Não sou um fundamentalista de tudo o que tenha relação com a História, apesar da deformação académica, resultante de gosto pessoal e mesmo de alguma prática.

Não posso dizer que sou o maior frequentador de museus e exposições, ou visitante e estudioso atento de tudo o que é vestígio arqueológico ou fortificação mais ou menos coeva. Tenho mesmo uma relação com a Arqueologia muito atípica, pois reconhecendo-lhe interesse, nunca me interessou pessoalmente a prática, mesmo como finalista convidado para escavar algures nesta ou aquela campanha.

Só que, apesar desse relacionamento pouco afável com a poeira, os cacos e as pedras (com o devido respeito, por quem gosta claro, e ressalvando que até fui co-autor de estudos que afloram o tema), fico sempre um pouco mais espantado com o estado em que encontro alguns locais que deveriam ser emblemáticos da nossa História, da nossa Memória Colectiva, de um Património cuja preservação acarreta muito menos dispêndio que alguns estádios de futebol, sendo que até existem fundos comunitários também para este efeito.

De passagem por Aljezur, espreitei o antigo castelo, actualmente bastante arruinado, resultado do pouco cuidado que mereceu desde o final da Idade Média, facto agravado com os efeitos do terramoto de 1755 e as fraquíssimas intervenções de restauro no século XX, quase todas provocadas pelo afã comemorativo do Estado Novo.

A edificação tem uma história remota e até algo sui generis, tanto pelas origens como pela localização e habituais lendas associadas. A sua originalidade merecia um outro cuidado mas, apesar de algumas promessas e de estar classificado há décadas como Imóvel de Interesse Público, a verdade é que está ao completo abandono.

No acesso encontra-se uma placa daquelas que a CEE/UE manda colocar em todas as obras que co-financia, que afirma que foram feitas obras de conservação num valor próximo dos 100.000 euros, o que é uma quantia irrisória para qualquer tipo de intervenção digna desse nome numa construção deste tipo. Intervenção essa cujos sinais são claramente invisíveis.

Num momento em que este Governo anuncia investimentos de milhões sobre milhões no turismo algarvio, com destaque para Lagos, ali mesmo ao lado, fico sempre espantado com a total e completa ausência de cuidado em garantir que parte desses rios de dinheiros possam ser canalizados para a recuperação do património, pois 1% que fosse das quantias miliardárias que se anunciam dariam para imensa coisa que não se faz.

Mas claro, agora estamos no tempo do Homem Novo, do Homem Moderno, do Homem Tecnológico, esse homem sem memória e sem interesse por pedrarias milenares, amontoadas sem nexo e provavelmente até atrapalhado a instalação de umas novas antenas para as operadoras de telemóveis, quiçá mesmo interferindo na boa recepção da net wireless nas imediações.