Segunda-feira, 4 de Junho, 2007


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Diz-me quem foi às reuniões patrocinadas pela DGRHE no dia 31 do passado Maio, que no dia 1 já as instruções eram outras e que depois do fim de semana já o próprio aspecto da candidatura foi alterado em alguns quadros. As novas instruções (de hoje, 2ª feira, dia 4 de Junho, porque as de amanhã não sei…) são estas (versão para impressão aqui, com 32 ecrãs, isto parece mais difícil que fazer um pós-doutoramento).

Por mim, dou-lhes mais 48 horas para se decidirem. Só na 4ª ou 5ª feira me darei ao trabalho de…. Porque não gosto de perder tempo e levar a candidatura anulada, porque alguém se lembrou que afinal e coiso, havia ali mais uma coisa errada.

Entretanto estou curioso quanto aos efeitos destas alterações constantes de critérios em alguns dos objectivos do processo concursal, nomeadamente naquelas partes da credibilidade e serenidade, para não falar da robustez. Se há coisa que eu posso garantir, de diversas fontes, é que pode existir tudo nas escolas menos serenidade e crença na credibilidade deste processo.

No final da conferência de imprensa, os dirigentes dos diversos sindicatos do sector deslocaram-se ao ME para entregar um abaixo-assinado subscrito por mais de 30 mil docentes contra a divisão da carreira em duas categorias.

No entanto, ninguém no Ministério se dispôs a receber os dossiers com as assinaturas, tendo os sindicatos recebido indicações para deixarem o abaixo-assinado na recepção, o que motivou um forte protesto por parte dos professores.

Em declarações à Lusa, o porta-voz da plataforma adiantou que, na sequência desta situação, agentes da PSP presentes no local procederam à identificação dos professores que se encontravam à porta do ME, gerando grande indignação. (Diário Digital)

Quanto ao resto, à substância da contestação e à estratégia para bloquear a implementação do sistema sabem os que por aqui passam que há muito apoio este tipo tipo de guerrilha chata, que pode não ter resultados imediatos, mas que mina a paciência e desorienta a potência ocupante (neste caso do território da Educação), que tende a reagir através do uso da prepotência e da intimidação. Como se viu.

“Ir ao poste” na escola é forma de agressão “antiga e relativamente generalizada”

Dois alunos de Vila Nova de Poiares tiveram de receber cuidados médicos devido a lesões nos órgãos genitais causadas pelos colegas de escola

O presidente da Associação de Pais (AP) da Escola EB 2,3 de Vila Nova de Poiares, Mário Silva, afirmou ontem, em declarações ao PÚBLICO, que, na sequência da divulgação dos casos de agressão de que foram vítimas pelo menos dois alunos daquele estabelecimento se apercebeu de que a prática conhecida como “ir ao poste” – susceptível de causar lesões graves nos órgãos genitais – “é antiga e está relativamente generalizada”.
Dois ou três alunos agarram um outro jovem, seguram-no com as pernas levantadas e abertas e conduzem-no, naquela posição, em direcção uma árvore ou um poste, onde os seus órgãos genitais embatem, com mais ou menos força. Esta foi a prática que, na segunda-feira passada, foi descrita ao presidente da AP pela mãe de uma criança de 11 anos que foi vítima daquele tipo de agressão. (Graça Barbosa Ribeiro, Público de hoje, sem link permanente)

Claro que do Observatório sobre a violência escolar (nunca me lembro do nome certo) falta vir o seu presidente, o sociólogo João Sebastião, descansar-nos quanto ao aspecto ocasional desta prática que, quase certamente por falta de quadradinho ou alínea específica, nem deverá fazer parte da tipologia dos incidentes registados e tratados por aquele utilíssimo organismo. E, claro, também temos sempre as declarações da igualmente socióloga Maria de Lurdes Rodrigues que por diversas vezes considerou pouco relevantes estas situações, que considera estatisticamente irrelevantes. Penso, porém, que só se a irrelevância for estatística, porque quanto às dores, e pela descrição da diversão, a dor deve ser tudo menos isso.

