Agosto 2007


É verdade que se me pedirem mesmo, mesmo, para escolher um escritor favorito de sci-fi acabo no Philip K. Dick, por muita alucinação psicotrópica que o homem tenha passado ou por apressadas que sejam muitas das suas obras. Ou até não deixo de nomear a ursula K. Le Guin, o Clifford Simak ou o Ray Bradbury como uma boa segunda linha.

Mas é certo, certinho que em matéria de obra individual propriamente dita, esta do Robert Heinlein ainda é aquela que me marcou mais no momento da sua leitura. Não só porque Valentine Michael Smith veio de Marte para ensinar os humanos a grocar e a partilhar água (quem quiser saber o que é, leiam as mais de 400 páginas em letra miudinha), antecipando muito do espírito do final da década de 60.

Não é uma escolha obscura e muitíssimo erudita porque o autor foi dos mais premiados e com maior sucesso comercial na área, assim como este livro original de 1961 (edição nacional em 1983)  ganhou o prémio Hugo, uma espécie de Nobel para os maluquinhos de ficção científica.

Mas é a escolha certa.

Manuais do 1.º ciclo estiveram em risco

Governo aceitou aumentos por pressão de editoras
A possibilidade de algumas editoras deixarem de publicar manuais do 1.º ciclo, devido à sua reduzida rentabilidade, chegou a ser equacionada durante as negociações do futuro acordo de preços, apurou o DN. Este terá sido, de resto, o factor decisivo que levou o Ministério da Educação a aceitar rever os valores destes livros acima da inflação em 2008, altura em que poderão subir até 6%.

Assim se vê que o ME quando negoceia só espezinha quem pode ou a quem lhe convém. Perante o lobby das editoras já é possível ceder em toda a linha, como se a potencial existência de menos manuais fosse um ai-jesus que o mundo está a acabar.

Aliás, se o número de manuais a concurso para adopção descesse para metade ficaríamos todos a ganhar, excepto as editoras que obviamente preferem ter dois manuais com 10% de mercado do que um com 15%.

Alguém acha, com sinceridade, que deixariam de existir manuais do 1º ciclo se os preços ficassem indexados à inflacção oficial, aquela inflacção que serve para regular os aumentos salariais? Só alguém muito ingénuo ou que não conheça como funcionam as máquinas editoriais. A principal consequência seria uma salutar auto-regulação das editoras na forma como planeiam a produção de manuais e os respectivos custos.

Mas percebe-se que depois do descalabro em torno da TLEBS, o ME sentiu que não tinha autoridade para impôr o que quer que fosse às editoras que levaram o barrete de fazer manuais e gramátivcas de Língua Portuguesa que agora vão ficar nas prateleiras.

A Confap já apareceu a protestar contra estes aumentos, mas é claro que a sua voz só interessa e é valorizada quando serve para atacar os docentes de forma instrumental.

E assim mais uma vez se desmonta o mito do grande poder dos sindicatos dos docentes junto do ME. Assim como se revela que, afinal, as políticas ministeriais estão longe de obedecer a princípios de interesse público, ou mesmo de rigorosa contenção orçamental, a menos que os alunos beneficiados com os dinheiros dos SASE ainda venham a sofrer maiores restrições.

História e Geografia de Portugal
Língua Portuguesa
Estudo Acompanhado
Formação Cívica
TIC
Sala de Estudo/Substituições

Quem é que diz que já não sou um verdadeiro professor generalista? Só me falta Área de Projecto, porque também não dá para incluir mais horas.
Mas só posso, com sinceridade e nenhuma ironia, agradecer por terem acedido ao meu pedido de horário de funcionário público.

Um beijinho para a Isabel C., ora pois, porque ter de me refazer o horário todo graças à forma como a DREL aplica legislação a gosto não foi coisa fácil. Mas eu continuo a esperar pela resposta à reclamação dentro do prazo legal – telefonemas não contam para efeitos oficiais e se as leis são para aplicar, são mesmo para aplicar – para além de que espero pelo parecer da Provedoria de Justiça.

