Quarta-feira, 13 de Junho, 2007


Alguns apontamentos de uma entrevista transcrita já há duas semanas no Educare com Javier Murillo, que por vezes procura conciliar perspectivas antagónicas nas suas respostas – como, por exemplo, um sistema de avaliação que seja ao mesmo tempo voluntário e obrigatório, o que me parece um pouco difícil – mas que também levanta questões pertinentes, relativizando soluções únicas e defendendo que nenhum sistema funciona sem a colaboração activa e contra os avaliados.

E.: Há um modelo de avaliação ideal?
JM: Não, nem os estudiosos, nem a experiência, nem os docentes ou os responsáveis políticos estão de acordo sobre a superioridade de um determinado modelo face a outro. Cada país deve criar o seu próprio modelo em função das características do seu sistema educativo, dos seus professores e das prioridades políticas.
(…)
E.: Que competências deverá ter o avaliador?
JM: Um avaliador deve ter, em primeiro lugar, um bom conhecimento do trabalho do professor em aula bem como possuir uma panorâmica do sistema educativo no seu conjunto. Deve também ter conhecimentos e experiência em avaliação: aplicação de instrumentos, elaboração de relatórios informativos, etc.
(…)
E.: Como é que isso se pode evitar ou solucionar?
JM: Em primeiro lugar, criando um sistema de avaliação de qualidade: útil, credível e tecnicamente impecável. Em segundo lugar, trabalhando para criar uma cultura de avaliação, através de um modelo mais profissional e menos burocrático onde o docente perceba que a avaliação existe para o ajudar no seu trabalho. E tudo isto, estabelecendo um consenso com os professores e os sindicatos. Um sistema de avaliação só servirá se for aceite pelos docentes e por toda a comunidade educativa.
(…)
E.: Que sugestões daria aos responsáveis [portugueses]?
JM: Trabalhar muito e dialogar. É preciso negociar com todos as partes envolvidas para alcançar o modelo de avaliação de professores que Portugal necessita.

Dialogar, como sabemos, é coisa que a tutela cada vez revela menor capacidade para fazer, pois parece entender que o diálogo só tem um sentido, com alguém a debitar as fórmulas e os ouvintes a aquiescerem ou a «auto-excluirem-se» como agora se chama ao acto de discordar. 

Enquanto assim for…

É de ontem a nova versão sobre os impedimentos relativos aos elementos dos júris e comissões de certificação das candidaturas ao concurso para professor-titular.

Note-se que as comissões já estavam definidas e que, agora, em cima do acontecimento, é necessário irem ver se têm parentes em 2º grau, de coiso e tal e sei lá mais o quê. Já podiam ter lido o Processo do Código Administrativo mais cedo, não será assim?

Já há algum tempo que eu tinha chamado a atenção para o facto de – mesmo em abstracto – determinadas situações de incompatibilidade necessitarem de ser explicitadas. Porque nada como prevenir antes de remediar.

Gosto muito em especial do parâmetro que determina o impedimento total «quando entre o elemnto do órgão e o opositor ao concurso haja grande intimidade ou inimizade». Adivinho neste momento um inquérito apurado aos casos de amores e desamores entre meio corpo docente de algumas escolas e a absoluta maledicência associada.

E então o que dizer da incompatibilidade gerada «quando membro do órgão tenha recebido dádiva, de opositor ao concurso antes ou depois da abertura do concurso»?

O que significa antes? Imaginemos que, como autor de um manual ou de um qualquer livrito olvidável, dei a uma(a) colega um exemplar autografado e com b’jinhos (no caso de uma colega…) ou um forte abraço (no caso de um colega) há um par de anos? Conta?

De que tipo de dádiva se fala? Acima de quantos euros, cilindrada ou metros quadrados?

Lembro-me agora que é possível – acho eu – que possa ter depositado um ósculo ou dois(respeitoso, respeitoso…) num elemento da minha Comissão de Certificação no início do ano, ou mesmo por ocasião do seu aniversário. Será que a coisa revela, a um tempo, manifesta intimidade e o estatuto de dádiva? Porque um beijo, sincero e bem dado, mesmo que na face ou na fronte, é coisa valiosa nos tempos voláteis que correm.

É que realmente isto tem a sua graça. Primeiro deixam a coisa no limbo; depois, já com tudo em movimento, lembram-se que afinal, pensando bem, o melhor será mesmo evitar que ainda aconteçam por aí uns trinta-e-uns por causa de se terem esquecido de tipificar decentemente as incompatibilidades.

Não foi por falta de aviso…

(c) Kaos e Antero Valério

Polémicas levam ministra a S. Bento

O PS aprovou, ontem, a audição parlamentar da ministra da Educação, destinada a “cabal esclarecimento” dos “estranhos factos” que envolvem a saída da Associação de Professores de Matemática da comissão de acompanhamento do Plano de Matemática. Maria de Lurdes Rodrigues poderá ser confrontada também pela oposição com o caso do processo disciplinar movido pela DREN ao professor de Inglês, e ex-deputado do PSD, Fernando Charrua, visto que o PS aprovou, no final do mês passado, uma audição nesse sentido. (Jornal de Notícias)

Se nos lembrarmos das antecedentes idas ao parlamento de MLR está garantido um bom momento de entretenimento gago. Acredito que já tenham começado as sessões de preparação. Como se viu, pela delegação de competências, na prática a Ministra não tem sob a sua alçada directa nenhum destes assuntos, sendo que nem ao recurso hierárquico de Fernando Charrua parece ter-se dado ao trabalho de responder nos prazos legais.

As tropelias da DGDIC estão naturalmente sob a alçada do seu Secretário de Estado Valter Lemos, o qual já se sabe que em anterior ida à Comissão de Educação acabou a atirar a papelada toda pelos ares, quando a conversa lhe desagradou.

Por isso, é com sincera curiosidade que espero por esta ida, nem tanto pela substância das respostas – que devem estar a ser programadas ao milímetro num guião a não desrespeitar – mas mais pela forma como serão debitadas. Se desta vez as hesitações e titubeios serão menores, se o nervosismo transparecerá menos.

Entretanto, e perante a viragem de parte da comunicação social, o que levou a mexidas na equipa de comunicação do ME há alguns meses atrás, iniciou-se uma fase de queixas perante o ambiente hostil que vai sendo enfrentado. Devem estar em preparação dossiers para divulgação ao povinho no final do ano lectivo com imensos balanços sobre tudo o que possa ser usado de forma propagandística.

É só esperar para confirmar…

Pacheco Pereira lançou há uma semana uma reflexão para o ar sobre o estado da blogosfera, em forma de metabloguismo.

Quando o li respondi-lhe em forma de mail e post, salientando o papel do Abrupto em algum afunilamento da blogosfera, assim como o próprio afunilamento do olhar de JPP sobre a blogosfera. Enviei-lhe o perfil de ligações estabelecidas (com base no Touchgraph) pelo Abrupto para demonstrar até que ponto isso era verdade, como ele se tinha encerrado numa teia limitada de ligações, em especial internas.

Outros blogues reagiram ao texto (encontram-se no Avenida Central listados alguns dos posts sobre o tema), mas parece-me que a iniciativa não teve o impacto e a resposta que o seu lançador estaria à espera.

Uma semana exacta depois ainda estou à espera de que o “continua” prometido, tenha desenvolvimento. Não é por nada, mas JPP não costuma ser do género de atirar para o ar e depois fingir que não atirou. Por isso, continuo mesmo na expectativa para ver que continuação poderá ter aquele texto.

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