Devido a problemas com o hardware cá de casa, não estou nas melhores condições para digitalizar páginas de revistas e esta merecia ser toda mostrada. Talvez amanhã.

Mas fica o essencial da notável coluna de José Gil na Visão de hoje, a desmontar boa parte da estratégia deste governo que está a tentar domesticar todas as arestas daquela coisa a que ainda chamamos democracia. Por enquanto, vai tentando, falta conseguir.

As iniciativas que visam simplificar (para bem gerir e «modernizar») multiplicam o número das complicações burocráticas existentes. Ao tirar a iniciativa, ao querer regulamentar até ao ínfimo pormenor a actividade dos funcionários, transforma-nos em máquinas. E ser robot cansa. Como cansam as reuniões e mais reuniões, tantas vezes inúteis mas obrigatórias. As pessoas andam esgotadas.

Eis como o autoritarismo, como estilo de governação pessoal, se transforma em rede impessoal de controlo dos serviços e dos homens: ao contaminar os seus conceptores, o vírus do autoritarismo torna autoritários os próprios serviços e avaliações. Autoritarismo e injustiça da rede e dos que cumprem rigidamente (quer dizer «como deve der», seguindo estritamente a lei) os seus imperativos. Com tudo isto, desenvolvem-se as rivalidades, as invejas, os golpes baixos, a mesquinhez, à medida da pequenez das disposições que se impõem – o velho ambiente retoma os seus direitos na nova sociedade tecnológica do conhecimento.

O governo construiu assim uma poderosa máquina de produção de subserviência e controlo das subjectividades desmotivadas. A nova lei da subjectivação formula-se assim: menos dinheiro e mais funcionalidade (gestão do défice oblige) em troca de mais obediência e menos qualidade de vida (biopoder do Estado). (José Gil, Visão, 31 de Outubro de 2007, p. 30)