Isto era uma maravilha mesmo quando os anos 80 estavam a acabar, nos últimos tempos do vinil. Sei que ela fez discos depois disso com espectáculos e tudo, mas não entram na minha contabilidade, que parou na colectânea Collected de 1990 que espera que eu substitua a agulha partida da velha aparelhagem para voltar a rodar.

E nem guardo rancores por ter sido uma desilusão o espectáculo que a rapariga deu na Aula Magna aí por 1990 ou 1991 em versão de trio ou quarteto, incapaz de reproduzir a exuberância destes ritmos.

Nota-se sempre que se fala na eventual necessidade de uma estrutura do tipo “Ordem” para os professores que existem resistências e alguma fricção por parte de quem está mais sintonizado com o movimento sindical.

Mas vamos abstrair-nos do caso concreto do movimento pró-Ordem que temos, de que não sou militante e cujos meandros mais específicos  desconheço.

Fiquemo-nos apenas no plano teórico.

  • Desde quando uma ordem profissional e o sindicalismo são incompatíveis, desde que tenham claramente definidas as respectivas esferas de intervenção?

Lembremo-nos que um sindicato é um sindicato (e podem existir vários. como sabemos por múltipla experiência directa) e a sua acção deve incidir essencialmente sobre questões laborais, enquanto uma Ordem tem outro tipo de intervenção – nomeadamente no plano da definição de um Código de Ética ou Deontologia Profisional ou ao nível da definição dos critérios de acesso à profissão- e deve ser apenas uma para todos. Não sei se será esse aspecto unificador que desagrada ao nosso fragmentado movimento sindical, por sentir que assim a sua representatividade sairia diminuída. Mas essa não é uma razão válida para obstruir a criação de uma Ordem que, à semelhança de outras profissões, possa exercer também um papel de regulação no acesso à profissão, não deixando para o Estado todas as funções nessa área e na acreditação da formação académica para a docência.

  • Uma outra objecção, que o FTrindade inclui num comentário, é que uma Ordem é uma organização para regular profissões de tipo liberal, exercidas por conta própria.

Discordo na teoria e na prática, porque médicos, engenheiros, arquitectos e advogados que trabalhem para o Estado não deixam de pertencer à respectiva ordem profissional, para além de que não podemos esquecer que nem todos os professores estão exclusiva ou sequer parcialmente ao serviço do Estado. Existe um sector privado da Educação, no qual curiosamente são muitas vezes atropeladas algumas elementares regras no exercício da docência, que a existência de uma Ordem poderia ajudar a controlar.

Por isso, acho que Sindicatos e Ordem – veja-se o caso dos médicos – não são incompatíveis, mas complementares. Claro que a convivência, em especial nos primeiros tempos, seria passível de diversos choques e conflitos, mas isso não impede que deixar ao Estado toda a regulação da nossa actividade é uma enorme demissão das suas responsabilidades pela própria classe docente.

Sinceramente não é querer ser apenas desconstrutivo, mas um tipo lê e lê isto (para encontrar o relatório deve seguir-se o link das últimas edições da ANQ que não é directo) e tenta encontrar assim algo de novo, qualquer coisa que justifique, e muito pouco ou nada. E a reacção é quase sempre a mesma: porquê, quanto custou e haveria mesmo necessidade?

Ao longo de uns bons anos em qualquer carreira, em especial quando ela entronca numa determinada área de formação, temos tendência para uma certa endogamia no plano das amizades e relações pessoais.

No caso dos professores existe de igual modo a endogamia propriamente dita, pelo que em férias, feriados e outros dias santos não é raro que se juntem grupos mais ou menos alargados nos quais o(a)s professore(a)s e educadore(a)s são a larga maioria e onde as conversas acabam por varejar em torno do nosso quotidiano, respectivos dilemas, ocasionais satisfações e perspectivas de futuro.

Nestes casos, os grupos minoritários são por via de regra abafados ou até se inibem de participar de forma muito activa em algumas conversas. Pelo que não é raro que fiquemos a discutir em circuito fechado, o que se é bom pela troca de experiências, pode ser menos positivo porque não faz essa troca com o exterior da profissão.

Mas quando os grupos são menores, ou a distribuição profissional diversa, as conversas seguem outros rumos ou então assumem tons diferentes, sendo possível perceber como parte do mundo circundante encara os docentes, a sua situação profissional e a imagem que fazem do seu conjunto.

