Terça-feira, 5 de Junho, 2007


napo.jpg

Do Kaos. Genial, como sempre.
Mas a ideia do crucifixo, desculpem, da cruci-rosa é minha.

rosa.gif

DREN: Governo reconduziu Margarida Moreira

A directora regional de Educação do Norte, Margarida Moreira, envolvida na polémica relacionada com a suspensão de um professor que terá insultado o primeiro-ministro, foi esta terça-feira reconduzida no cargo, revelou o semanário Expresso.
O jornal cita um despacho publicado no Diário da República, assinado pelo primeiro-ministro, José Sócrates, e pela ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues.
A recondução de Margarida Moreira na liderança da DREN surge, segundo o Expresso, na sequência da alteração da lei orgânica do Ministério da Educação.
Por norma, esta alteração legislativa acarreta a cessação automática de funções dos altos funcionários, precisando, para que tal não se verifique, de uma recondução oficial nos cargos que ocupam. (Diário Digital)

Eu sinceramente acho bonito e até tradicional. É multissecular e mesmo milenar a prática de recompensar os vassalos e servidores pela prestação de serviços de relevo, em especial quando esse serviço passa por fazer trabalhos que os próprios senhores acham indignos de serem feitos pelas suas próprias mãos.

Na Roma Antiga os patrícios faziam-no à sua clientela, assim como na Idade Média os suseramos agraciavam os seus vassalos com os devidos feudos. Nem por acaso, a zona Norte do nosso país foi a de maior implantação do regime senhorial onde era comum o estabeleciemnto de relações de fidelidade pessoal com base em contratos feudo-vassálicos.

Ao reconduzirem Margarida Moreira no seu cargo, mantendo-lhe o feudo incontestado, José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrgues limitam-se apenas a manter práticas ancestrais e a demonstrarem que com o poder não se brinca.

Eu já estou de mão estendida, joelho no chão e pescoço inclinado para que a minha atitude não possa induzir ninguém em qualquer ideia equívoca.

Numa escola onde passei vários anos, abriram duas vagas para professor-titular na área das Ciências Sociais, havendo três colegas candidatáveis no 8º escalão.

Em primeiro lugar ficará a pessoa menos adequada à função, pois conheço-os(as) a todo(a)s e nem há comparação possível. Aquela criatura, por eu ser do 2º CEB nem me queria deixar falar nas reuniões de Departamento quando o assunto envolvia mais directamente o 3º CEB. Só acalmou quando me levantei e lhe pedi para puxar pela dele que eu puxaria pela minha (habilitação académica e profissional, entenda-se).

A segunda vaga será decidida entre duas pessoas que contabilizam exactamente os mesmos pontos (120, o que não é pouco e indicia algum trabalho, que eu confirmo porque ambas foram minhas delegadas de grupo vários anos lectivos), sendo feita a diferença por uma única falta no total dos tais cinco anos. Não estou a inventar nada, é a mais pura e triste realidade.

Haverá sentido nisto?

Acho que já só consigo sorrir. Como em outros anos – é a minha terceira experiência em quatro possíveis – os critérios para a classificação das provas de aferição provam, de forma exemplar, várias asserções do pós-modernismo. A objectividade não existe, a linguagem constrói a realidade e nada por este mundo não faz, se estivermos para nos preocupar com isso, sentido nenhum.

Naquela parte da prova em que já não se descontafvam os erros de ortografia, pontuação e sintaxe (como desde 2001, recorde-se sempre aos mais distraídos), porque o que interessa é classificar a compreensão da escrita revelada pelo aluno, entrámos na fase do vale tudo menos arrancar olhos e olghem que mesmo assim se for só um, ainda escapa o outro e o Camões foi um grande poeta mesmo assim.

