Apreciei ontem a forma algo irritada como o Presidente da Associação dos Professores de Português reagiu ao exame do 12º ano de Português. Ouvi-o na TSF e agora leio-o no Diário de Notícias:

A Associação dos Professores de Português (APP) acusa o Ministério da Educação de “ter escolhido o caminho mais fácil” nos exames nacionais da disciplina – primeira fase -, realizados ontem, onde se inscreveram cerca de 67 mil alunos.
Contactado pelo DN, Paulo Feytor Pinto, presidente da APP, diz que a prova -já de si “limitada” em termos de conteúdos, por se destinar a estudantes de dois programas distintos – deixa de fora a análise dos conhecimentos gramaticais obtidos pelos alunos .”Há um grupo de perguntas que se apresenta a si próprio como sendo de apreciação do conteúdo de gramática, mas que na prática quase não incide sobre essa área”, considera.
Para Paulo Feytor Pinto, o objectivo dessa omissão terá sido “evitar problemas” relacionados com os novos termos gramaticais
(TLEBS) – que, apesar de suspensos no ensino básico, já estão presentes nos programas de Português do secundário, pelo que poderiam surgir nas provas. “Digamos que essa estrada [incluindo questões de gramática] era mais sinuosa e parece ter-se optado pelo caminho mais fácil. Só que essa ‘estrada’ fazia parte do programa”.

Compreendo a justeza das reclamações, só achando profundamente estranho que o colega meu homónimo aparente não perceber que, neste caso particular, o ME não tinha outra saída airosa que conjugasse menos gastos, a não exposição a potenciais acções judiciais e a promoção de um sucesso educativo virtual.

Vamos por partes:

  • Fazer um único exame para alunos de dois programas distintos, sendo uma coisa perfeitamente aberrante do ponto de vista pedagógico, é extremamente lógido do ponto de vista contabilístico. Envolve menos gente. Sai mais barato. Nem vale a pena esperarmos outra coisa. Se pudesse fazer isso sem escândalo geral nas próprias hostes, o ME faria um exame único para todas as disciplinas.
  • Limitar os conteúdos gramaticais examinados vem apenas na esteira do que já aconteceu com as provas de aferição e é o resultado da calamitosa gestão do dossier TLEBS. Obviamente que, depois de removida do caminho no Ensino Básico, a nova terminologia só podia aparecer nos exames com grande risco de lhes cairem umas acções judiciais em cima (aliás, anunciadas ainda durante o período de indefinição que antecedeu a suspensão da TLEBS no Ensino Básico). Não aparecendo, e tendo o trabalho com as turmas do 12º ano sido baseado nela em muitas escolas (não ouso dizer todas, porque terá havido gente prudente), depois também ficava pouco de fora que, ao nível do 12º ano, permitisse constituir um conjunto de questões com um peso relevante na prova.
  • Por fim, quando à facilidade geral da prova, veremos que isso vai ser uma marca de água da generalidade dos exames. Esta equipa ministerial vai querer fazer crer à opinião pública e publicada (e alguns escribas orgânicos do regime só estão à espera do tiro de partida) que a melhoria dos resultados obtidos nos exames é resultado directo das suas medidas, como se num ano ou menos fosse possível elevar radicalmente os níveis do sucesso escolar sem truques. Há na 5 de Outubro (veja-se de quem depende o GAVE) que tenha passado pela primeira fase desses truques durante o coutismo, quando o laxismo na avaliação permitiu ganhos estatísticos relevantes num par de anos. Agora, de forma mais (?) dissimulada tudo passa por pressionar a subida nos resultados dos exames, através do abaixamento do nível de exigência das provas e pela largueza dos critérios de avaliação.

Só se deixa surpreender ou enganar quem quer. Ou quem está muito distraído ou é inexperiente nestas andanças . Paulo Feytor Pinto não é nenhuma dessas coisas. Fica-lhe bem o protesto. Mas todos já sabíamos o que aí vinha.