Para cumprir um calendário apertado, e mesmo tendo determinado que as reclamações a este concurso não podem ter efeito suspensivo (e o que acontecerá se houver muita reclamação válida?), a DGRHE desdobrou-se em instruções, anexos, sessões de esclarecimento,  instruções telefónicas ou por mail, nos últimos dias da passada semana.

Em tempo de modernidade e choque tecnológico, os instrumentos-chave da operacionalização destas medidas passam por aplicações em powerpoint com o nome de roadshow e por conceitos de uma pretensa sofisticação linguística anglo-saxónica, tudo misturado numa enorme confusão conceptual onde, ao lado da pressa, se percebe o fraco domínio de uma hierarquização lógica das ideias.

Vejamos o que se passa com um dos quadros iniciais (o nº 3) da apresentação agora disponibilizada para ilustração dos pobres de espírito que somos todos nós. Encontramos lá os “Objectivos”, “Princípios-Chave” e Enablers (!!!) do concurso para professores-titulares.

Antes de mais não tenho dificuldade em distinguir entre os princípios e os objectivos de qualquer coisa, apenas me confunde quando a sua formulação se confunde.

Entre os objectivos anunciados temos:

  1. Credibilidade do processo
  2. Serenidade dos intervenientes
  3. Robustez dos resultados

Isto parece um texto marxista, tendência groucho. Como já alguém comentou por aqui, o objectivo essencial deste concurso é abrir e prover vagas para professores-titulares. E mais nada. Quanto muito é desejável que todo o processo tenha credibilidade, mas parece-me que isso já se encontra liminarmente afastado com base na confusão das instruções, na incoerência do que está escrito na lei e é transmitido aos CE’s e Comissões de Certificação e ainda no caos instalado em muitos serviços administrativos das escolas deste país.

Quanto à serenidade dos intervenientes, só pode estar como sinal de alta-comédia entre os objectivos do concurso. Acho que neste momento será ínfima a proporção de escolas onde exista uma clima de serenidade. Hoje talvez exista, mas é porque estão fechadas. Quanto aos intervenientes, andarão quase todos em diversos estados psicológicos, mas dificilmente caracterizaria algum deles como de serenidade. Há excepções, mas serão muito poucas.

Por fim, gostaria de perceber o significado da expressão robustez dos resultados? Em gíria desportiva isso era a formulação erudita de dar uma abada ao adversário. Nesse sentido talvez se perceba a expressão já que se pretende que o ME derrote, com este processo, os professores por uma larguíssima margem. Seja em termos de desrespeito pelas normas do Direito, pela dignidade da classe docente ou meramente de completo desprezo pela sua (nossa) inteligência. Robustez dos resultados? Mas quem foi a criatura pensante que teve a ideia de incluir esta expressão nos objectivos de um concurso de provimento de lugares para a categoria de professor-titular?

Quanto aos princípios-chave, temos:

  1. Transparência dos processos e da informação.
  2. Responsabilização clara e unívoca dos intervenientes em cada etapa.
  3. Informação e formação adequada e atempada.
  4. Standardização do processo e do calendário de execução em cada escola.

Deixemos o primeiro princípio que repete, no essencial, o primeiro objectivo, e concentremo-nos na formulação dos seguintes:

Responsabilização clara e unívoca? Ou inequívoca? Ou é mesmo com o significado de sentido único? O que vai para lá já não pode vir para cá? Ou é no género quem manda, manda e não há mais lugar para refilices? Confesso que não percebo muito bem a ideia.

Informação e formação adequada e atempada com correcções sobre correcções nas vésperas de abertura do concurso? Com as escolas sem saberem exactamente o que é creditável e não é em termos de cursos de formação especializada? Com confusão entre conclusão da parte curricular de mestrados e conclusão efectiva dos mestrados? Com a não percepção de que cargos são efectivamente pontuáveis, naquela nebulosa dos “projectos”? Com flutuação nos critérios sobre as faltas que se consideram prestação efectiva de serviço e não, como nos casos de doença? Pois… informação atempada. Está bem.

Standardização do processo e  calendário em cada escola ou em todas as escolas? E não havia uma palavrinha portuguesa para usar como padronização, ou a pura e simples expressão calendarização do processo? Mas afinal do que falamos quando falamos assim? Falta de tempo? Falta de cuidado? Falta de inclinação para o linguajar materno?

E então o que dizer dos enablers, forma ridícula de designar o que não passam de intervenientes e instrumentos ao serviço do concurso?

Se o objectivo era clarificar seria útil, utilíssimo mesmo que estivessem reunidas as seguintes condições antes de elaborarem o coiso-show:

  1. Clareza dos conceitos e critérios a usar.
  2. Comunicação dessa informação com a devida antecedência às escolas.
  3. Domínio razoável da Língua Portuguesa.
  4. Economia de palavreado desnecessário.

Reunida esta trindade de condições tudo seria mais fácil porque evitaria equívocos, ambiguidades, instruções desencontradas e resoluções casuísticas de situações não previstas. A bem do rigor e da transparência. Para não falar do mérito.

Já agora, e só para chatear, quem e quando avaliará quem será(ão) o(s) responsável(eis) pelos trambulhões e entorses que irá sofrer todo este processo?