Do GAVE, de um Areópago de estimáveis especialistas que há várias décadas não enfrentam uma aula com petizes, agora já emanam indicações telefónicas para se classificar como boa qualquer resposta que se aproxime vagamente do sentido original do que é pedido na questão. Ou muito me engano ou daqui até sexta-feira (dia da entrega das grelhas com as provas classificadas) ainda somos aconselhados a adivinhar, tomando como bom, o movimento aparente da mão do aluno(a) quando escreveu a cruz no lugar errado numa questão de verdadeiro/falso ou escolha múltipla, por isso se ter devido a uma distração momentânea.

Esta parte da prova vale 25 dos 77 pontos totais. A ortografia é avaliada, no máximo, em dois parâmetros que valem 6 pontos, o mesmo se passando com a pontuação e a sintaxe.

Tá-se bem!

In violent times, you shouldn’t have to sell your soul

Esta questão do José Luis Sarmento é legítima, a partir do momento em que as regras do bom senso oscilam e as regras da liberdade de expressão se movem sem aviso.

Há uns dias, em notícia do Público, um representante do Sindicato dos Jornalistas denunciava a situação de estarem a ser afastados da comunicação social alguns jornalistas mais experientes e incómodos para alguém ou alguéns. Em mais de uma ocasião, elementos dos Sindicatos de Profesores foram obrigados a identificar-se perante a Polícia ao manifestarem-se publicamente. Na Função Pública o silêncio tornou-se dourado a subserviência acrítica às chefias altamente recomendável perante o SIADAP que se aproxima.

Nas minhas aulas sinto que estou a começar a faltar à verdade aos alunos quando lhes ensino as diferenças entre Ditadura e Democracia em matéria de liberdade de opinião. Aliás, ainda ontem quando explicava o funcionamento da Censura a miúdos do 6º ano, houve um mais espigadote que me perguntou se era «como agora». Respondi-lhe que não, mas fiquei a pensar se o não estaria a enganar mais do que um bocadinho.

Isto é preocupante porque se confunde muitas vezes, na arena da política, autoridade com autoritarismo e firmeza com arrogância. Muitas vezes os docentes são acusados de serem autoritários com os seus alunos. Por isso, sou dos que acham que no meu quotidiano devo distinguir claramente o que é o exercício da minha autoridade com a mera imposição de uma ordem forçada.

Em matéria de liberdade de expressão os tempos que vivemos tornaram-se estranhos. A crítica assumida, a tomada de posições claras de afrontamento, é activamente desaconselhada, a menos que se tenha um grupo de suporte por trás. O que não notoriamente o meu caso. Sem ser a brincar já muitos colegas me avisaram para ter cuidado com o que digo e escrevo, quase com o que penso. O que eu acho inaceitável.

Por deformação, não sou muito dado a algumas das expressões vernaculares mais comuns. Em especial às que ofendem não o visado, mas a sua família. Mas acho que sou conhecido por não evitar emitir a minha opinião crítica quando a acho devidamente fundamentada, sobre assunto acerca do qual me acho suficientemente informado.

Por isso, vamos lá ao que acredito poder escrever sobre matéria sensível, publicamente e em nome próprio, mas que provavelmente para alguns seguidistas pressurosos, poderá constituir uma qualquer forma de delito de opinião. Já que tenho duas nomeaçãoes para Blog com Tomates, vou fazer por merecê-las:

  • Acho que a licenciatura do senhor Primeiro-Ministro não corresponde aos moldes que, desde os anos 80, julgo conhecer quanto à forma como normalmente são obtifdas as licenciaturas no Ensino Superior.
  • Considero que a actual Ministra da Educação chegou ao cargo sem preparação política ou técnica para a função e que aparece como rosto visível de políticas delineadas em gabinetes técnicos de uma segunda linha preenchida por homens de fatos e pensamentos cinzentos.
  • Tenho imensas dúvidas sobre a adequação do perfil do secretário de Estado Valter Lemos ao cargo que ocupa, quer pelo que conheço do seu pensamento e acção em início dos anos 90 durante o período do coutismo e da imposição Pedagogia do Sucesso, quer pelo que se vai conhecendo do seu estilo atribiliário em matéria de produção de despachos.
  • Para compensar, considero que os sindicatos de docentes foram, em boa parte, responsáveis pelo beco sem saída em que começaram a entrar e que os seus actuais responsáveis, nomeadamente da Fenprof, precisam com urgência de decidir se são comissários políticos nos sindicatos ou verdadeiros representantes da classe docente e dos seus interesses.

