Terça-feira, 19 de Junho, 2007


Se acho que os indivíduos são, antes de qualquer outro aspecto e em circunstâncias normais, os responsáveis principais pelos seus próprios resultados, isso não significa que eles não sejam condicionados por outros factores, como por exemplo o ambiente social, cultural e económico onde se movem.

Já ouvi várias vezes a crítica de que, ao aceitar o contexto como factor activo no desempenho escolar dos alunos, estou a ceder a certos determinismos sociais fora de moda. Normalmente essas críticas ignoram que esta minha adesão a tais teorias é parcial, pois considero o contexto importante, mas não necessariamente decisivo. Sei também que sou naturalmente marcado pela minha vivência como aluno e docente, em grande parte passada em períodos e territórios em crise, ou “deprimidos”, ou em risco de exclusão, conforme queiram chamar-lhes. Só que essa experiência pessoal, mesmo que influenciando o meu olhar sobre os fenómenos socio-educativos.  não significa que o que existe, deixa de existir. Porque existe.

Em alguns momentos, como quando se lêem os dados sobre o retrocesso do poder de compra do nosso ordenado mínimo, fico sem saber ao certo o que mudou – para além da parafernália de gadgets que potenciam muito mais as ambições e frustrações infanto-juvenis – ao longo das últimas décadas e se certas tiradas produzidas na época áurea das teorias da reprodução das desigualdades ainda não terão a sua actualidade, como estas de Torsten Húsen em estudo produzido em 1975 para a OCDE, em especial quando destaca que o sistema de ensino, por si só, não pode ser o Grande Equalizador:

O objectivo de uma maior igualdade das oportunidades e dos resultados só poderá ser atingido através de uma política de ensino. Exige esforços concentrados de todos os que têm a responsabilidade das políticas sociais e económicas aplicadas à sociedade no seu conjunto.
(…)
Assim, a educação compensatória isoladamente não pode servir de panaceia. Os recursos consagrados aos programas que beneficiam as crianças dos meios desfavorecidos com algumas experiências estimulantes e individualizadas antes de entrarem na escola são um exemplo típico da abordagem que ignora a análise dos sistemas. O facto de passar algumas horas por dia em companhia de adultos que se esforçam por despertar e estimular a sua inteligência produz um efeito mínimo, ou até nulo, sobre as crianças dos bairros de lata, se não forem tomadas simultaneamente outras medidas radicais para atacar as causas profundas da miséria cultural, como o desemprego e as indignas condições de alojamento. (Torsten Húsen, Meio Social e Sucesso Escolar, pp. 312-313)

Quando escreve um artigo de opinião como o de Vital Moreira, hoje no Público, legitimando toda a política governamental em matéria de corte de serviços públicos e recusando o direito das populações a recorrerem judicialmente de tais decisões.

(desculpem lá mais não tem link e deixei o jornal da escola, pelo que não consigo meter imagem ou citação apurada)

Recebo este mail da DGRHE e sinto-me (quase) importante:

Ex.mo Senhor/Senhora

No âmbito do procedimento do concurso para acesso à categoria de professor titular, esclarece-se o seguinte:
 1. O prazo de candidaturas decorreu entre 4 e 11 de Junho.
 2. A comissão de certificação procede à validação dos dados de cada candidatura, no período compreendido entre 12 e 25 de Junho, nos termos dos n.ºs 1 e 2 do art. 15.º do Decreto-Lei n.º 200/2007, de 22/05.
 3. De 26 a 28 de Junho, decorre um período de aperfeiçoamento da candidatura.
 4. Os candidatos, nesses três dias, têm acesso à sua candidatura, podendo alterar dados, validados ou não validados pela comissão de certificação, tendo em conta os elementos constantes nos respectivos processos individuais.
 5. No período de 29 de Junho a 5 de Julho, a comissão procede à certificação desses dados, conforme solicitação dos candidatos.
 6. Posteriormente, serão divulgadas as listas dos candidatos admitidos e excluídos.
 7. Após análise das participações dos docentes excluídos, o júri elabora a lista final dos admitidos e procede à selecção e ordenação dos candidatos.
 8. O Presidente do Conselho Executivo e o Director do Centro de Formação da Associação de Escolas, enquanto elementos do júri, mais próximos dos candidatos e das comissões de certificação, deverão acompanhar todos os procedimentos do concurso.