Professores incapacitados correm risco de ficar sem vencimento

M ilhares de professores considerados incapacitados para a actividade lectiva estão desesperados com a perspectiva de serem colocados em situação de licença sem vencimento de longa duração. Muito embora pudessem desempenhar actividades de apoio educativo nas escolas, o Ministério da Educação (ME) impõe-lhes a reclassificação ou reconversão profissionais. Caso não encontrem trabalho em nenhum organismo da Administração Pública, a solução é a aposentação por incapacidade ou uma licença sem vencimento. Contudo, as dificuldades impostas pelas juntas médicas à aposentação fazem prever que o caminho para a maioria dos professores será ficar sem trabalho e sem salário. Ou seja, numa situação em tudo semelhante ao desemprego sem subsídio. (Jornal de Notícias, agradecendo a referência ao JMC)

Perante este tipo de situações a revolta e o asco são tamanhos que o melhor é abster-me de escrever mais alguma coisa, para não me arrepender ou ser charruado.

Se há algo que parece incontroverso em tudo o que se está a passar actualmente em termos de política governamental em relação aos docentes é que as novas medidas irão deteriorar bastante o clima da generalidade das escolas, colocando em risco alguns dos últimos laços de coesão e solidariedade entre colegas, questiúnculas pessoais de parte.

Justificam alguns teóricos que isso é necessário, por causa não só da história do reconhecimento do mérito e da diferenciação de níveis de responsabilidade, mas principalmente porque essa é a tendência dominante ao nível das organizações que se querem eficientes. Ora isso é que me parece muito controverso.

Numa revisão da literatura sobre esse assunto um autor resume assim a leitura de Brunet sobre alguns aspectos das investigações em meio empresarial:

– Quando as políticas e os regulamentos restringem em demasia o comportamento dos indivíduos cria-se um clima impessoal.

– Quando existe um grau de centralização e hierarquização elevado originam-se percepções de clima mais negativas, associadas a características como a autocracia, a rigidez e o bloqueamento da criatividade.

– A percepção do clima é alterada conforme a posição hierárquica dos indivíduos; precisando, quanto mais “elevado” o posto maior a tendência para percepcionar a organização como menos autocrática, mais centrada nos interesses dos indivíduos, mais amigável e mais apta para se renovar. (Luís Miguel Carvalho, Clima de Escola e Estabilidade dos Professores, 1992, p. 44)

Não é preciso muito esforço para reconhecer que tudo isto se aplica na perfeição ao que se está a passar nas nossas Escolas. A impessoalidade tenderá a aumentar, assim como a criação de hierarquias espúrias só conduzirá à rigidificação dos comportamentos e ao acomodamento a atitudes conformistas e clientelares, assim como o topo da estrutura tenderá a não perceber o que se passa na base.

Já aqui fui criticado por parecer dar uma grande importância aos aspectos ligados às relações pessoais como garantia de um clima positivo de trabalho nas Escolas e como factor que pode diminuir o stress e burnout profissional. Mas mantenho integralmente essa posição.

Conheço as teorias que defendem que uma burocracia ou serviço funciona tanto melhor quanto mais impessoal for e quanto menos espaço existir para intromissões no desempenho das funções. Até acredito que isso aconteça em funções meramente burocráticas. No caso da docência não acho que isso assim seja, porque o material com que trabalhamos é humano e há muito que se exige que os docentes sejam humanos, flexíveis, adaptáveis às circunstâncias dos seus alunos. Mas depois exige-se quem entre si e nas relações organizacionais no âmbito de Escola impere a frieza dos processos impessoais.

Por isso a tendência actual para fragmentar a carreira, criando fócos adicionais de tensão e fricção – que nada têm a ver com questões de mérito ou de uma rigorosa avaliação da qualidade do desempenho dos docentes – só virá estragar o clima das escolas e, em muitos casos, azedar as relações pessoais com o pretexto de uma competição que, na essência, não faz sentido, porque vai desincentivar a cooperação entre docentes.

Mas como demonstração cabal disso, deixo aqui o último parágrafo da obra acima citada:

Uma última conclusão prende-se com a importância das relações pessoais – relações entre pares mas também com os alunos – enquanto elemento da vida escolar mais privilegiado pelos professores.

Entre professores, o peso dessas relações é evidente e aparece muito ligado a intens do clima organizacional que distinguem percepções globais positivas e negativas: a cooperação entre professores, o envolvimento em decisões, o apoio sentido, a consideração das suas ideias. A intensidade das relações entre professores é, aliás, uma das características apresentadas pelos docentes portugueses susceptível de indiciar uma coesão interna do corpo docente (…). (Idem, ibidem, pp. 104-105)

As coisas eram efectivamente assim quando entrei para a docência e assim se foram mantendo, com maiores ou menores sobressaltos. É isso que está agora em acelerada erosão. É esse um dos principais objectivos mais explícitos da acção deste Ministério da Educação: partir a classe docente e não apenas em termos de progressão na carreira.