Na primeira página do Sol lê-se:

Medo de retaliações do Governo

Van Zeller explica anonimato da maioria dos empresários

Isto a respeito do estudo quanto à localização de um novo aeroporto em Alcochete.

O que é curioso porque muitas vezes se diz que o Estado se verga aos interesses de particulares. Assim como se sabe que a chamada sociedade civil – mesmo a empreendedorase encosta ao Estado, colhendo os benefícios da sua sombra protectora. O que é tudo verdade porque esta é uma situação como a do jogo do saco em que duas pessoas saltam em conjunto, tendo cada uma apenas uma perna no dito saco.

A verdade é que tanto Estado, em especial se o reduzirmos à elite política dirigente e não tentarmos acreditar que existe em Portugal um Estado moderno normal, como a dita sociedade civil são muito fracos em Portugal e precisam de se encostar mutuamente para sobreviverem e irem iludindo a populaça.

São muitos os governantes, enquanto governam, preparam muitas vezes apenas a sua transição para a futura actividade privada. Ganham currículo, conhecimentos e ligações para depois serem figuras cobiçadas na meia dúzia de grupos económicos que prosperam entre nós. Por pudor, vamos evitar nomes, mas todos sabemos quem são e onde andam. Embora alguns mais disfarçados que outros.

A sociedade civil, enquanto tal, procura não desagradar ao Estado, para dele poder obter prebendas, isenções fiscais, acesso preferencial a subsídios e tudo aquilo que também sabemos. Por isso, tem alguma dificuldade em descolar das decisões governamentais, preferindo antecipá-las ou condicioná-las. Aparecer abertamente a contestar uma decisão política do poder executivo não é habitual, a menos que seja como forma de obter qualquer contrapartida.

Por isso me parece que, desta vez, o que se passa em torno do estudo sobre a localização do novo aeroporto tem atrás de si algo diferente do habitual. A manutenção na sombra de alguns dos investidores pode significar mesmo que as coisas foram feitas mais a sério do que o costume.

Pode parecer paradoxal, mas não é.

Num tempo de fomento à delação e à vendetta pessoal e/ou institucional, o anonimato pode ser a única forma de protecção.

Porque – vamos ser francos – o mérito ou demérito do estudo e das suas propostas estará no seu aspecto técnico. Não necessariamente nos financiadores. O escrutínio deve ser técnico e não outro. O querer saber a identidade dos financiadores – e são várias as vozes que sobrem de tom nessa matéria – é um detalhe que apenas interessará de forma lateral à essência do problema. Mas terá o seu interesse para negócios futuros com o Estado, acredito eu.

Porque será que até hoje nunca vi um grande interesse em saber quem financia outros estudos em áreas sensíveis como a Saúde – quem está por trás dos surtos de notícias sobre a falta de vacinas ou determinados medicamentos? – ou a própria Educação – quem apoiou a produção de “estudos” sobre o interesse de determinados modelos de financiamento do sector privado da Educação, Superior e Não-Superior?