Com os melhores cumprimentos,

A DGRHE – Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação

A minha felicidade só não é completa, mas apenas quase, porque descobri que os candidatos são primeiros seleccionados e depois ordenados, mas isto já depois de ter sido elaborada a lista final de admitidos. Eu costumo fazer esssas operações ao contrário – primeiro ordeno e depois selecciono, sendo que a selecção até decorre normalmente da ordenação – mas, convenhamos, sou de História, ciência pouco exacta e posso estar a ver mal a coisa. Picuinhices de quem passou um dia incrivelmente acidentado e desagradável.

Mas também gostava de saber como é que se vai resolver a questão da presença ou substituição do DRE competente em cada júri de concurso. Porque afinal, sempre é ele(a) o(a) Plesidente do orgão.

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Acabo de ver e ler o chamado “Exame Nacional” de Língua Portuguesa para os alunos do 9º ano.

Por momentos pensei que estava a ler uma prova de aferição, relativamente fácil, para os meus alunos do 6º ano.

Se uma infantilidade destas não tiver como resultado um êxito massivo, é mesmo porque as coisas andam completamente às avessas.

Dos 100 pontos da prova 45 (50 se contarmos com o slogan) são para a chamada compreensão da escrita (vulgo “interpretação”), 20 pontos para o conhecimento explícito da língua (a “gramática”) e 30 para a produção escrita (a antiquíssima “redacção”, que também se conhece como “composição escrita”).

Dos pontos da parte de compreensão da escrita, 13 destinam-se a respostas de escolha múltipla, 11 a meras transcrições de frases do texto, 14 que a resumos de partes do texto e apenas 7 à tal “interpretação”, no sentido de ilação de algo a partir do que está explírito no texto. Qualquer aluno meu do 6º ano – e este ano poucos são mais do que medianos – faria esta parte da prova sem problemas de maior.

A parte reservada à “gramática“, também como resultado possível da suspensão da TLEBS, é risível, com apenas 4 questões, 2 das quais de escolha múltipla e uma que apenas pede a reescrita de uma frase na forma passiva.

Adivinho, portanto, elevados níveis de sucesso neste exame e, com sinceridade, quem tirar classificação inferior a 35 pontos (alcançáveis fazendo correctamente as questões de escolha múltipla, de transcrição e uma fraca composição) é porque esteve ausente da generalidade das aulas ou esteve apenas de corpo presente no próprio exame.

Penso, ainda, que esses resultados irão ser apresentados, por comparação com os de anos anteriores, como uma enorme vitória da política recente desta equipa ministerial, resultado directo das iluminadas directrizes emanadas da 5 de Outubro.

Por outro lado os professores não devem recear estes resultados como factor da sua avaliação. A menos que tenham inflaccionado desnecessariamente a avaliação interna, a avaliação externa vai deixá-los muito bem vistos desta vez. É a (positiva) consequência indirecta de uma estratégia de facilitismo nos exames, verdadeiramente encarados como formalidade para cumprir calendário.

Realmente, não valia a pena gastarem dinheiro e tempo com isto. Ou então não vale a pena chamar exames a provas que são mais elementares do que qualquer teste que eu fiz a alunos do 6º ano desde o Carnaval.

Se é isto que se acha que deve exigir a alunos que completam a escolaridade obrigatória, então não se admirem com os resultados quando são feitos testes comparativos a nível internacional.

A classificação das provas de aferição, pelo menos as do 4º ano (suponho que será o mesmo ou parecido para as do 6º ano), diz-me a colega Filomena V., irão ser pagas a 12 cêntimos a peça.

O que significa que corrigindo 60 provas (o que já vimos que leva cerca de 20 horas, pelo menos, não contando as deslocações às Unidades de Aferição), os classificadores terão direito a auferir a módica quantia de 7,2€.

