Quinta-feira, 7 de Junho, 2007


(c) Antero Valério

– O concurso para titulares é de âmbito nacional?
– Não
– Mas é lançado a nível local?
– Não!
– Então é lançado a nível nacional?
– Sim!
– Mas é apenas de âmbito local?
– Sim!
– Então o aviso de abertura foi lançado a nível…
– Nacional!
– Mas os concursos são a nível…
– Local!
– E as regras foram definidas a nível…
– Nacional!
– Mas vão ser aplicadas no plano…
– Local!
– E as competências das Comissões de Certificação foram definidas pelo…
– Poder Central!
– Mas funcionam no plano…
– Local!
– O número de vagas foi determinado pelo…
– Poder Central.
– Mas os concursos são para prover vagas a nível…
– Local.
– E as regras para as reclamações foram elaboradas pelo…
– Poder Central.
– Mas vão ser feitas e apreciadas no plano…
– Local.
– Portanto é tudo decidido a nível central?
– Sim!
– Mas aplicado no plano local?
– Sim!
– Mas então qual é o grau de autonomia das escolas neste processo?
– Nenhum!
– Porque tudo é determinado a nível central?
– Sim!
– Então porque não é um concurso de âmbito nacional?
– Porque é apenas ao nível local.

(continuar ad nauseum)

Aveiro : Dada como apta para o serviço
Professora com leucemia morre à espera da reforma

O resto, depois de denunciado pela blogosfera faz hoje a primeira página do Correio da Manhã.

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É mesmo verdade que há escolas e agrupamentos onde, apesar de opositores ao concurso para titular, elementos do CE ou Presidentes das Assembleias de Escola se mantêm nas Comissões de Certificação das candidaturas, auto-certificando-se?

Como prometido, alinhavo um ligeiro desenvolvimento da questão suscitada por um post no Abrupto em que Pacheco Pereira se queixa fundamentalmente dos seguintes aspectos da blogosfera nacional:

  • Empobrecimento da blogosfera, apesar do maior número de leitores, em torno de questões políticas e literárias (JPP exclui como temas o futebol e a pornografia, o que só por si daria pano para mais dois textos).
  • Cruzamento e sobreposição dos temas entre imprensa mainstream e blogosfera.
  • Crescimento dos fenómenos de grupismo e amiguismo na blogosfera, com menções recíprocas e trocas de favores.
  • Entrada da blogosfera no establishment político e mediático, o que significa que se tornou complacente consigo mesma, algo que antes criticava na imprensa.
  • Ausência de discussão sobre estes temas.

Numa primeira leitura este diagnóstico parece (quase, apenas quase) irrecusável e apela à concordância. Mas não será que anuir assim tão imediatamente às teses de um dos pioneiros da blogosfera nacional é exactamente um dos sintomas da tal doença de que JPP fala? Eu acho que sim, e por isso vou explicar porque discordo a vários níveis da sua leitura, tudo misturado com a minha explicação sobre as razões de tal situação, que me parecem evidentes.

Tudo o que JPP diagnostica em relação à blogosfera padece de um erro de perspectiva inicial, uma espécie de pecado original do seu olhar. Porque JPP olha apenas em seu redor, olha para onde se habituou a olhar e, ao que parece, recusa liminarmente olhar para além de limites que se impôs a si mesmo. O que sendo legítimo em termos de opção individual, não é totalmente aceitável quando se parte para um olhar metabloguístico olhando para o funil ao contrário e dizendo que aquele ponto de luz ao longe é pequeno, muito pequeno. Talvez se arriscarmos virar o funil ao contrário, o olhar se alargue e abarque mais luzinhas no céu estrelado. No fundo, JPP olha apenas para o que podemos considerar a blogosfera institucional.

Porque JPP fala e escreve fundamentalmente de uma certa blogosfera. Aquela que é constituída por quem já tinha direito à opinião na imprensa ou quem rapidamente, nela ganhou lugar. Se seguirmos os nomes dos blogues tidos como notáveis não encontramos desconhecidos anónimos; pelo contrário, encontramos dirigentes partidários, opinadores residentes da República há décadas, alguns jovens (já não tão jovens quanto isso) turcos das extremas políticas, jornalistas com material de sobra para escrever, intelectuais orgânicos do regime e algumas figuras tidas como referências culturais ou da crítica cultural/literária. Se necessário podemos colocar nomes de pessoas em cada categoria, mas parece-me desnecessário.

E sobre esta blogosfera, ou parte da blogosfera, JPP tem razão. Cada vez está mais igual a si mesma, cada vez surpreende menos, cada vez decalca mais textos publicados dentro e fora da blogosfera, cada vez se enredou num jogo de não desagradar – a menos que seja de forma polida, cordata e previsível – a quem não interessa desagradar. Elogiam-se os amigos e os inimigos úteis. Cruzam-se links. Trabalha-se para o PageRank e outras medidas similares de popularidade. Linka-se o Abrupto na esperança de ter um sinal de retorno. Repetem-se argumentos e pseudo-polémicas. Há uns anos era notório o jogo de interesses estabelecido entre as jovens nomenklaturas da extrema-esquerda e extrema-direita agrupadas no Barnabé e no Acidental. No fundo aquilo era tudo coreografia e quem conhecer alguns deles sabe perfeitamente que aquilo se resolveria numa conversa de café à moda antiga.

