Vou ser franco. Há uma certa perda de vigor físico. percebemos que não somos imortais. Os nossos mentores, para quem antes olhávamos com tanta admiração, começam a dar sinais de que também não o são. Há uma capacidade de deslumbramento que se perde. Os dias ficam mais curtos. Os anos passam – estamos em Fevereiro? Já? – mais depressa. A capacidade de trabalho fica reduzida. Damos por nós com uns apetites suspeitos de votar centrão. Tornamo-nos razoáveis, até um bocadinho conservadores. Começamos (os que temos filhos) a resmungar contra a falta de apoios fiscais para as grandes famílias. Até porque, nos tempos que correm, um agregado familiar de quatro bocas já constitui uma grande família. E, se não nos pomos a pau, ficamos cinzentos. Começamos a dizer coisas tipo «no meu tempo», o que é perigoso, porque as palavras podem ser perigosas. As palavras criam realidade. Se repetirmos muitas vezes «no meu tempo» ainda acabamos, de facto, excluídos deste tempo. Não admira que muitos quarentões tenham a impressão de que a vida lhes passou ao lado. São eles os primeiros culpados, com essa do «no meu tempo». (Rui Zink, Luto pela Felicidade dos Portugueses, 2007, p. 9)

Mas depois o texto anima um pouco e demonstra-nos as vantagens dos 40. Que são menos que as dos 30 e muitos menos que as dos 20, na minha opinião, mas que ainda são consideráveis.

Rui Zink é um quase contemporâneo na FCSH da Nova, parecendo-me que era finalista por lá, quando eu era caloiro em 1983. Em 1984 foi um dos promotores da Pornex, uma mítica exposição de objectos, filmes, etc de cariz pornográfico no velho barracão da Avenida de Berna. Coisa que deu relativo brado na época, que era o tempo dos choques púdicos com os Patos com Laranja. Haveriam de esperar pelos Morangos com Açúcar e veriam.

Enfim. Rui Zink não é uma das minhas referências literárias e aborrece-me que cicie um bocado a falar quando vai à televisão. Ele não tem culpa. Eu também não. Mas parece um tipo simpático, apesar de se ter tornado amigo do troglodita Manuel Serrão.

Mas isso não vem ao caso.

Vem isto apenas a talhe de foice porque daqui a duas horas se irão reunir alguns resistentes que anualmente se reencontram por ocasião do aniversário da conclusão em licenciatura da FCSH da Nova que por lá andou entre 1983 e 1987. Éramos uns 50 e acabámos em marcha ordeira uns 40, mais alguns que se foram juntando no percurso, por transferência ou outro motivo. Num mítico ano bom, acho que em meados dos anos 90 chegámos a reunir mais de 30 convivas.

Agora juntamos normalmente uma dezena, uma dúzia, eventualmente com família e já é bom. Ainda quase ninguém vota no centrão e são poucos os que se preocupam com os benefícios fiscais com as famílias numerosas. Nos que aparecem regularmente não há figuras públicas; entre os que não aparecem nunca há alguns que gostariam de ter sido figuras públicas e quase o conseguiram. O quase parece que é a razão para não aparecerem.

Após 18 anos a tentar reunir as hostes, este vai ser o meu último ano na função. Para castigo vamos comer a pouco mais de 500 metros da minha base, num local cuja qualidade do serviço, na opinião de um colega pouco cinzento, se assemelha a um orgasmo. Eu não diria tanto, mas concordaria que equivale a uns excelentes preliminares. A única desvantagem é que ficando em pleno deserto, é mais difícil cumprir a tradição que até 2004 mandava que parte de nós a seguir descesse o Parque Eduardo VII numa investida sobre a Feira do Livro. Fica para amanhã.

Estamos quase todos mais gorditos, em especial eu, com mais uns 12 kg que há 20 anos. Mais calvos. Com aquelas pequenas mazelas da idade a aparecer. As raparigas, não; estão como dantes. Com responsabilidades acrescidas, contas por pagar. Divórcios, mortes de amigos, doenças impedem parte do núcleo duro de aparecer.

Já falamos algumas vezes em «no nosso tempo». Mas nem sempre para dizer que é bom. Era apenas diferente. Quer dizer, agora a moda parece voltar a estar parecida e, numa turma de Letras com uma elevada percentagem de rapazes, infelizmente parte da vestimentária feminina dos anos 80 regressou, o que não é nada bom.

Mas felizmente continuamos algo incontinentes quando nos encontramos. Verborreicos. Curiosamente os percursos profissionais não passaram de forma esmagadora pela docência. O que é bom. Porque o fel se destila de diversas direcções contra aqueles que – independentemente do posicionamento de cada um de nós – detestamos em comum. Os só-cretinos, como antes os durões, os portinhas e os guterrões. Nenhum de nós tem (ainda) cartão partidário e acho que não há elementos de nenhuma obra à mesa do primeiro sábado de Junho. Talvez por isso continuemos a gostar de nos encontrar. Vinte anos depois.

A dúvida do título, pedida de empréstimo aos coevos Talking Heads, nem se aplica tanto a nós mas, infelizmente, ao que nos rodeia. Porque será que, apesar de tanta mudança, parecemos ter quase voltado ao ponto de partida?