Ainda em férias fui dando uma e outra bicada ao anunciado Plano Tecnológico da Educação, mais uma socretinice tecnológica que assume que a solução dos problemas passa por anunciar o despejo mais gadgets nos sítios e que tudo se resolve por si só, mesmo quando a parafernália demora a chegar e depois não há condições adequadas para a fazer funcionar e manter.

Neste caso, até se contempla mais do que isso e um dos eixos do PTE apresenta-se como sendo de Formação dos recursos humanos disponveís para a correcta e adequada utilização dos quadros interactivos, dos portfólios digitais e mais essas coisas de que eu gosto muito – sem ironia – mas que sei que são as cerejas em cima do bolo e não a sua massa.

Só que este Eixo da Formação me levanta algumas reservas, talvez por causa de uma desconfiança que se tornou um defeito meu quando leio peças propagandísticas mal alinhavadas ou baseadas em tudo o que é chavão vago e dificilmente escrutinável.

Para comodidade de arrumação de ideias, vou separar as reservas de acordo com cada componente do eixo/projecto:

  • Formação e Cerificação de Competências TIC – lá estamos nós de novo no campo da famigerada certificação de competências, a actividade actualmente mais na moda em matéria de extensão do aparelho burocrático do Estado e de aspiração de fundos comunitários. Se é evidente que a formação nesta área nunca é definitiva e a sua renovação deve fazer-se a um ritmo bem mais acelerado do que a formação científica em História, Inglês ou Matemática, também é evidente que este foi um dos eixos com maior peso na Formação de Professores nos últimos 10 anos, graças aos financiamentos do PRODEP. Pelos vistos sem grandes resultados.
    Verdade seja dita que muita dessa formação foi feita de acordo com os interesses dos Centros de Formação e formadores recrutados a dedo, tendo-se constituído como um dos maiores barretes na área da formação contínua dos docentes. Sei isso por experiência directa e indirecta. Directa porque assisti a coisas lastimáveis, incluindo um formador que nem sabia os mais básicos comandos do velho MS-DOS que se propunha ensinar; indirecta porque leio e releio quase sempre o nome dos mesmos formadores, com as mesmas acções de formação, ano sobre ano, com o título mais ou menos retocado mas os mesmos materiais de apoio pelo que depois me contam os formandos, a minha cara-metade incluída. O desplante por vezes é tal que as acções nem sequer correspondem ao anunciado, sem que ninguém se pareça importar com isso ou queixar-se.
    Se é para continuar nessa senda, voltando a cometer os mesmos erros – afinal uma década já deveria ter chegado para nos tornar minimamente competentes a quase todos e não apenas a financiar os carros novos ou as férias tropicais dos formadores – nem vale a pena irmos por aí. Se é para nos ficarmos pelas “certificações”, gostaria de saber quem é que certificou que os certificadores têm competência para fazer o que fazem, pois a criação de estruturas de certificação é apenas mais um esquema para, como já escrevi, sorver fundos comunitários, dando certificados de forma muito longe de ser transparente ou de corresponder a uma real melhoria das competências dos certificados. Ou a formação e certificação abandonam os vícios que anquilosaram a formação contínua dos docentes ou nada feito. 
  • Avaliação Electrónica – sendo esta a novidade, parece-me que é uma novidade que está concebida de uma forma profundamente errada e perigosa, seja para o trabalho dos docentes, seja para o desempenho dos próprios alunos.
    Eu explico: se é claramente vantajoso que se criem ferramentas e redes destinadas à circulação de informação inter e intra-escolas ou para a sistematização da informação, já me parece profundamente duvidoso que seja mesmo útil «uniformizar critérios de avaliação e ritmos de aprendizagem», em particular quando não se definem as unidades de aplicação dessa «uniformização»: são os departamentos? são os ciclos de ensino? são as escolas? são os agrupamentos? é todo o sistema de ensino?
    Mas afinal não vai essa uniformização exactamente no sentido inverso e a contra-corrente de todas as teorias e práticas pedagógicas que nos incentivam a diferenciar estratégias de abordagem dos conteúdos, a diversificar os instrumentos de avaliação e a adaptar os ritmos de ensino-aprendizagem a cada situação concreta, seja ela a unidade-aluno, a unidade-turma ou a unidade-escola?
    Para além disso pressinto nesta forma de abordar a avaliação uma concepção tecnocrática demasiado formatadora e desejosa de uma pretensa quantificação objectiva da avaliação, que elimine toda a margem de subjectividade no processo, ou seja que retire qualquer margem de criatividade e inovação da parte de docentes e alunos.
    Pior, e isso é mais do que previsível com os actores em presença, adivinho que esta não será mais do que uma forma encapotada de tentar monitorizar e controlar ao mínimo detalhe o trabalho dos docentes, retirando-lhes toda e qualquer margem de autonomia ou de evasão às cartilhas ministeriais, segundo as quais o sucesso é para medir e para alcançar nas quantidades desejadas, a ebm (com a anuência acrítica dos docentes) ou a mal (com o castigo de quem prevarique e cometa pecados de lesa-sucesso para as estatísticas).

Lamento se a minha visão de tudo isto é demasiado cínica, se já desacredito com facilidade das boas intenções de muita gente, mas é que a experiência passada e a observação presente de protagonistas e métodos (mais do que métodos são truques) não é de molde a acreditar que, subitamente e sem que saibamos de múltiplas epifanias por São Bento, pela 5 de Outubro e pela 24 de Julho, os velhos hábitos se mudaram e os novos métodos não passaram a ser mais do que recauchutagens modernaças mas duvidosas daquilo a que estes protagonistas nos habituaram.