A blogosfera de que JPP se queixa é pois a blogosfera institucional, na qual já sabemos ao que vamos, cada blogue com o seu alinhamento político definido, a sua postura facilmente identificável. Visita-se por rotina, por cortesia ou por efeito de reconhecimento e identificação com as posições lá expressas. Raramente se visita para sofrer um sobressalto. É uma blogosfera satisfeita consigo mesma e que procurou colonizar o fenómeno bloguístico e formatá-lo ao seu gosto particular, que é naturalmente o gosto dos jornais. Criaram-se secções próprias em cada blogue, efeitos de reconhecimento exterior, perpetuaram-se tiques. Ahhhhh, e rapidamente – quando o espaço começou a ser frequentado por indesejados, pelas classes perigosas, pelos miserables – cortaram-se os comentários ou nunca sequer existiu essa possibilidade.

Esta é a blogosfera civilizada, a que tem horror, profundo horror à blogosfera anónima ou selvagem.

A anónima pode sê-lo porque os autores reservam a sua identidade ou porque, não a reservando, não fazem parte do universo de referências pessoais prévias da blogosfera respeitável, aquela que se cristalizou até, digamos, 2005. A selvagem é toda aquela que, explorando o seu direito à liberdade de expressão, envereda por temas incómodos, tidos como menores ou que não tem a qualidade desejada por quem plana sobre tudo isto em questões de gosto.

Esta blogosfera alternativa – anónima e/ou selvagem – existe, não segue as agendas mediáticas do momento, é um espaço de liberdade, de menor vaidade do que a blogosfera oficial – afinal porque será que quem tem a seus pés um público potencial de dezenas de milhar de leitores (nos jornais) ou centenas de milhar (em aparições televisivas) se desdobra a trabalhar para um público infinitamente inferior em número? – e vai-se agrupando em clusters temáticos, coisa muito diferente de estratégias de amiguismo. Porque uma coisa é as pessoas agruparem-se, como autores, comentadores ou leitores de blogues, de acordo com os seus interesses, outrá é fazerem-no em vitude do tal amiguismo. Eu, por exemplo, conheço apenas 3 ou 4 das pessoas para quem tenho links permanentes (e a recíproca é verdadeira) e tenho a certeza de não conhecer pessoalmente 5% de quem por cá passa. O problema é que JPP – lá está – olha sempre para o mesmo grupo de blogues.

E daqui parte a minha segunda linha de discordância com JPP e a qual passa, concretamente, pelo próprio papel do Abrupto neste empobrecimento e afunilamento da blogosfera.

Se o Abrupto é um espaço de expressão do seu autor e, por isso, é perfeitamente legítimo que lá se encontrem expostos e demonstrados os seus gostos, interesses e poscionamentos, já é menos natural que enquanto espaço de reflexão sobre a blogosfera padeça de muitos dos pecados que apresenta às vizinhanças mais ou menos distantes.

Vou ser claro: o Abrupto foi durante 2 anos (meados 2003 a meados 2005, ou mesmo até fianl desse ano) um espaço que visitava pelo menos duas vezes por dia. E no qual cheguei a ver um par de textos meus divulgados (assim como está um nos Estudos sobre o Comunismo). Só que a partir, em especial de 2006, também o Abrupto se encerrou numa fórmula que por ser de sucesso acabou por cristalizar demasiado, perdendo agilidade e novidade. E cada vez passou a reagir apenas e só à agenda política e comunicacional actual e prescindiu de outro nível de abordagens menos imediatas. Agora vou lá, por rotina, uma ou outra vez por semana, caso tenha perdido o texto de JPP no Público.

Para além disso, passou a ser o depósito dos textos produzidos por JPP para o Público e a Sábado, demonstrando pelo exemplo de que forma blogosfera e imprensa passaram a viver em alegre conúbio. E cada vez foram menores as pistas lançadas a partir do Abrupto para zonas novas da blogosfera. Eu fiz o mapa das relações do Abrupto na net com o Touchgraph e encontrei uma rede muito limitada e pouco aberta.

Por isso JPP faz parte activa – e com responsabilidades acrescidas pelos estatutos auto-assumidos de pioneiro e meta-analista do fenómeno – daquela blogosfera que critica.

E mesmo para acabar eu colocaria aquelas que acho serem as questões essenciais sobre a blogosfera institucional:

  1. Porque será que tantas figuras públicas, com espaço permanente disponível nos media convencionais, se preocupam em manter blogues?
  2. Porque será que tantos dos primeiros protagonistas da blogosfera nacional se deixaram formatar e absorver pelo establishment

A resposta às duas questões é fundamentalmente a mesma e não difere muito da razão porque qualquer anónimo tem interesse em criar um blogue, em alimentá-lo e em vê-lo crescer. No meu caso, pelo menos, assumo-o logo no título para não deixar equívocos a ninguém.

Discussão, oara mais logo, a propósito de um post de Pacheco Pereira sobre o assunto, que identifica correctamente alguns males da blogosfera lusa, embora esquecendo detalhes fundamentais como a verdadeira cronologia do fenómeno do amiguismo, assim como as responsabilidades do próprio Abrupto na repetição dos tiques existentes na comunicação social.

Já agora, o Umbigo ultrapassou ontem pela primeira vez as 2000 visitas tendo conseguido desde o fim de semana acabar a maior parte dos dias com(o) o blog e o post mais lidos do WordPress. Os responsáveis principalmente estão desse lado e fazem crer que é possível discutir assuntos relacionados com a Educação e interessar a mais do que meia dúzia de amigos.