Quinta-feira, 21 de Junho, 2007


zero.jpg

Neste momento, perante a sucessão de maus resultados, geração após geração de alunos e professores, metodologias após metodologias, fazendo as contas pelos dedos ou com máquinas de calcular, já estou vergado às teorias politicamente incorrectas do determinismo genético ou do fatalismo cultural para explicar o insucesso recorrente em Matemática, mesmo quando acho que provas e exames são fáceis.É que não é possível que ao longo das décadas as coisas mudem tão pouco, tendo mudado alunos, professores e métodos, ficando apenas como invariável o insucesso em Matemática.

Já aqui expliquei que, por deformação pessoal, sempre me entendi com a dita disciplina e que o divórcio aconteceu mais por questões sociais do que académicas. As pouquíssimas colegas que passaram o 9º ano da minha turma foram quase todas para a área de Letras e – para além de um empurrão de um notável professor de Português que me disse que eu tinha mais jeito para as Letras (o que era desmentido pelas notas, mas ele lá sabia o que dizia) – eu não quis ir sozinho para uma turma toda nova na área das Ciências.

Por isso, foi sempre com estranheza que encarei o divórcio entre gerações seguidas de alunos e a Matemática. E sempre gostei de gozar com colegas que leccionam a disciplina e alunos, dizendo-lhes que a Matemática é a mais simples das disciplinas (exceptuando Inglês Técnico, claro), porque é aquela onde a objectividade e a clareza imperam.

Mas raramente consigo ter adesão a estas minhas ideias. Quase toda a gente se rende ao fatalismo da Matemática e da sua dificuldade.

Os resultados mais recentes das provas de aferição dos 1º e 2º CEB aí estão de novo para afoguear mais a questão. No 6º ano, em Língua Portuguesa mais de 85% de sucesso no 6º ano; em Matemática menos de 60%. Na minha escola o fosso ainda é maior, na ordem dos 35% de diferença (89-54%, salvo erro), e nas minhas turmas nem é bom falar (diferencial superior a 50%). O que são valores muito superiores às diferenças verificadas no 4º ano.

Ou seja, quando se dá um maior aprofundamento dos conteúdos, o insucesso cresce a pique.

A persistência deste fenómeno é dificilmente explicável por factores racionais.

Acredito que exista um divórcio difícil de sanar entre os teóricos que produzem os programas e os modelos didáctico-pedagógicos, quem é obrigado a aplicá-los, quem produz os elementos de avaliação externa, e os alunos que temos.

Também acredito que a dificuldade da Matemática se agrava e é cumulativa, quanto mais se avança na escolaridade, sem se terem adquirtido uns fundamentos sólidos da disciplina. Eu percebo que em História possa existir quem compreenda a Revolução Francesa, sem ter percebido patavina das “civilizações dos grandes rios”. Ou em Ciências da Natureza quem adore estudar o aparelho respiratório ou digestivo e detestar profundamente conhecer o reino mineral. Já em Matemática, mesmo quando se trata de temáticas aparentemente muito diversas, existe uma base comum muito forte  que passa pela capacidade de abstracção e de raciocínio lógico. O que implica rigor e disciplina mental. Há casos de talento naural, mas a maioria só com muito trabalho aprende a ver a Matemática, se é que me entendem.

Por isso, o trabalho árduo não é substituível por “matemáticas entretidas”. Podem ajudar, mas não chegam.

De qualquer modo isto já é mais profundo. Penso que já faz parte da nossa matriz cultural, de uma identidade de que, mais ou menos envergonhadamente, nos orgulhamos, é um faceta inquestionável do ser português. Existem casos de notáveis matemáticos portugueses, mas sabemos que são excepções. Por cada um temos 100 novelistas e 300 poetas.

Genética? Determinismo cultural?

Sei lá!

São explicações tão boas como quaisquer outras.

Aliás se as outras explicações fossem melhores, já teriam dado resultado as medidas postas em prática com base nelas.

A mim, contudo, parece-me natural que exista alguma relação entre esta falta de apetência e competência na área da Matemática e a nossa proverbial dificuldade em fazer contas e em planear um coisa e executá-la com rigor do princípio ao fim, sem ser necessário recorrer ao desenrascanço.

