E não Pão Com Manteiga como aparece agora na capa. Mas isso é um detalhe que talvez só interesse mesmo aos mais coca-bichinhos ou eventualmente por questões de direitos autorais.

O que interessa: era 1980, eu tinha 15 anos e a rádio era o meio de comunicação mais inovador e vanguardista da época, para isso bastando dar uma pequena olhadela ao menu de programas que então surgiram. Musicalmente, desde finais dos anos 70 que a Rádio Comercial era “a” estação a ouvir para quem era ainda jovem, mas não só.

Mas, mais do a música que o Luís Filipe Barros passava no Rock em Stock (O Som da Frente do António Sérgio só começaria em 1982), esse ano ficou marcado pelo aparecimento do programa que, na minha opinião, se pode considerar o melhor programa de humor – todos os meios comunicacionais incluídos – que foi produzido neste jardim à beira mal cada vez mais negligentemente plantado nas décadas por cá ando.

Religiosamente, qual missa dominical, das 10 às 13 horas, não é que o país parasse como para ver a Sónia Braga subir ao telhado de seu Nacib um par de anos antes, mas pelo menos muitos de nós parávamos para ouvir as vozes de Carlos Cruz e José Duarte, mais aquele do que este.

Quando perguntam aos novos humoristas – colectivo do Gato Fedorento incluído – quem foi a sua maior referência falam logo no Herman e enveredam por O Tal Canal, ou mesmo o menos remoto Humor de Perdição. Talvez até se lembrem das suas mais pré-históricas incursões radiofónicas, como o sabatino Rebébéu, Pardais ao Ninho. Mas percebe-se logo que é uma geração mais marcada pela televisão do que pela rádio.

Mas não há que enganar: antes houve o Pão Comanteiga, programa de rádio, revista e livros, dois deles. Com uma equipa de luxo na sua primeira versão, depois razoavelmente retocada para as segunda (1982) e terceira (1988) incursões.

Pela qualidade incrivelmente consistente dos programas semanais com três horas, quase sem qualquer ponto baixo, não há qualquer hipótese de comparação, a não ser O Tal Canal, mas mesmo assim com alguma margem de avanço para os amanteigados. Nos jornais havia então o aparecimento do Miguel Esteves Cardoso (Música&Som, Se7e), que também marcaria toda a década, mas nada é comparável ao Pão Comanteiga, que me desculpem os incrédulos ou desconhecedores.

Em casa, já se sabia que o rádio a pilhas estava reservado todas as manhãs de Domingo, mesmo que a família saísse para qualquer volta maior ou menor. Não me lembro de nada comparável, que me tenha deslumbrado de forma tão completa em matéria de comunicação social e de humor em português.

A reedição de muitos dos textos aparece agora – infelizmente perdi o único exemplar que tinha dos dois volumes saídos há 25 anos, amarelo com letras vermelhas o primeiro e vice-versa o segundo, assim como só possuo uma das revistas – para matar velhas saudades e comprovar que quase tudo continua em excelente forma e dando luta a qualquer novidade actual. Quase 30 anos depois, a fasquia continua alta. Demasiado alta, até.

Porque os clássicos são intemporais, atemporais e o que mais.

Bernardo Brito e Cunha, Carlos Cruz, Eduarda Ferreira, José Duarte, Mário Zambujal e Orlando Neves eram a equipa-maravilha que agora é possível reencontrar.

E parafraseando o sempre impassível, por mais hilariante que fosse o texto que estivesse a ler, Carlos Cruz na abertura dos programas de há muitos Verões atrás:

«Domingo, 12 de Agosto, mamãe estou no meu posto!»

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