Carta recebida por mail que se passa a publicar, em nome do direito à indignação. Não a conheço, mas é como se conhecesse. Os destaques e algumas divisões em parágrafos são minhas, mas não tocam o conteúdo do texto original.

Desculpem os Srs. responsáveis pela informação em Portugal, mas estou absolutamente incomodada ao dar conta da passividade e ignorância, da surdez e cegueira dos mass media face a certos acontecimentos que se sucedem por este Portugal fora… Já vi noticiários a abrirem com as «famosas façanhas» de indivíduos que estão em quintas das celebridades (?)… no “big brother” e outras anormalidades que vão acontecendo neste mundo, cada vez mais miserável, mais pobre em ideias, em sentimentos e em valores… Porém, a morte de uma Professora, vítima de leucemia, obrigada a trabalhar até à morte, porque acharam, certos Senhores, a bem do cumprimento de certas políticas sociais justíssimas, que essa professora não só se encontrava capaz de trabalhar, como AINDA, não reunia os requisitos para a reforma – apesar dos seus 63 anos, apesar dos 30 anos de serviço e apesar da leucemia que a consumia – não faz notícia.

É impressionante como é que não há uma única notícia QUE SE VEJA e que produza eco nas consciências das pessoas. A que preço querem o avanço de um país??? E que avanço se pretende??? Económico??? Só pode ser meramente económico porque, de facto, basta sair à rua para nos confrontarmos com a desumanização crescente… E o mais grave é a desumanização das políticas governativas que vão grassando neste país.

No campo da educação, o exemplo é flagrante, gritante. Numa área tão crucial como esta, em que mais do que conhecimentos se transmitem valores e princípios, em que se pretende educar para a cidadania e, onde, nas mais diversas circunstâncias se apregoam os valores humanos, os Direitos do Homem, em que se fazem actividades cujo objectivo é alertar as mentes dos nossos jovens para o respeito efectivo da vida humana, eis-nos, no entanto, num país terceiro mundista que, atrelados à Europa nada mais sabe fazer do que copiar modelos de um modo acrítico, de um modo irreflectido, sem uma avaliação da realidade Portuguesa…. POR FAVOR, Srs Governantes, por FAVOR Sra Ministra da Educação….ABRAM OS OLHOS E VEJAM; ouçam quem sente, quem sabe, quem vive as realidades que os senhores só conhecem teoricamente, sentados confortavelmente nos seus gabinetes, surdos e cegos por motivos escusos. Ninguém com bom senso, com conhecimento de causa pode ver boas intenções em certas medidas que estão a ser tomadas; ninguém, cuja cor política seja ou não rosa, com uma consciência moral bem formada é capaz de não ficar indignado com tanta ignorância, crueldade e falta de justeza.

Subtilmente, violam-se direitos fundamentais; com subtileza, se fez querer que a classe docente é uma classe rasca; com subtileza, desprezou-se o trabalho nobre de um professor…. Sim, NOBRE! Somos professores, somos pais, somos educadores, somos animadores sociais, somos psicólogos, somos amigos….

Basta de tanto cinismo; basta de tanta prepotência; basta de tanta surdez mal intencionada…. EU QUERO SER OUVIDA… Os professores, como qualquer outra classe, merecem respeito. De facto, e mais do que nunca, ser professor é assumir uma vocação.
Termino, imaginando o que, ao lerem este artigo, estarão a pensar e a dizer todos aqueles que vêem os professores como uma classe cheia de «benesses», como uma classe de «calões», que nada fazem…

A esses respondo com três afirmações/apelo:

1º O Todo nem sempre é igual às suas partes (conseguiram perceber??);

2º Se duvidam, porque não experimentam?;

3º Quem sabe o que sabe, deve-o aos seus mestres!

Eu sou professora, não por obrigação, mas por vocação. Por amor à profissão e aos meus alunos já abdiquei de muita coisa. Por ela, já estive dois anos consecutivos a 530 km da minha família, da minha filha com dois anos de idade; por ela, encontro-me ainda, a 116 km da minha origem; por ela, raros são os fim-de-semana gozados. Por isso, haja respeito!!!

Carla Luísa Gouveia
(Professora de Filosofia)