O que fazer quando sobram umas horas porque a miúda quis mesmo ir a uma festa de aniversário de uma amiga e os adultos são pouco desejados, mas é preciso ficar à espera e fazer alguma coisa antes de ir buscá-la? Entre outras hipótese um tipo lê até os anúncios do jornal.

Ou então lê um curto texto de opinião de Carlos Zorrinho, ex-uma série de coisas e agora Coordenador Nacional da Estrátégia de Lisboa e do Plano Tecnológico, pois assim só se gasta um coordenador em duas coisas virtuais.

Este texto de que recomendo vivamente a leitura como repositório de quase todos os lugares-mais-comuns da modernice tecno-socrática, anuncia mais uma mudança ou (re)volta de paradigma, agora por causa da Banda Larga que Zorrinho chama – citando o seu farol e nosso PM quando lançou o programa e.escolaa electricidade do século XXI, sublinhando que esta não é uma figura de estilo.

Antes fosse. As metáforas de Mário Lino são anedóticas, mas pelo menos são inesperadas. As figuras de estilo que o não são de Zorrinho são entediantes de tão previsíveis.

Hoje a tecnologia e em particular as conexões e os repositórios de informação, transformaram-se no território da mudança e na plataforma onde grande parte do valor é criado.

Uma pessoa lê isto e a primeira reacção é inquirir-se porque pensa ter os dedos metidos na boca até ao esófago. Porque é demasiado mau, demasiado saloio e canhestro, demasiadamente parolo para acreditarmos que é resultado de alguém que se sente em cima de uma mudança de paradigma. A única explicação é que os aparatchiks do regime que temos precisam de fazer estas tarefas e produzir estas prosas como forma de garantir os créditos indispensáveis para a manutenção dos cargos actuais e futuras progressões na carreira.

Alguém acredita que, para além de me despertar a bílis, este tipo de textos serve para algo, muito menos para fazer a malta saltar de entusiasmo e acorrer a instalar bandas larguíssimas em todos os electrodomésticos lá de casa?

Parece-me que não, então quando em tão poucos parágrafos ainda se depara com algo deste calibre:

A assimetria no tempo de chegada ao acesso generalizado à electricidade e ao seu uso como factor produtivo marcou a fronteira entre os vencedores e os perdedores da sociedade industrial.

Leio e interrogo-me sobre o que aprendi – até com especial prazer, por ser matéria de interesse pessoal – acerca do arranque da industrialização

Seja de forma mais divertida ou académica, a relação entre a utilização corrente da electricidade e a definição de vencedores e perdedores da sociedade industrial, mais do que uma figura de estilo é um enorme disparate. Percebe-se a tentativa, mas lamenta-se a desabilidade do articulista. A electricidade é um dos aspectos que definem uma segunda fase, intermédia (final do século XIX), da industrialização, que em nenhum momento foi decisiva para o escalonamento do progresso económico das nações ocidentais. O atraso económico português é muito anterior, datando de quase um século antes, quando perdeu a fase da mecanização resultante da adopção da energia a vapor.

Mas Zorrinho provavelmente sabe tanto de História como de figuras de estilo, pelo que se lhe perdoa a ignorância, até porque a verborreia tecno-entusiasta se esgota num quinteto de parágrafos e num quinto de página (a 37) do caderno de economia do Expresso. Do mal o menos. Recomendar-lhe-ia a leitura clássica, mas sempre interessante e algo heterodoxa da difusão da industrialização do The Peaceful Conquest – The Industrialization of Europe, 1760-1970, de Sidney Pollard, mas receio que não exista em suporte digital e o papel lhe faça confusão.

O que continuo sem perceber é exactamente para quem escreve Zorrinho, quem quer ele convencer acerca da Banda Larga, assim com maiúsculas como se fosse nome próprio. Os operadores que a fornecem a preços dos mais altos da Europa? Não seria melhor estudarem-se as experiências dos outros países e perceberem como funciona a nível europeu o mercado da Banda Larga? As vantagens de estimularem a procura através de preços acessíveis, ou seja a base do consumo de massas?

Porque como estamos, continuaremos no grupo dos chamados catching-up countries, ainda longe dos líderes da inovação, como se percebe por este recente estudo ou pelas tabelas de 2006 que ainda nos mostram uns quantos pontos abaixo da média europeia.

De uma coisa eu tenho a certeza, não é com uma barragem de clichés que o senhor Coordenador disto e daquilo conseguirá que grande parte do país, cada vez mais marcado por clivagens socio-económicas e assimetrias regionais de desenvolvimento, adira à Banda Larga sem que entreveja nisso tenha qualquer hipótese de correspondência ou vantagem na sua vida prática, para além de lazer e entretenimento, por muito que os jogos online e o hard e soft-porn sejam negócios rentáveis.

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