discordo em absoluto, pois admito que individualmente é possível superar a adversidade e ultrapassar handicaps de monta. Mas, em termos globais, não acho sustentável que uma escola com uma população maioritariamente do estrato A tenha, por regra, os mesmos resultados do que outra com uma populção do estrato D. Não é uma questão de QI, de determinismo socio-genético, nada disso. O problema são mesmo os pontos de partida do trabalho que é necessário fazer. O que acontece, em muitos casos, é que o trabalho desenvolvido na segunda escola implica um esforço muito maior dos professores e da organização escolar para ultrapassar os obstáculos.

Em favor da sua opinião, David Justino acena com a consulta ou uso de um estudo que incluía variáveis de tipo social numa regressão estatística para determinar se alguma era relevante em termos resultados. E a regressão dizia que essas variáveis tinham pouca influência. Pois, até acredito. As minhas dúvidas recaem é sobre o modelo de análise.

Não sei se é um trabalho mais recente do que o coordenado por Sérgio Grácio feito para o ME quando DJ era Ministro. Se estamos a falar desse, já na época se apontaram algumas insuficiências e lacunas em termos da metodologia usada. Se é outro, não o conheço e é difícil pronunciar-me para além de uma constatação óbvia: a base municipal (apesar de melhor do que a distrital ou nacional) como unidade de análise é insuficiente, pois ainda mascara grandes clivagens, devido às famigeradas médias que incluem Chelas e o Restelo no mesmo saco. A Boavista e a Campanhã. É preciso apertar mais a malha. É difícil? Pois é! Mas já foi mais.

Mas exemplifico – e será aquilo a que DJ chama uma leitura de “senso comum”, mas o inverso é o trabalho de gabinete que desconhece fronteiras que são evidentes no terreno – com um caso que me é próximo. Duas escolas separadas por algumas centenas de metros, num mesmo concelho (com indicadores de ponderação iguais), estão separadas no ranking de exames do 9º ano por 500 lugares.

Os professores de ambos os estabelecimentos têm percursos e qualidades/defeitos muito similares (fui colega de muitos deles), o modelo organizacional das escolas é o mesmo, embora com algumas diferenças de estilo. São ambas consideradas TEIP.

O que muda de forma objectiva? Uma está mesmo no meio de um bairro problemático, enquanto outra está nas suas franjas e tem uma população mais heterogénea e distendida em termos sociais e económicos.

Será isso irrelevante? Penso que não, embora pelo modelo de análise de DJ a explicação não possa ser essa, pois as variáveis “sociais” introduzidas no modelo sejam as mesmas, para resultados extremamente díspares.

Pois, o problema só se consegue ver do terreno, cá de baixo. De cima, tudo parece casario indiferenciado. Podem chamar-lhe 2senso comum”. Eu chamo-lhe mera observação e constatação dos factos.

Já agora dêem lá mais dois euros e comprem o Sol, ou então fiquem-se com os recortes que eu for fazendo e deixando no arquivo. Neste caso uma excelente crónica de Mário Ramires, que pode ser consultada integralmente aqui, mas da qual é impossível não extrair estes pedaços:

«Provavelmente nenhum aluno chumbou por faltas no último ano» disse a ministra em entrevista ao DN. Provavelmente? Como provavelmente? Então o Ministério da Educação, que divulga números exactos e se vangloria com eles, não sabe quantos alunos chumbaram por faltas no último ano?
(…)
Maria de Lurdes Rodrigues diz as coisas com ar tão determinado que não pode viver no mesmo mundo do procurador-geral da República e dos milhares de professores que diariamente lidam com sérios problemas sociais e educacionais nas escolas de todo o país. “Provavelmente”, Maria de Lurdes Rodrigues não vive neste mundo.

