Sexta-feira, 22 de Junho, 2007


A estória triste dos erros nos exames do Ensino Secundário é quase tão longa como a dos ditos. Todos os anos é a mesma sina, erros na formulação da questão aqui, imagens equívocas acolá, soluções impossíveis, desadequação entre questionário e programa da disciplina, de tudo temos sempre um pouco.

O que nunca temos é conhecimento de quem é responsável por tais erros e se continua no mesmo sítio, alegremente, como se nada se tivesse passado. Os tropeções são normalmente mais habituais – e publicitados – nos exames de Matemática, geometria Descritiva e, nos últimos tempos, Física e Química. Mas também os há em outras disciplinas, mas quando são, por exemplo, em disciplinas das ditas “Letras” a coisa parece que fica sempre mais obscurecida do olhar. No ano passado houve erros no exame de História, equivalentes aos que motivaram a repetição do exame de Física e Química, mas quase não se falou nisso.

Este ano, e para nos cingirmos ao 12º ano, temos mais do mesmo.

No exame de Física e Química um erro numa imagem já levou à anulação de uma questão, enquanto no exame de História uma questão mal formulada – e com peso relevante na prova, muito mais que a questão do exame de FQ – também já mereceu o protesto da Associação dos Professores de História, mas neste caso parece que ninguém se chateia muito. Pelos vistos há exames mais importantes que outros, sendo que os outros podem ter erros que não faz mal, porque não contam para a entrada nos cursos dos filhos e enteados da elite do momento.

Mas no meio de tudo isto, o que mais me irrita é que estes exames são – alegadamente – preparados durante semanas por equipas de trabalho. Mas não há ano em que não se dê asneira.

Raios e coriscos. Não há forma de juntarem um par ou trio de gente capaz e competente por disciplina que consiga fazer um lote de exames capaz e escorreito? Não é preciso mais… Não é necessário arranjar meia dúzia de especialistas para atarrachar uma lâmpada. Basta um e, se quiserem que a coisa seja mais cómoda, outro para dar ao interruptor.

E, afinal, que tipo de controle de qualidade, que etapas de verificação, atravessam estas provas?

Como é possível todos os anos o mesmo bailinho, com as mesmas disciplinas?

Quem é responsável pelos lapsos iniciais e quem os deixa passar sem verificação eficaz?

Quem são estas pessoas, que julgo terem a melhor das vontades em fazer as coisas bem (mas que o não conseguem com demasiada frequência), porque foram escolhidos, quem os escolheu e que desfecho têm estes episódios rocambolescos?

Achgam, sinceramente, que chegam dois parágrafos e está tudo esquecido?

Depois de todo o estardalhaço ministerial sobre o desempenho e mérito dos professores? Eu faço os meus testes em poucas horas, revejo-os quando posso e fico danado por encontrar gralhas de digitação do enunciado e depois, em Exames Nacionais, há erros, ano após ano, e é como se tudo fosse o mais normal dos quotidianos? Os serviços técnicos especializados do mesmo Ministério que aponta o dedo acusador aos professores pela falta de sucesso e de mérito, brindam-nos, sucessivamente, com este tipo de “distrações”?

Poupem-nos, no mínimo, às desculpas esfarrapadas do errar é humano e só não falha quem não está lá dentro.

Está bem, está bem, está bem!!!

Mas será que acertar também não é humano e que, qual Nuno Gomes em dia de trabalho normal, o salário recebido não é para fazerem aquilo que é suposto fazerem?

Ou estarei a ser demasiado exigente?

Não é que eu não erre, só que não preciso de uma equipa de trabalho para errar, nem de várias semanas. Para fazer um exame com erros, basta-me uma manhã ou uma tarde mal passada.

A partir de agora são semanas de papelada…
…mas é melhor não pensar nisso.

Em entrevista à Antena 1, Maria de Lurdes Rodrigues afirmou que “o pacote legislativo relativo à regulamentação do Estatuto da Carreira Docente”, que ainda falta, deverá estar concluído no final deste mês, prevendo-se a abertura de um novo concurso em 2007/2008.

“O meu compromisso com as escolas e com os professores é abrir no próximo ano um novo concurso para professor titular, em data que ainda não é possível antecipar porque os instrumentos ainda não estão produzidos”, adiantou a ministra.  (Público)

Quanto à questão do compromisso, quer-me parecer que normalmente é necessário que as duas partes estejam de acordo com os seus termos ou que os tenham vagamente discutido. O que não foi o caso.

Apesar do semestre de preparação que tem demorado o pacote, estando à beira de esgotar o prazo de 180 dias.

Educação: Ministra diz que voltaria a permitir repetição de exames mas evitaria “efeitos perversos”

A ministra da Educação afirmou hoje em Seia que voltaria a permitir a repetição dos exames de Química e Física do secundário, mas “evitando os efeitos perversos da medida”, este mês declarada inconstitucional pelo Tribunal Constitucional (TC).

Maria de Lurdes Rodrigues lamentou ainda as reacções surgidas após as suas afirmações, reafirmando que, “se fosse possível regressar ao passado”, teria tido o cuidado de “evitar os efeitos perversos” da medida referidos no acórdão do TC.

Em causa estão os exames de física e química do 12º ano do ano do ano lectivo transacto que foram repetidos por alguns alunos, gerando novas situações de desigualdade.

Discordava do calendário da realização das provas de aferição por diversas razões e agora por mais uma que o ME me fornece de mão beijada.

