Enorme argumento do Ministério para amesquinhar a imagem dos professores perante a opinião pública, o tempo que os professores portugueses trabalham está longe de ser apresentado como deveria.

Se repararmos bem nestas tabelas constatamos que existe uma importante diferença entre tempo de trabalho total e tempo de trabalho na sala de aula. E este é um aspecto que se costuma ignorar e que passa por tudo aquilo que um professor português faz numa escola que não faz em muitos outros países (sendo que a amada Finlândia não aparece nesta tabela e é pena), desde trabalho administrativo básico (inserir os nomes dos alunos nas bases de dados e listas das tumas, preencher formulários às dúzias para os processos dos alunos) até ao desempenho de funções que deveriam ser asseguradas por técnicos especializados (apoios a alunos com NEE, acompanhamento dos alunos em actividades extra-curriculares, preenchimento de grelhas estatísticas para diversos tipos de dossiers ou estudos estatísticos do ME, planos individuais para alunos que se recusam a aprender, mais os relatórios a explicar se o que foi foi mesmo assim, tudo multiplicado por 20, 25 ou 30 por turma).

Se repararmos, nestes cálculos, para além do 1º CEB, mais de metade do trabalho dos docentes é feito em outra coisa para além de dar aulas. O que poderá ser considerado normal, mas nem sempre reconhecido. Se o Ministério pretende que os docentes leccionem mais aulas, que tal se lhes retirassem toda a carga de trabalho administrativo que agora lhes cai em cima e que, por exemplo, há 20 anos era desempenhado por pessoal administrativo que eu bem me lembro? Ou que contratasse técnicos para facultar o apoio devido aos alunos com necessidades específicas de acompanhamento? Porque um(a) psicólogo(a) e um(a) ou dois(duas) professoras de Ensino Especial por agrupamento de milhar de alunos pode ser um enorme avanço em relação ao Terceiro Mundo, mas não chega para chegarmos aos calcanhares do Primeiro.

Isto para não falar no facto do ME não considerar como aulas aquilo que muitas vezes efectivamente o são. E como os dados reportam a 2005 não sei se já não passarão por aqui as famosas aulas de substituição, em que aulas não eram consideradas aulas, até o tribunal aparecer a demonstrar o contrário.