A isto acrescentaria três detalhes:

  1. Obviamente que o ME sabe tudo e mais alguma coisa que se possa transformar em informação estatística ou outra, pois tudo está a ser minuciosamente monitorizado, desde informações sobre as famílias dos alunos a todos os detalhes sobre pessoal docente e não docente. São tabelas e tabelas do mais detalhado possível. Aquilo que os CE’s são obrigados a enviar para o Big Brother ministerial chega a ser assustador. Neste momento, quem por lá estiver, tem certamente acesso a todo o meu historial como professor (ou mais), horários, assiduidade, atestados passados e quase que futuros. Por isso, tenho muito cuidadinho em aqui nunca fugir aos factos.
  2. Obviamente que chumbaram alunos por faltas e é falso que o Estatuto do Aluno em vigor seja demasiado permissivo em matéria de justificação de faltas. Pelo contrário, as propostas actuais é que irão permitir que em Cebolais de Baixo “acordar tarde” seja justificável, enquanto na Tremoceira de Cima o não é. Ou mesmo em escolas quase contíguas. Tudo em nome da autonomia, claro. Que não passa por aí, mas por outras coisas. Antes, e por mim falo, justificação mesmo, só com documento credível, porque assinaturas dos EE’s em recadinhos, há muito que são falsificáveis.
  3. Obviamente que MLR vive neste mundo. Porque se não vivesse, não aracríamos com as consequências dos seus actos; ou de quem age com em seu nome.

Hoje logo a partir da primeira página do Expresso, a história do recuo do PS nuns detalhes do Estatuto do Aluno. Claro que tudo empurrado a partir de Belém, onde os assessores para a Educação são, olha que interessante, os autores do anterior Estatuto do Aluno, até agora injustamente vilipendiado por esta Ministra.

É uma espécie de desforra de David Justino, que também surge a comentar os rankings de exames do Secundário feitos pelo Expresso, quebrando um silêncio que vinha do fecho da revista Pontos nos ii.

Mais logo tentarei explicar aquilo em que concordo com a sua visão e aquilo de que discordo. De qualquer modo, hoje justifica-se o investimento na compra, pelo menos, do Expresso e do Público, pois há lá por dentro muitas opiniões interessantes, se nem sempre pelo conteúdo, por vezes pela forma como, através de um enorme contorcionismo, há quem querira fazer crer que se está na mesma posição, depois de a ter abandonado (Fernando Madrinha é exemplar nisso).

Mas há mais, como um quase excelente novo editorial de José Manuel Fernandes, também ele em descolagem acelerada deste ME. Ou mesmo a forma corrosiva como VPV assume o discurso que os defensores da escola privada têm vergonha de assumir.

Por isso, no conjunto, são pouco mais de 4 euros de investimento e ainda se ganha um cupão para um dvd gratuito na próxima semana.

E, apesar de recuperado das aflições informáticas que afligiram parte do equipamento, sempre me dará mais tempo para ir gigitalizando alguns destes artigos para o meu arquivo pessoal que vão ficando cada vez mais volumoso.

Uma coisa interessante em alguns articulistas é que, provavelmente entusiasmados com a contestação que suscitam – confundindo isso com debate polémico e inovador -, regressam várias vezes a temas sobre os quais conhecem pouco, sobre o qual leram alguma coisa, mas muito pela rama, mas acerca de que têm posições muito convencidas e supostamente convincentes.

João Miranda volta hoje no DN (e também no Blasfémias, em várias prosas curtas reactivas), à Educação e à defesa do cheque-ensino.

Se feita de forma articulada esta seria uma questão que se poderia discutir, caso em Portugal o ensino privado – em especial o que acredita ser o alfa e ómega da Educação – se preocupasse em aparecer onde os problemas a sério existem. Porque admito que há ensino privado em algumas zonas problemáticas, mas esse também não surge em destaque nos tops, pois acaba por ter desempenhos comparáveis aos das escolas públicas nos mesmos contextos.

Só que João Miranda faz a discussão alicerçado em Milton Friedman e, logo aí, percebemos quão desfasado João Miranda está da realidade nacional, da história do nosso sistema de ensino e porque o Estado o acabou por dominar, enquanto o sector privado se reduzia (desde há 100 ou mais anos) a nichos específicos do ponto de vista social, religioso e político.

E depois escrevem-se barbaridades destas onde se inverte toda a realidade, como num espelho que dá a aparência de mostrar o que existe, só que o faz ao contrário:

Um sistema público de educação acaba sempre por ficar refém de interesses particulares. Fica refém dos grupos sociais mais esclarecidos e com maior poder reivindicativo que conseguem captar mais recursos públicos para as suas zonas residenciais. Fica refém dos grupos com poder político (sindicatos dos professores, grupos religiosos, partidos políticos, burocratas) que conseguem colocar os recursos públicos ao serviço dos seus interesses. Os custos da educação disparam e a qualidade baixa. Os problemas são maiores nas zonas residenciais mais desfavorecidas. Estas são zonas que os burocratas desprezam e que os melhores professores evitam. Para agravar o problema, as zonas discriminadas pelo sistema público de educação são também aquelas cujos habitantes não têm recursos para pagar escolas privadas.

