Sexta-feira, 2 de Novembro, 2007


 

E que me desculpem aqueles de quem tinha materiais ou sugestões para postar e que ainda não foi desta.

Uma dúvida corrói o meu âmago neste momento.

Depois de 15 anos em que o discurso pedagógico – em particular na vertente eduquesa mais hermética – assentou na avaliação das competências desenvolvidas pelos alunos, sendo tudo observado de forma contínua ao longo do mítico processo de ensino-aprendizagem, todo ele interactivo e cheio de reavaliações perante a constatação das dificuldades dos alunos, assim como no sublinhar do processo e não necessariamente dos resultados formais e da componente formativa da avaliação (a esse respeito ainda hei-de aqui citar com algum cuidado uma obra de Roland Albrecht que fez alguma escola entre nós nas bibliografias dos cursos das ESE’s e Ramos de Formação Educacional) como metodologia essencial para aferir o verdadeiro sucesso educativo dos alunos, descobrimos agora – e de súbito – que tudo isso era um enorme erro e que, no fundo, o aluno pode ir apanhar sol umas semanitas, voltar e, desde que faça umas provas de recuperação e prove ter feito as aprendizagens, as competências, a avaliação formativa e a avaliação contínua podem ser arredadas para o limbo das pedagogias falhadas ou claramente insuficientes para abarcarem a complexidade da questão.

Ufa. Que parágrafo denso. Mas acho que deu para perceber que temo pelo modelo que agora esteja a ser ensinado nos novos cursos para professor-generalista por ordem e graça do senhor secretário de Estado Valter Lemos, aquele que ontem apareceu a dizer que não sei o quê, especificamente e em geral.

O que percebo é que a seguinte passagem deixou de estar claramente na moda, pelos lados do ME:

A avaliação formativa, considerada parte integrante do processo de ensino-aprendizagem, assume um papel preponderante devido à função formativa que desempenha. A avaliação formativa, apresentada no novo sistema de avaliação do ensino básico como a principal modalidade de avaliação, consiste no acompanhamento permanente da natureza e qualidade da aprendizagem de cada aluno, orientando a intervenção do professor de modo a dar-lhe a possibilidade de tomar as decisões adequadas às capacidades e necessidades dos alunos.

Onde se encontra esta passagem? Numa obra já por aqui várias vezes citada – A Nova Avaliação da Aprendizagem – O Direito ao Sucesso (Lisboa, Texto Editora, 1992, p. 27).

De quem é a autoria? Bem, a obra tem cinco autores, mas o primeiro é Valter V. Lemos, que surge à cabeça por alguma razão, visto que não é por ordem alfabética, nem a gentileza permitiu que as duas senhoras co-autoras tivessem a prioridade.

Já sei, já sei. Só os burros não mudam de opinião. O problema é mesmo esse, porque…

Lembram-se quando José Miguel Júdice defendia ardorosamente Maria de Lurdes Rodrigues e desancava a malandragem dos professores? Eu cá lembro-me bem. E duplamente bem.

Num caso passou quase um ano, mas no outro são meros três meses. Sei que só os burros não mudam de ideias e que Júdice não o é. Mas, por isso mesmo, sempre achei que ele devia ter enxergado mais longe e não ter sido embalado pelo discurso pseudo-meritocrático do ME. Pronto, tinha os faróis muito fraquinhos e não deu para alumiar ao longe.

Agora que o ciclo das medidas se aproxima do culminar, Júdice já começa a ver claramente. E, após afirmar a sua fidelidade à escola pública no seu percurso pessoal da 1ªa classe à licenciatura, o que vê ele agora:

Uma cultura de laxismo, de facilitismo, de falta de rigor, que recusa a disciplina e o trabalho, que nivela por baixo, serve os mais desfavorecidos ou prejudica-os? A percepção dos jovens – baseada em factos inequívocos – de que não precisam de se esforçar para passar de ano provoca uma tendência crescente para a diminuição do esforço, ou motiva os estudantes a trabalhar? No mundo moderno basta a escolaridade formal para progredir ou, pelo contrário, os hábitos de trabalho e a aprendizagem real é que fazem a diferença? Manter na escola os que não vão às aulas, não estudam, não aprendem e que ninguém castiga é bom para eles e para os que querem trabalhar? Para os mais desfavorecidos (e com excepção do Euromilhões) existe algum meio eficaz de progresso do que uma escola pública de excelência?