As derrapagens financeiras, os prazos e custos mal calculados das nossas obras, aquela entranhada forma de desculpar todos os enganos e equívocos,a legando que errar é humano não podem ser fenómenos estranhos à aversão pela Matemática.

Aliás, eu já acredito que o Colombo era mesmo português, tão maus foram os seus cálculos sobre o diâmetro terrestre. Culpam o Eratóstenes pelo equívoco nas medidas feitas para chegar à Índia por ocidente, mas eu acho que foi mesmo falha na tabuada dos 7. E o que dizer daqueles reis portugueses que, para casar uma princesa mal-encarada davam mundos e fundos e deixavam o Erário Público à míngua? Só pode mesmo ser falta de prática na subtracção.

Quadros interactivos? Calculadoras novas? Planos de Acção? Mais formação para os professores?

Acham que isso conseguiria evitar que a Casa da Música, o CCB, os Metros do Porto ou do Sul do Tejo não tivessem custos exorbitantemente superiores ao previsto e prazos sucessivamente pulverizados?

Já se deram ao trabalho de apreciar as discussões dos especialistas sobre os cálculos acerca da areia e entulho necessários para fazer a pista da Ota? Ou os cálculos dos custos comparativos das várias opções para o Novo Aeroporto de Lisboa?

Acham, que ali alguém percebe algo de Matemática?

Por desafio do outrÒÓlhar e porque não custa nada manter a chama da esperança acesa:

tq_rp_17.jpg

“Ainda acredito que qualquer revolução do futuro terá início na livre propagação das ideias que a Internet acelera.
Nesse aspecto, a blogosfera constitui para mim o berço ideal para o germinar das soluções ideológicas para o vazio que se instala aos poucos onde antes existiam convicções inabaláveis.
O mundo mudou e em muitos aspectos para pior. E se antes era possível contar com o filtro apertado de valores que obrigavam mesmo os piores a imporem limites para os desvios nas respectivas condutas, nestes dias isso já não acontece da mesma forma.
Cada um no seu espaço privado, ficamos mais à mercê das bizarras associações de interesses que se formam com facilidade neste meio virtual.
E por isso urge despertar de novo a ideia de que a união faz a força.
Essa união existe nas redes cada vez mais complexas que se formam entre aqueles que visam dar largas às suas taras hediondas e, por sua vez, atraem as habituais seitas sem escrúpulos que aproveitam o ensejo para lucrarem das formas mais impensáveis com a “mercadoria” mais vulnerável que a sociedade produz.
As crianças são o alvo da cobiça desta gente que rapta, viola, escraviza e, no topo da desumanidade, chega a roubar-lhes os órgãos internos para comércio clandestino.
Esta insanidade tem que acabar e depressa.
Nós, os que blogamos, temos na mão um instrumento poderoso de divulgação de tudo quanto nos aprouver. Ou seja, podemos constituir-nos num grupo de pressão com visibilidade suficiente para, em esforços colectivos, atrair a atenção mediática e, em última análise, influenciar a opinião pública em torno de temas que de outra forma podem perder-se no meio do bombardeio de informação.
Uma das mais conhecidas ferramentas de propagação seja do que for na blogosfera são as correntes que tantos abominam. E na maioria dos casos com toda a razão.
Porém, esse mecanismo de sucesso comprovado é utilizado quase em exclusivo para a divulgação de testes, questionários e paródias várias, por norma concebidos para inflacionar os contadores do blogue de origem.
E eu gostava de ver esses nossos esquemas a funcionarem de uma forma mais útil para o mundo que integramos e ao qual podemos oferecer contribuições importantes para o tornar melhor.
Gostava de conseguir dar origem a uma corrente que espalhasse pela blogosfera portuguesa o rosto e o nome do Rui Pedro e a causa que ele simboliza.
Tão simples quanto publicar um post com o nome do Rui Pedro no título e a foto do que se presume ser a sua actual aparência.
Porquê? Acima de tudo pelo sinal que isso enviaria aos pais das crianças desaparecidas quanto à capacidade dos seus conterrâneos de se solidarizarem e de darem algo de si pela causa.
Essa causa é a recuperação das crianças e jovens caídos nas garras dessas organizações medonhas, a criação de mecanismos de protecção legislativos, policiais e civis eficazes, o apoio sustentado, permanente, às vítimas que são também as famílias de quem desaparece sem deixar rasto.
E a guerra informática sem quartel a tudo quanto esta ameaça à escala planetária produz.
Só mantendo a questão num plano mediático, nas prioridades de um país que se move ao sabor das modas e das correntes que a Imprensa cria e os vários poderes aproveitam, só assim se reúnem as condições necessárias para que algo de bom aconteça.
E é preciso acabar com a ilusão de impunidade que o excesso de passividade fomenta.
Se as pessoas conseguem unir-se para expulsar da sua comunidade as ovelhas ranhosas que as importunam no plano analógico, acredito que poderão fazer o mesmo no domínio virtual.
Eu gostava de ver erradicados deste meio todos quantos ameaçam a vida e a felicidade das nossas crianças com as suas salas privadas de partilha de imagens abjectas.
E porque alguém tem que dar passos nesse sentido, peço encarecidamente aos seguintes espaços que publiquem um post com a foto acima e o nome do Rui Pedro e tentem convencer outros tantos (ou menos, ou mais) a fazerem o mesmo.
Vamos mostrar ao país que a blogosfera reúne pessoas de bem e capazes de encontrarem no seu tempo a motivação necessária para lutar pelas causas mais prementes destes dias que partilhamos em comum.
Vamos dar um sinal de esperança às vítimas e um sinal de alerta aos seus algozes.”