Até agora discordava principalmente pelo facto de, ao acontecerem ali a meio de Maio, perturbarem bastante o período final do 2º CEB e, ao sobrecarregarem os professores classificadores de trabalho, afastando-os das aulas para as sessões nas Unidades de Aferição, introduzirem factores de desnecessária disrupção na fase final do ano lectivo.

Acho que estas provas, não sendo exames, nem necessariamente um ponto da situação no final do ciclo (para isso deveriam acontecer em finais de Junho), deveriam ser feitas no final do 2º período, antecipando-as no mínimo umas seis a oito semanas.

Mas ao ler a nota do ME a propósito da sua realização e resultados, encontro ainda outra razão, até de força maior:

Os resultados são apresentados em 5 níveis, e não na escala de 0 a 100, de acordo com escala usada habitualmente nas escolas, em consonância com a legislação sobre a classificação dos alunos.
As provas de aferição são, de resto, classificadas com uma metodologia própria, que avalia os níveis de desempenho por competência.
Os elementos hoje divulgados baseiam-se na agregação das classificações individuais, que facultarão aos alunos, às famílias, aos professores e às escolas uma informação de carácter qualitativo.
O tratamento dos resultados é ainda preliminar.
O trabalho de análise só em Outubro poderá estar concluído, sendo então enviados às escolas relatórios por turma, professor e competência.
Com estes relatórios, será possível às escolas e aos professores identificar as áreas que precisam de melhoria
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Se o trabalho de análise só em Outubro vai estar concluído, como esperam os senhores políticos e os especialistas do ME que essa análise seja minimanete útil para preparar o trabalho do próximo ano lectivo?

Se é verdade que os alunos do 4º ano integrados em agrupamentos verticais transitarão, em princípio e na sua generalidade, para uma EB23 do mesmo agrupamento e que os do 6º ano continuarão na mesma no 3º CEB, a divulgação dos tais relatórios mais detalhados em Outubro (princípio, meio, fim?) inviabiliza qualquer tipo de planificação consequente do trabalho a desenvolver pelos docentes.

Porque um ano lectivo não se prepara a caminho de Novembro, por muito que seja essa a ideia que transparece do facto do ME implementar efectivamente ou colocar em funcionamento muitas iniciativas nessa altura. Veja-se o que aconteceu este ano com o PAM ou o próprio PNL, para não falar nos portátéles.

Um ano lectivo prepara-se a sério partir de agora, do final deste mês, durante Julho e – como os professores são obrigados a fazer férias em grupo durante Agosto, enquanto as não retirarem dos seus imensos “privilégios” – nos primeiros dias de Setembro. Como delegado de Língua Portuguesa do 2º CEB da minha Escola não posso estar à espera que o ME me disponibilize esses dados quando lhe der jeito. Eu preferia que me fossem enviados os dados, mesmo em bruto, para que fossem analisados internamente. Porque o sabemos certamente fazer e de forma mais contextualizada.

Despejarem dados e conclusões em meados de Outubro, para avaliação e reflexão interna, seguidas do estabelecimento de planos de acção com base no combate às áreas fracas detectadas é algo que só pode ocorrer a quem se instala num gabinete e pensa que a realidade se molda de acordo com os seus desejos.

Pedagogicamente isto é um disparate completo.

Em termos de planificação é um desastre óbvio.

E depois ainda há quem critique os hábitos de trabalho dos docentes.

Concordo com a apreciação favorável, em relação à estrutura e formulação, que a Sociedade Portuguesa de Matemática faz quanto ao exame do 9º ano. Aliás, a minha opinião quanto à sua “acessibilidade” passa exactamente pelo facto do enunciado ser claro. Até para mim. A clareza do que é pedido é muitas vezes critério essencial para o sucesso. Enunciados confusos, palavrosos e quase doutrinários são disparates que já conteceram em diversas disciplinas, com péssimos resultados.

No entanto – e deve ser manifesta a minha ignorância – discordo da proposta de resolução da questão 4 do exame. Isto é sacrilégio, porque não tenho qualquer habilitação ou qualificação para desdizer a SPM. Só que eu leio o enunciado do problema e encontro o seguinte:

A solução proposta pela SPM – calcular os dias da coincidência da emissão a partir do mínimo múltiplo como de 9, 18 e 24 – dá como resultado que as emissões coincidiram apenas nos 72º e 144º dia.

Só que no 1º dia também houve coincidência. Logo… o modo de cáculo não pode ser esse. Acho eu. O que acham os profissionais do ofício? Estou com o bestunto toldado?

Adenda: No site da SPM a proposta de correcção encontra-se já correcta (ou corrigida).

Adenda Dupla: Mas fica aqui, por via das dúvidas, a meia página do Público, bastando clicar para aumentar

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Esta malta anda mesmo a gozar connosco. Já imaginaram o que seria gastar nove ou mesmo três semanas para fazer um teste, daqueles de final de ano, um por cada turma ou disciplina? Agora já percebo porque anda tanta gente por aqueles corredores a cirandar.

Se este é o ritmo de trabalho dos serviços técnicos do Ministério, é mesmo melhor que não voltem para as Escolas. Realmente só atrapalhariam no caminho e corriam o risco de ser atropelado(a)s pelos pobres professores incompetentes que precisam de produzir materiais de avaliação numa base semanal, quinzenal ou mensal, sem a ajuda de equipas e trabalho. E sujeitano-se à crítica pública da tutela e de todos os Sousa Tavares deste mundo.