Quinta-feira, 14 de Junho, 2007


Da Visão, em peça (p. 122) a propósito do prémio de Palerma do Ano, desculpem, Professor do Ano (embora esta designação me pareça algo machista e discriminatória):

E o que faz um bom professor? António Nóvoa, 52 anos, reitor da Universidade de Lisboa e membro do júri do prémio, arrisca: deve ter conhecimento, «munir-se de tacto pedagógico e mostrar responsabilidade profissional», aliando a «reflexão sobre a experiência» com o «trabalho em equipa». E ainda ser capaz de um «compromisso social» com os valores, a inclusão social, a diversidade cultural».

Disclaimer: Para que conste, e para evitar reparos laterais como os que já aconteceram há tempos por parte de um ex-comentador assíduo do Umbigo, o professor António Nóvoa foi formalmente o presidente do júri (embora substituído no acto propriamente dito) do meu doutoramento. Acho que isso não é impeditivo de eu o citar, como agora faço, de forma algo divertida, até concordando com tudo aquilo que afirma.

Esclarecimento prévio: desgosto de forma equivalente de professores que estão durante duas décadas afastados da docência, em estruturas técnicas intermédias ou centrais do ME, e de pessoas que fazem a sua carreira à sombra do alinhamento partidário, saindo mais ou menos directamente das jotas para cargos de confiança política. Pior ainda se passam pelo sindicalismo para se tornarem, posteriormente, militantes anti-sindicais. Não sou filiado, nem nunca vagamente estive interessado nisso, em nenhum partido, e por maioria de razão no PS e no PSD.

Pelo que não nutro nenhuma posição apriorística a favor de Fernando Charrua ou Margarida Moreira. Limito-me a observar os efeitos dos seus actos e a analisar as suas palavras. Neste caso as da Directora Regional de Educação do Norte ao Diário de Notícias. E partindo do princípio que tenho direito à expressão livre da minha opinião.

Vamos lá então a isso, seguindo a ordem da entrevista:

  • Preocupa-me a confusão, que espero involuntária, feita por Margarida Moreira entre a sua pessoa enquanto Directora-Geral e o organismo que dirige e os seus funcionários. Afirmar que um ataque (crítica?) dirigido à Directora-Geral, em virtudes de actos por si praticados, é um ataque a toda a DREN e aos seus funcionários é manifestamente abusivo. Tão abusivo como considerar que um ataque ou crítica ao Primeiro-Ministro ou ao desempenho de um titular de um cargo político é um ataque à Democracia. As considerações que se lêem em jornais, blogues ou outros meios de comunicação são feitas sobre acções concretas da Directora-Geral e não à Direcção-Geral.
  • Afirmar que existe uma campanha difamatória, mas depois ficar por aí e que não é sua função esclarecer essa acusação geral e vaga é algo tão mau ou pior do que aquilo de que se queixa ser vítima.
  • Gostava de saber se quando MM afirma que «temos tudo o que tem saído na comunicação social, nos blogues, ofícios…», etc, etc, o uso do plural é feito no sentido majestático do termo se significa que têm sido obilizados funcionários e meios da DREN para monitorar um assunto que toca essencialmente apenas a Directora Regional. Porque então a confusão entre a pessoa, a função transitória e a instituição ultrapassa alguns limites razoáveis.
  • Justificar o processo a um funcionário com a existência de outros 777 é aterrador. E indicia a existência de um clima certamente pouco saudável.
  • Considerar que o processo disciplinar não foi causado por um insulto a propósito da licenciatura do Primeiro-Ministro, mas por um insulto ao cidadão José Sócrates, que por acaso é Primeiro-Ministro, é um mero sofisma, ficando por saber se Margarida Moreira se preocupa com todos os insultos que são feitos por funcionários da DREN a outros cidadãos.

Quanto ao resto, acredito que Margarida Moreira tenha razões para afirmar que perturbou interesses instalados na DREN. Certamente que os havia e ainda há. Como em muitas outras DRE’s. Só que há limites para a resolução dos assuntos num Estado de Direito. Não sou um formalista ferrenho nestas matérias, mas não me parece que o método do meia bola e força seja o melhor, em especial se depois a pessoa se queixa de ser criticada com base em princípios machistas.

Aliás, se o caso fosse na inversa – uma funcionária suspensa por um Director – tenho quase a certeza que as críticas seriam bem mais ácidas.

Summer rain, dripping down your face again
Summer rain, praying someone feels the same
Take the pain killer, cycle on your bicycle
Leave all this misery behind

Por que razão só agora quebra o silêncio em relação às acusações de que tem sido alvo?
(…)
Não percebo a escalada sobre mim: é objectivamente uma campanha difamatória, que ataca esta casa e estas pessoas para chegar a mim. Ou qualquer outro objectivo que eu não tenha descortinado, seja escolas , professores ou conselhos executivos. E isso eu não posso tolerar: quebro o silêncio porque é a minha obrigação defendê-los.Quem está a fazer esta campanha?Quem faz a campanha não me compete a mim apurar. Nós temos tudo o que tem saído na comunicação social, nos blogues, ofícios, em tomadas de posição, em artigos de opinião… Esta campanha tem três fases. O processo disciplinar, iniciado a partir do momento em que é nomeado um instrutor, esteve durante quinze dias em segredo como qualquer outro processo disciplinar. Só este ano, na área da DREN, foram já abertos 778 processos: o do professor Charrua é um deles.
(Margarida Moreira ao DN)

Apenas três notas muito curtas:

  1. O facto de não perceber o desagrado é já de si um bom sinal de falta de perspectiva.
  2. Eles estão a arquivar tudo, portanto, estou feito. E como eu, muitos outros.
  3. Caramba, 778 processos só este ano! E ainda se admira que a acusem de… [censurado].