Para tudo isto a Ministra da Educação dá respostas idênticas às que deram os seus equivalentes do PSD. Mas ela faz parte de um governo de esquerda, de um governo que tem de estar emocional e culturalmente forjado na luta pela qualidade e rigor do ensino público como instrumento de igualdade. Por isso é inconcebível o que diz, o que justifica, o que propõe. Como é incompreensível que se mantenha no Governo. E que entradas de leão são, em regra, previsíveis. Como, está a ver-se, são fáceis as saídas de sendeiro.

Pois, era previsível. Nós sabíamos. Quem de entre os docentes não sabia que toda a conversa sobre o mérito dos docentes ia acabar na completa rebaldaria (estou a usar o termo de uma forma erudita, como ainda recentemente foi usado por Pedro Norton) quanto às exigências de avaliação dos alunos, em nome do Sagrado Sucesso?

Pena que a JMJúdice tal previsibilidade não tivesse logo ocorrido. Já tem idade e experiência para saber que isto acaba sempre assim.

Assim como deve saber que MLR é apenas um rosto para desgaste rápido e que a definição das políticas erradas não passa propriamente por ela.

E já agora, um último remoque, afinal pedir a demissão da Ministra deixou de ser exclusivo dos façanhudos sindicalistas comunistas?

Disseram no passado recente, repetidamente, a Ministra e os seus Secretários de Estado. Para que não digam que critico tudo o que vem do ME até vou tomar como excelentes tais informações.

Mas como posso exercê-la se os alunos estiverem todos a banhos, ao sol, ou a fazer coisas mais apelativas, e me restar fazer-lhes provas de recuperação?

Tudo com o beneplácito da tutela?

O trabalho do Público sobre os resultados das escolas – embora não diferindo no essencial nos resultados do feito pelo DN – é demasiado extenso para uma análise de passagem. precisa de muita leitura e ponderação.

Mas o mesmo já não é necessário em relação à atitude geral do jornal, do seu director e generalidade dos colunistas em relação ao ME. A coisa está mesmo para doer.

Vejamos José Manuel Fernandes no Editorial:

Quando a ministra da Educação tomou a decisão (ou lhe ditaram a decisão) de divulgar os resultados dos exames do 9º e 12º ano sem estabelecer um embargo sabia o que estava a fazer. Sabia que assim condicionaria o debate público que se seguiria, quanto mais não fosse porque esse debate se faria sem que um conjunto de trabalhos que a pluralidade de órgãos de informação costumam preparar estivessem disponíveis e fossem comparáveis.

Se retirarmos os arrufos quanto à questão da rapidez da divulgação dos resultados, fica logo a abrir a afirmação (mais do que insinuação) de MLR não ser mais do que a testa-de-ferro de quem efectivamente manda nas acções do ME e nas suas aparições públicas e agenda mediática que este ano favorece claramente o DN, como antes favoreceu a Visão. Isso é algo que quem observa com atenção o seu currículo e desempenhos já percebeu desde os seus primeiros tempos. Ainda bem que agora a coisa é verbalizada em publicação de referência.

Para além disso temos o não deixar passar em claro das declarações da entrevista de ontem à RTP, em que a Ministra menoriza por completo a assiduidade às aulas.

E há, entre (o)as colunistas regulares, a crónica demolidora da insuspeita Graça Franco, que com cortante ironia declara que, contra o pedido dos filhos que são alunos das escolas públicas, levou um ano a decidir-se por uma prosa em desfavor da acção de MLR.

Ma há mais,muito mais, numa edição histórica do Público, para ir desfrutando e mais tarde recordar.

(c) Antero Valério

Sai hoje e já vou ver se o compro para fazer as inevitáveis comparações com o do DN e do do Expresso que só sairá amanhã. Vai ser interessante reparar se existem grandes diferenças e se elas se devem a critérios de tratamento dos dados ou a algo mais.

Entretanto, uma sexta-feira com aulas das 10 às 5, mais coisa menos coisa, só me permitirá bisbilhotar o assunto com alguma atençaõ pelos intervalos.