Seguindo um desafio deixado pelo J.M.Alves no Terrear, há que pensar em conjunto em alternativas ao modelo de avaliação proposto pelo ME, não ficando apenas pelas críticas ao que nos é servido.

A questão não é fácil e não vai lá apenas com listas de princípios norteadores com que todos podem concordar enquanto não se traduzem num modelo prático concreto. Essas listas existem, com maiores ou menosres variações, em abundante bibliografia sobre o tema. Só que essas listas ou são, como escrevi, demasiado abrangentes ou então fixam-se demasiado a contextos específicos (há sistemas de avaliação extremamente sofisticados em pequenas comunidades educativas americanas que dificilmente são exportáveis para um universo de 140.000 docentes). Portanto, devemos atender à realidade específica com que lidamos, em Portugal, neste momento.

Durante a semana, se o trabalho o permitir, gostaria de abordar ao de leve três aspectos que envolvem a actual regulamentação da avaliação dos docentes no nosso país e que são:

  1. Os seus aspectos paradoxais, porque incoerentes com muito do que envolve actualmente a Educação tanto em matéria da avaliação dos alunos como da própria lógica da gestão dos recursos humanos pelo ME.
  2. Os seus aspectos negativos, nomeadamente explicando como um sistema formalista, burocrático e piramidal, para além de derivar de lógicas que muitos consideram ultrapassadas, é tão pesado que acabará por ser impossível de aplicar com rigor, correndo o risco de cair em fórmulas rotineiras tão más ou piores do que o modelo que pretende substituir.
  3. Que propostas alternativas se poderão apresentar, em especial no sentido de aligeirar e tornar mais justo, exequível e efectivamente rigoroso este modelo. Não tenho ilusões quanto à minha capacidade de erguer uma teorização ou um modelo alternativo eficaz ou vagamente consensual, pois essa nunca foi uma área de estudos que me interessasse particularmente, mas como acabei por ler, quase inadvertidamente, alguma bibliografia sobre Capital Humano nas organizações, como o seleccionar e motivar, talvez possa ter pelo menos uma ideia válida.

Tudo isto com a consciência da quase inutilidade prática do acto, pois o ME acabará por fazer a asneira que tem em mente, por muito que seja avisado do erro que aí vem. Mas os seus objectivos são evidentes – estrangular a progressão e não premiar o mérito – e tudo o que surge pretende justificar isso.

No entanto, e como este espaço até se tornou razoavelmente frequentado (as cerca de 1700-1800 entradas em média nos últimos dias o parecem provar), sempre pode ser um contributo para colocar alguns de nós a questionar o modelo do ME, mas também a interpelar-se sobre o que pensa ser a forma certa de sermos avaliados.

Porque quem lecciona não deve, nem tem, medo de ser avaliado. Afinal, somos dos profissionais que fizeram um trajecto mais longo sob avaliação e estamos habituados a isso. E essa é uma realidade que o ME parece desconhecer. A de que os docentes foram alunos a vários níveis e sempre foram avaliados de acordo com critérios definidos por outrém, desde os bancos da escolaridade obrigatória às pós-graduações de acesso à profissionalização, não esquecendo as acções de formação contínua, cujo modo e critérios de funcionamento sempre dependeram do ME.

Já o mesmo não se passa com as sombras que povoam alguns gabinetes ou responsáveis políticos que foram escolhidos por alguém que, por sua vez, só indirectamente foi eleito, visto que – se é para levar o regime democrático a sério e não engolirmos as suas simplificações – quem votou, teoricamente votou em deputados para o Parlamento.

Mas esta é toda uma outra conversa que agora aqui não interessa (quase) nada.