Com a leveza que dá a ignorância ou a crença no poder “provocatório”, qualificam~se os professores que trabalham em zonas desfavorecidas como os “piores” (claro que um bom professor natural do interior alentejano estará sempre num liceu lisboeta, ou um docente transmontano que se queira excelente terá sempre de emigrar para a ES Aurélia de Sousa), afirma-se que a escola pública é presa de interesses variados e parece que o ensino privado é que é independente e transparente.

Isto é apenas ridículo.

Mas o maior disparate de todos no nosso contexto é esperar que, com um cheque ensino nas mãos, os miúdos do bairro social problemático a 300 metros da minha escola vai ter a possibilidade de ser admitido num colégio da excelsa Cooperativa Fomento deixando de fora os filhos do senhor doutor-arquitecto Fuas de Tal, filho do senhor juiz Roupinho das Tantas que casou com a filha do senhor banqueiro Acácio dos Remédios.

Tudo isso sabendo nós que a selecção à entrada é feita com base em credos religiosos claramente expressos, em entrevistas que implicam deslocações onerosas e uma conversa para que muitos dos pais destes miúdos não estão preparados. Assim como se privilegia o acesso de linhagens à escola, para mais tarde emoldurar nos livros de glórias.

Fala-se muito em “liberdade de escolha das famílias”, mas sabemos que isso nunca seria assim. A verdade seria que estas escolas privadas poderiam alargar mais ou menos a sua base de recrutamento, mas sempre para as imediações do seu núcleo duro de frequentadores. E deixariam entrar um ou dois “coitadinhos” para exibirem em nome do acesso das minorias desfavorecidas.

Estou a fazer um processo de intenções? Nada disso. É já o que se passa em algumas destas instituições. Lembro-me de ter visitado uma – com excelentes condições, fabulosas mesmo – e me terem sido apresentados alguns dos “pobrezinhos” que enfeitavam o cenário e ajudavam a dar uma imagem de consciência social. Caso único? Não, nada disso. Aliás, quase prefiro as que assumem com clareza a segregação social.

Claro que a opção seria que estas cooperativas da excelência abrissem colégios nestas zonas para assim colherem os cheques-ensino na sua origem. Mas isso era capaz de ser uma chatice das grandes, porque o ambiente nem sempre é o melhor para a excelência.

E depois é tão giro um liberal que critica o Rendimento Mínimo Garantido ou de Reinserção Social depois defender um subsídio deste tipo que, na prática, desempenha uma função semelhante. A diferença é que aquele rendimento pode ter paradeiro incerto (o supermercado, a farmácia, o talho, a padaria, eventualmente um dealer), enquanto este subsídio iria parar às mãos certas.

Quando, em vez de quererem colher o cheque-ensino do Estado, estes focos de excelência, com tantos e notáveis ex-alunos e patronos endinheirados, investirem seriamente numa obra de solidariedade social e mostrarem, indo ao campo de batatas, que sabem lavrar, então poderemos discutir a coisa em outros termos.

Encobrir isso com a aplicação de cheques-ensino ao sector público é um paradoxo meramente divertido, porque a sua desnecessidade é completa a partir do momento em que exista verdadeira autonomia das escolas e famílias quanto à matrícula dos alunos.

Na realidade em que vivemos – longe da americana, em que qualquer um tira um curso superior com bolsa (e não com cheque-ensino) desde que saiba correr, dar cabeçadas e empurrões num jogo de futebol americano para gáudio da instituição – as ideias de João Miranda são apenas isso: ideias, estimáveis como quaisquer outras, mas equivalentes em eficácia a qualquer despacho do senhor secretário de Estado Valter Lemos.

Ainda sem possibilidade de uma análise comparativa com a situação portuguesa – embora semelhanças e diferenças se notem com alguma facilidade – a ligação para o espaço da Inspecção de Educação da Holanda que o Miguel Latas me enviou. Atenção especial para o documento que explica o enquadramento da acção da dita IE em relação à chamada Educação Primária. Aqui poderemos encontrar material que terá sido considerado inspiracional para alguns dos nossos responsáveis políticos e não só.

Página seguinte »