Na madrugada de ontem escreveu-se mais uma página costumeira na história do futebol português, daquelas habituais, escritas a carvão negro, que fazem com que os árbitros internacionais sejam especificamente instruídos cada vez que arbitram jogos de Portugal.

Mais grave desta vez, pois passou-se num escalão de jovens, quase ainda de formação, os sub-20, porque agora há campeonatos de sub-tudo.

O episódio conta-se com rapidez: depois de um apuramento para os oitavos de final penoso e algo miraculoso, com sucessivas más exibições péssima qualidade futebolística, a selecção nacional de sub-20 estava a perder a poucos minutos do fim com o Chile, em Edmonton, no Canadá, onde decorre o Campeonato do Mundo daquele escalão.

Desorientados os jogadores nacionais, precoces estrelas no seu próprio imaginário, decidiu um deles agredir um adversário. Na confusão já habitual nestas situações com futebolistas portugueses e árbitros, um tal “Zéquinha” decidiu arrancar o cartão vermelho das mãos do árbitro, como se tal acto apagasse o desvario do colega e o consequente castigo. Como desfecho acabou também ele expulso, podendo acrescentar-se mais uma página ao já longo livro de vergonhas passadas com selecções nacionais em eventos deste tipo, desde o surto grevista de Saltillo em 86, passando pelo sururu subsequente à mão de Abel Xavier no Europeu de 2000, na meia-final contra a França e desaguando na agressão de João Pinto em 2002 ao árbitro argentino Ángel Sanchez, não esquecendo uma miríade de outrosa acontecimentos similares. Excepções mesmo só os consulados de Carlos Queirós nos escalões jovens e actualmente de Scolari nos crescidos, por serem personalidades fortes e pouco condescendentes com vedetismos de pacotilha.

Durante a manhã, na TSF, o treinador do rabino menino Zéquinha numa simpática equipa com o nome de Tourizense, um tal Tó Margarido, esforçava-se por explicar que o Zéquinha era um “génio”, que era um jogador que “dava tudo” e que por isso mesmo tinha perdido as estribeiras.

O nexo lógico entre genialidade, empenho e estupidez escapou-me, mas acredito que esteja lá.

Só que nós somos um país de imensa tolerância para com estes génios-Zéquinhas. Na sua terra tornam-se heróis por cuspirem em árbitros, por agredirem adversários e por instalarem a maior das confusões num campo de futebol, apenas porque são profundamente mal-educados, mal-formados e extremamente mimados por quem deveria ter a obrigação de os saber conduzir á idade adulta como homenzinhos.

Em Portugal, nos últimos 25 anos o futebol foi um viveiro dos piores vícios que existem no ser português. Sendo que esses vícios são encarados com bonomia e extrema complacência, resultado de uma imensa falta de auto-controle e auto-disciplina, aliada a uma desresponsabilização imediata pelos actos cometidos com justificações anedóticas.

Exactamente aquilo que caracteriza muitos dos nossos alunos e também muitos professores, admito-o, que preferem a solução fácil – a cábula, o copianço, o adivinhanço, por um lado, ou a atribuição de positivas a esmo para evitar chatices, por outro – do que o rigor e a persistência na tentativa de superar as dificuldades.

Somos um país de Zéquinhas, na Educação como no futebol e na vida quotidiana, que é afinal a chave de tudo. Basta vermos como ficam embevecidos muitos papás e mamãs quando os seus zéquinhas minúsculos, ainda em idade de serem introduzidos em hábitos mínimos de civismo, fazem as maiores alarvidades em público, tomando isso como sinal de manifesta esperteza e porque “são crianças” e “é natural”. Depois crescem e acabam em Zéquinhas para toda a vida.