E ainda há quem se queixe que ganhamos mal.

Apreciei ontem a forma algo irritada como o Presidente da Associação dos Professores de Português reagiu ao exame do 12º ano de Português. Ouvi-o na TSF e agora leio-o no Diário de Notícias:

A Associação dos Professores de Português (APP) acusa o Ministério da Educação de “ter escolhido o caminho mais fácil” nos exames nacionais da disciplina – primeira fase -, realizados ontem, onde se inscreveram cerca de 67 mil alunos.
Contactado pelo DN, Paulo Feytor Pinto, presidente da APP, diz que a prova -já de si “limitada” em termos de conteúdos, por se destinar a estudantes de dois programas distintos – deixa de fora a análise dos conhecimentos gramaticais obtidos pelos alunos .”Há um grupo de perguntas que se apresenta a si próprio como sendo de apreciação do conteúdo de gramática, mas que na prática quase não incide sobre essa área”, considera.
Para Paulo Feytor Pinto, o objectivo dessa omissão terá sido “evitar problemas” relacionados com os novos termos gramaticais
(TLEBS) – que, apesar de suspensos no ensino básico, já estão presentes nos programas de Português do secundário, pelo que poderiam surgir nas provas. “Digamos que essa estrada [incluindo questões de gramática] era mais sinuosa e parece ter-se optado pelo caminho mais fácil. Só que essa ‘estrada’ fazia parte do programa”.

Compreendo a justeza das reclamações, só achando profundamente estranho que o colega meu homónimo aparente não perceber que, neste caso particular, o ME não tinha outra saída airosa que conjugasse menos gastos, a não exposição a potenciais acções judiciais e a promoção de um sucesso educativo virtual.

Vamos por partes:

  • Fazer um único exame para alunos de dois programas distintos, sendo uma coisa perfeitamente aberrante do ponto de vista pedagógico, é extremamente lógido do ponto de vista contabilístico. Envolve menos gente. Sai mais barato. Nem vale a pena esperarmos outra coisa. Se pudesse fazer isso sem escândalo geral nas próprias hostes, o ME faria um exame único para todas as disciplinas.
  • Limitar os conteúdos gramaticais examinados vem apenas na esteira do que já aconteceu com as provas de aferição e é o resultado da calamitosa gestão do dossier TLEBS. Obviamente que, depois de removida do caminho no Ensino Básico, a nova terminologia só podia aparecer nos exames com grande risco de lhes cairem umas acções judiciais em cima (aliás, anunciadas ainda durante o período de indefinição que antecedeu a suspensão da TLEBS no Ensino Básico). Não aparecendo, e tendo o trabalho com as turmas do 12º ano sido baseado nela em muitas escolas (não ouso dizer todas, porque terá havido gente prudente), depois também ficava pouco de fora que, ao nível do 12º ano, permitisse constituir um conjunto de questões com um peso relevante na prova.
  • Por fim, quando à facilidade geral da prova, veremos que isso vai ser uma marca de água da generalidade dos exames. Esta equipa ministerial vai querer fazer crer à opinião pública e publicada (e alguns escribas orgânicos do regime só estão à espera do tiro de partida) que a melhoria dos resultados obtidos nos exames é resultado directo das suas medidas, como se num ano ou menos fosse possível elevar radicalmente os níveis do sucesso escolar sem truques. Há na 5 de Outubro (veja-se de quem depende o GAVE) que tenha passado pela primeira fase desses truques durante o coutismo, quando o laxismo na avaliação permitiu ganhos estatísticos relevantes num par de anos. Agora, de forma mais (?) dissimulada tudo passa por pressionar a subida nos resultados dos exames, através do abaixamento do nível de exigência das provas e pela largueza dos critérios de avaliação.

Só se deixa surpreender ou enganar quem quer. Ou quem está muito distraído ou é inexperiente nestas andanças . Paulo Feytor Pinto não é nenhuma dessas coisas. Fica-lhe bem o protesto. Mas todos já sabíamos o que aí vinha.