Pela minha experiência, que nem é extremamente alargada e cada vez o é menos pelos motivos acima descritos, existem duas principais tendências entre os elementos dos grupos profissionais que têm qualificações académicas equiparadas às dos docentes.

Ressalvando sempre que o nosso caso particular – porque eu ou nós, claro, sou(somos) amigo(s) deles e por isso sou (somos) excepção(ões) à regra – os docentes são vistos quase sempre das seguintes formas:

  • Como profissionais abnegados e que fazem o que podem dadas as circunstâncias, pelo que até temos valor, mas que, afinal, acabamos por ser uns coitados nas mãos do sistema, dos alunos e do ministério. Pelo que, embora dignos de respeito e consideração, não deixamos de ser igualmente merecedores de uma atitude de pena generalizada.
  • Ou como uns desajeitados, uma espécie de idiotas úteis que foram para professores por não saberem fazer outra coisa e por terem optado pela solução fácil, ao não enveredarem por outras profissões de maior prestígio e exigência. Esta é normalmente a posição daqueles que acrecentam que dar aulas qualquer um dá, mas que no caso do autor do discurso isso não se aplica porque, embora sendo fácil, ele(a) nunca teria paciência para aturar isso, sendo “isso” as aulas e os alunos.

Não vou dizer que estas imagens são completamente erróneas e que não se aplicam, com maior ou menor fidelidade, a uma parte da classe docente. Parte essa que eu não possuo estudos sociológicos ou outros para quantificar de forma exacta. Resta-me o olhómetro que me indica que são imagens redutoras, simplificadoras e, nem sequer no limite, desprestigiantes para a classe docentes.

Porque ou somos coitadinhos – e nesse aspecto confesso as minhas e nossas culpas – ou somos uma espécie de idiotas comodistas, sem qualquer tipo de competência que não a adesão a rotinas.

Claro que a tutela no último par de anos ainda fez os possíveis por acrescentar a estas imagens mais alguns pózinhos de incompetência, absentismo e anquilosamento.

E isto é injusto porque em quase 150.000 profissionais certamente há um pouco de tudo, mas também existe muito mais. E é esse mais que nunca ninguém parece preocupado em destacar, a começar por aqueles que deveriam ter todo o interesse em reconhecer o que os docentes fazem de bem, na docência e para além dela. Porque há docentes que – apesar de todas as limitações que lhes são impostas – fazem outras coisas e são bons ou mesmo excelentes nisso, desde os que combinam a docência com outras actividades profissionais (músicos, treinadores desportivos, escritores, pintores) aos que apenas a complementam com o desenvolvimento de gostos pessoais mais ou menos relacionados com a sua área de interesses ou formação (investigação, poesia, novamente a pintura, a música), passando pelos que se envolvem em actividades da chamada sociedade civil como o associativismo, a assistência social, etc, etc.

Na comunicação social o professor ou é o desgraçado que levou pancada do encarregado de educação, ou o faltista-mor que deixa os alunos à chuva para ficar em casa sem fazer nenhum. Temos ainda os que surgem no retrato a estender a mão aos governantes em dia de visita oficial ou os que aparecem a gritar pela 5 de Outubro ou pela Rua de São Bento acima e abaixo nas romarias anuais de protesto.

Raramente os professores, em especial os do ensino não-superior, são mais do que estereótipos como a loura americana burra do vídeo de uns posts abaixo.

E com o tempo estas imagens cristalizam-se no imaginário comum e acabam por afastar da docência, logo na escolha que dita o futuro profissional, mesmo os que sentem inclinação, vocação ou gosto por essa actividade, mas cada vez a encontram mais enxovalhada e desprestigiada aos olhos de todos.

E isso é um mal que se faz principalmente a toda a nossa Educação, visto que individualmente já quase todos nós aprendemos a lidar com a situação e a resistir aos olhares e observações zombeteiras com maior ou menor facilidade.

Só que a médio e longo prazo a opção por desqualificar os docentes, cortar-lhes perante todos as aspirações de progressão profissional e desprestigiar simbolicamentea função é apenas avançar para o abismo.

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