Mais informações aqui.

numbers1.jpg

Mais abaixo, no post antecedente já se desenvolve alguma discussão quanto ao eventual grau de maior ou menor dificuldade do exame de Matemática para os alunos do 9º ano. Não vou entrar, por agora, de novo nessa discussão que ainda está em aberto.

De qualquer modo, assumo que considero – repito que como leigo na matéria, que se limita a observar os exames e a recolher as opiniões dos colegas que leccionam, a disciplina – que este exame era relativamente acessível, mesmo se não tão francamente fácil como o de Língua Portuguesa.

Não consigo adivinhar os resultados e até acredito que não sejam famosos em Matemática – os das provas de aferição do 6º ano deixaram bastante a desejar – mas acho que, apesar disso, a tentativa foi claramente a de facilitar a vida aos examinados de 9º ano nas disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática.

E esta terá sido a forma, mais rápida e fácil, do ME tentar provar que as suas políticas de “sucesso” funcionam e que as suas medidas nestes dois anos dão “resultados” evidentes.

Ou seja, em vez de um plano de trabalho a médio-longo prazo, visando consolidar as aprendizagens dos alunos desde o início do seu percurso escolar em cada ciclo de ensino, opta-se por um relativo abaixamento da bitola de exigência dos instrumentos de avaliação externa.

Parece achar-se que é credível apresentarem-se como possíveis melhorias de resultados com seis meses de implementação do Plano de Acção para a Matemática, sem que isso resulte dos habituais truques de secretaria.

Também na primeira metade dos anos 90 tivemos substanciais ganhos em matéria de sucesso escolar, quando passou a ser possível transitar de ano com mais classificações negativas do que anteriormente. Agora, como a fórmula já é conhecida, optou-se por alargar mais a corda em matéria de exames.

Resta esperar para ver se isso foi alcançado e que retórica propagandística vai ser usada para enquadrar a apresentação dos resultados obtidos.

Neste momento, e perante os resultados obtidos em Matemática, especialmente no 6º ano, a reacção é demasiado apressada, porque à aparência de determinação e rapidez corresponde um nível analítico muito deficiente da situação, pois falta analisar com um mínimo de rigor o desempenho dos alunos nas diferentes partes das provas e nas diferentes competências testadas.

De qualquer modo a ideia que fica é que se volta a apostar na estratégia da facilidade como método rápido e curto para produzir “sucesso”. Os ganhos estatísticos a curto prazo podem ser aparentemente satisfatórios, mas apenas agravam e engrossam a raíz dos problemas que depois se explodem perante os nossos olhos, a médio prazo.

O exame de Matemática de hoje, também não foi razoavelmente fácil? Com as cábulas incluídas no teste e tudo?

Para quem abandonou a Matemática oficialmente em 1980, até acho que tinha condições para alcançar um B na prova.

O caminho (habilidoso) para o sucesso passa por isto.