Sexta-feira, 3 de Agosto, 2007


Para ajudar na sesta…

Agora para acordar…

Escrevo sobre isto já com algum atraso em relação à notícia que lhe deu origem, porque entretanto se acumularem algumas informações sobre a forma como estas coisas se passam em outras paragens.

No dia 29 de Julho, no Público (sem link, já se sabe), escrevia-se que:

Bebés não deviam estar mais de 30 horas por semana sem os pais
(…)
“É uma situação muito alarmante. Temos de decidir se queremos gerações capazes, competentes, afectuosas, ou gerações desinteressadas pelos outros e pelo que se passa à sua volta”, diz. “A capacidade de ser empático, de perceber o que os outros sentem, é algo que já sinto que as crianças têm pouco quando estão muito afastadas dos pais.” (declarações da pedopsiquiatra Isabel Brito sobre o excessode horas que as crianças passam fora do meio familiar)

Não poderia estar mais de acordo, caso não fosse manifestamente impossível  na sociedade em que vivemos e no país em que vivemos que as coisas fossem de outro modo. No mesmo dia, paredes-meias com esta peça que alertava para o problema que constitui a longa separação entre as crianças e os pais, surgia a notícia que o ministro Vieira da Silva quer que as creches estejam abertas mais tempo, para suprir as necessidades das famílias que são obrigadas a viver a um ritmo que não tem contemplações para com situações vagamente ideais.

O que nós temos são – pela mão deste mesmo Governo – sinais perturbadores para com as condições de trabalho de todos nós, tanto em matéria de extensão como de instabilização do horário de trabalho e, depois, lamentos sobre as consequências dessa situação, como seja o caso de um planeamento familiar mais racional do ponto de vista das condições específicas de cada agregado.

Cada vez mais as condições de apoio às famílias se degradam: não vale a pena prometer 130 euros por um novo filho, se depois são necessários 300-350 mensalmente para o deixar a ser criado por outrem, para ser possível à mãe ir ganhar 500 ou 600 euros líquidos, como acontece em tantos casos. Pelo ordenado mínimo, nem vale a pena sair de casa nos primeiros anos de vida da criança, pois o saldo será necessariamente negativo.

Não é compreensível que um discurso favorável à natalidade conviva confortavelmente com a activa instabilização das condições de trabalho dos elementos activos profissionalmente dessas mesmas famílias. O caso das pessoas empregadas nas próprias creches, assim como do pessoal docente e não docente é sintomático do carácter paradoxal e esquizofrénico do discurso político e governamental.

Se cada vez mais é exigido às escolas – e especificamente aos professores do Ensino Básico – para servirem de suporte às famílias que precisam de ter a segurança de saber os seus filhos ocupados, como ficam os filhos desses professores, particularmente quando não leccionam ao lado de casa?

E muito pior é a situação dos que trabalham 35 ou 40 horas e que, por regra, precisam de deixar os seus filhos durante 10-12 horas ao cuidado de outros, estando com eles acordados apenas 1 ou 2 horas diárias.

Porque todas estas medidas de alargamento dos horários de creches são a confissão da erosão irremediável das condições sociais do país. De um país que nunca chegou a atingir, nos seus momentos “melhores”, aquilo que para os outros significaria uma enorme perda em relação ao que têm.

São sinais de uma evolução, mas de uma evolução em sentido contrário ao desejável.

Nem de propósito, estive recentemente com pessoas amigas que se viram na contingência de ir trabalhar para fora do país, embora em funções qualificadas. Nos países onde actualmente vivem (Alemanha, E.U.A.), as creches e infantários públicos (e mesmo privados) existentes em zonas de classe média (algo que cá quase não existe, existindo sim a  chamada classe “remedidada”) fecham entre as 14 e as 16 horas, porque esse é o horário em que pelo menos um dos elementos do casal já está em casa. Normalmente a mãe, que dispõe de horários que assim o permitem. E não abrem antes das 8 horas da manhã.

Creches e infantários a funcionarem no rgime do seven-eleven só em zonas socio-economicamente degradadas, para servirem as famílias de estratos mais desfavorecidos e trabalhando nas condições mais precárias.

Em Portugal, em vez de evoluirmos no sentido de proteger os horários das mães (e dos pais, porque não?), para que possam ir buscar mais cedo os seus filhos, faz-se exactamente o contrário, avolumando-se as ameaças de prolongamento e desregulamento do horário de trabalho. Se é verdade que, em algumas situações, isso pode ser positivo (concentrando as horas de trabalho, eliminando pausas, definindo objectivos, para se permitir sair mais cedo quando as tarefas estiverem terminadas), entre nós a regra será exactamente no sentido contrário.

A nossa involução nesta matéria é triste, tão mais triste quanto temos depois de ouvir retóricas comunicacionais que nos querem fazer crer que são 130 euros que resolvem os dramas quotidianos que implica para muitas famílias o nascimento de mais um filho.

Só falta mesmo é apresentarem-nos as medidas pró-natalidade recorrendo a actrizes grávidas (parece que há algumas neste moemnto nessa situação, é só contactarem os seus agentes…) ou a bebés interactivos fabricados na China.

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