PIM

Com a devida vénia à Sinistra Ministra, a partir de onde recolhi estes dados:

22/02/2007

Com leucemia – Professora obrigada a dar aulas

Uma docente da Escola EB 2/3 de Cacia, em Aveiro, que se encontrava de baixa há cerca de dois anos, após lhe ter sido diagnosticada uma leucemia, foi obrigada pela Caixa Geral de Aposentações a regressar ao serviço para cumprir um período mínimo de 31 dias de trabalho.
Manuela Estanqueiro, de 63 anos, tinha pedido para ser aposentada por incapacidade, mas, após uma junta médica realizada em Novembro, não só viu a pretensão recusada como teve a baixa médica suspensa e ordem para voltar ao serviço, sob pena de perder o vencimento.
“Sinto-me muito injustiçada. Sei que há quem faça de conta que está doente, mas esse não é, infelizmente, o meu caso”, salientou a professora ao CM.

ATESTADO ATÉ NOVA JUNTA

O período mínimo exigido terminou anteontem e Manuela Estanqueiro está actualmente de atestado médico, até poder ir a nova junta médica. “Estes 31 dias foram de extrema agonia e cheguei a desmaiar em plena sala de aula, para além de ter de descansar nos intervalos. Só consegui ultrapassar este sofrimento porque tive sempre o apoio dos colegas, da escola e da Direcção Regional de Educação do Centro.”
A decisão da Caixa Geral de Aposentações deixou a docente de educação tecnológica “abalada psicologicamente”. “Depois de meses de quimioterapia, era o pior que me podia acontecer”, diz.
Manuela Estanqueiro diz que não a preocupa o facto de lhe recusarem a aposentação – da qual já apresentou recurso – só não entende como a podem considerar capaz para o serviço, quando tem uma doença grave diagnostica. Por causa de tudo isto, viu a baixa revogada, quando “a tinha até Outubro de 2008”.

O natural desfecho da história, que permitirá ao ME apresentar uma boa performance na sua forma de gerir os recursos humanos.

essa professora, a minha colega Manuela Estanqueiro, foi hoje a enterrar às 15.30h no Cemitério de Cacia, em Aveiro.
Estou REVOLTADO. Nem sabem o que me apetece fazer.
Agora percebo porquê que às vezes lemos nos jornais casos de ajustes de contas a tiro.
Por muito menos o fazem, por muito menos.
Desculpem a crueldade mas, dizer menos que isto, era lutar contra um sentimento de justiça que me atormenta e é bem mais forte.
Estou ENOJADO.
ENOJADO!!!!!!!!!!!!!

Francisco (4 de Junho de 2007)

Eu até adivinho a reacção ministerial se, porventura, alguém a inquirisse sobre este tipo de situação. Fases da resposta:

  • Não conheço em concreto essa situação.
  • Como Ministra não me devo intrometer nas decisões funcionamento das Juntas Médicas.
  • O episódio é dramático do ponto de vista individual mas não é representativo do universo dos docentes, que não sofrem globalmente de leucemia e não morrem todos os dias (suspiro semiaudível)

E o que revolta mais é que este tipo de argumentação é aceite como válido pela opinião publicada mais douta deste país, para quem tudo isto não passa de um pormenor, um rodapé anedótico, tudo alegadamente em função de um bem maior.

Mas quando as pessoas, em concreto, deixam de ser o bem maior de uma sociedade, quer-me parecer que entramos numa esfera de pensamento proto-totalitária em que a vida individual é sacrificável em nome de razões de Estado. Ora quer-me também parecer que essa linha de pensamento é extremamente perigosa. A variadíssimos níveis.