Sábado, 2 de Junho, 2007


Comecemos pelo título completamente mistificador de uma notícia do Diário de Notícias de hoje:

Quase metade dos docentes tem vaga para professor titular

Vai-se ler e percebe-se que é quase metade mas dos que se podiam candidatar, ou seja, pouco mais de 18.500 professores o que equivale a menos de 15% do total de professores. Lembremo-nos que a quota prometida era de um terço. Em tempos de crise e de insucesso na Matemática um terço já não é o que era. No Público o título para a mesma matéria (p. 10, com link perecível) retorce muito menos a realidade e anuncia que «Vagas no concurso para professor titular só chegam para metade dos candidatos». Não é por nada, mas é um bocadito, bocadão, mais rigoroso. Já a peça no Jornal de Notícias vai mais longe e aponta especificamente alguns dos atropelos do ME neste concurso, não se resumindo a debitar a versão oficial.

Passemos agora para a parte interessante da notícia do DN, embora praticamente sem qualquer corrrespondência com o título:

Os sindicatos de professores pretendem apresentar, já esta segunda-feira, uma providência cautelar para suspender o concurso de acesso a professor titular, alegando que o aviso de abertura, ontem divulgado, contem aspectos ilegais. Concretiza-se assim uma ameaça que, tal como o DN noticiou, já estava a ser ponderada no início desta semana.

Segue-se a indicação dada por Mário Nogueira, não especificando pormenores, da existência de duas ilegalidades no aviso de abertura do concurso. Eu acho que há mais e não só no aviso, mas adiante. Apoio este tipo de medida muito mais, por causa dos efeitos concretos que tem, do que outras mais espalhafatosas. Seria bom que, na sequência da apresentação da providência cautelar, para além de comprarem muito repelente contra as prosas do Miguel Sousa Tavares (o campeão da luta contra o uso do sistema jurídico pelos cidadãos, a menos que seja em causas que lhe agradem como o tabagismo), explicassem com clareza os motivos da dita providência com detalhe à opinião pública,sendo económicos na adjectivação. Mais vale pouco e bem aplicado do que muito e redundante. Sei disso, por vezes incorro nesse erro.

Por fim, a notícia acaba com o anúncio daquele tipo de iniciativa folclórica que já passou de moda e cujos efeitos são perfeitamente nulos:

Apesar da abertura do concurso marcada para segunda-feira, os sindicatos não desistem do protesto e, além das iniciativas legais, vão entregar depois de amanhã no ministério um documento com mais de 30 mil assinaturas de professores e educadores que “se manifestam contra a fractura da carreira, através da sua reestruturação em categorias hierarquizadas”.

Isto é redundante e ineficaz. Servirá para dinamizar algum activismo sindical, mas mais nada. Mas tudo bem, cada um se entretém como mais gosta. Eu escrevinho, o que também pode parecer pouco útil a alguns (muitos?).

Já quanto à forma como a notícia do DN foi construída, o problema não é a redundância é a falta de concordância. Entre o título e os factos. Haveria mesmo necessidade?

Corrigir um erro, para mais injusto. O Pimenta Negra retirou a menção que atribuía ao Umbigo a singularidade de ser o único de uma lista de blogues identificado como tendo furado a greve de solidariedade na blogosfera no passado dia 30. E não me fica mal reconhecer que a emenda foi feita.

Para cumprir um calendário apertado, e mesmo tendo determinado que as reclamações a este concurso não podem ter efeito suspensivo (e o que acontecerá se houver muita reclamação válida?), a DGRHE desdobrou-se em instruções, anexos, sessões de esclarecimento,  instruções telefónicas ou por mail, nos últimos dias da passada semana.

Em tempo de modernidade e choque tecnológico, os instrumentos-chave da operacionalização destas medidas passam por aplicações em powerpoint com o nome de roadshow e por conceitos de uma pretensa sofisticação linguística anglo-saxónica, tudo misturado numa enorme confusão conceptual onde, ao lado da pressa, se percebe o fraco domínio de uma hierarquização lógica das ideias.

Vejamos o que se passa com um dos quadros iniciais (o nº 3) da apresentação agora disponibilizada para ilustração dos pobres de espírito que somos todos nós. Encontramos lá os “Objectivos”, “Princípios-Chave” e Enablers (!!!) do concurso para professores-titulares.

Antes de mais não tenho dificuldade em distinguir entre os princípios e os objectivos de qualquer coisa, apenas me confunde quando a sua formulação se confunde.

Entre os objectivos anunciados temos:

  1. Credibilidade do processo
  2. Serenidade dos intervenientes
  3. Robustez dos resultados

Isto parece um texto marxista, tendência groucho. Como já alguém comentou por aqui, o objectivo essencial deste concurso é abrir e prover vagas para professores-titulares. E mais nada. Quanto muito é desejável que todo o processo tenha credibilidade, mas parece-me que isso já se encontra liminarmente afastado com base na confusão das instruções, na incoerência do que está escrito na lei e é transmitido aos CE’s e Comissões de Certificação e ainda no caos instalado em muitos serviços administrativos das escolas deste país.

Quanto à serenidade dos intervenientes, só pode estar como sinal de alta-comédia entre os objectivos do concurso. Acho que neste momento será ínfima a proporção de escolas onde exista uma clima de serenidade. Hoje talvez exista, mas é porque estão fechadas. Quanto aos intervenientes, andarão quase todos em diversos estados psicológicos, mas dificilmente caracterizaria algum deles como de serenidade. Há excepções, mas serão muito poucas.

Por fim, gostaria de perceber o significado da expressão robustez dos resultados? Em gíria desportiva isso era a formulação erudita de dar uma abada ao adversário. Nesse sentido talvez se perceba a expressão já que se pretende que o ME derrote, com este processo, os professores por uma larguíssima margem. Seja em termos de desrespeito pelas normas do Direito, pela dignidade da classe docente ou meramente de completo desprezo pela sua (nossa) inteligência. Robustez dos resultados? Mas quem foi a criatura pensante que teve a ideia de incluir esta expressão nos objectivos de um concurso de provimento de lugares para a categoria de professor-titular?

Quanto aos princípios-chave, temos:

  1. Transparência dos processos e da informação.
  2. Responsabilização clara e unívoca dos intervenientes em cada etapa.
  3. Informação e formação adequada e atempada.
  4. Standardização do processo e do calendário de execução em cada escola.

Deixemos o primeiro princípio que repete, no essencial, o primeiro objectivo, e concentremo-nos na formulação dos seguintes:

Responsabilização clara e unívoca? Ou inequívoca? Ou é mesmo com o significado de sentido único? O que vai para lá já não pode vir para cá? Ou é no género quem manda, manda e não há mais lugar para refilices? Confesso que não percebo muito bem a ideia.

Informação e formação adequada e atempada com correcções sobre correcções nas vésperas de abertura do concurso? Com as escolas sem saberem exactamente o que é creditável e não é em termos de cursos de formação especializada? Com confusão entre conclusão da parte curricular de mestrados e conclusão efectiva dos mestrados? Com a não percepção de que cargos são efectivamente pontuáveis, naquela nebulosa dos “projectos”? Com flutuação nos critérios sobre as faltas que se consideram prestação efectiva de serviço e não, como nos casos de doença? Pois… informação atempada. Está bem.

Standardização do processo e  calendário em cada escola ou em todas as escolas? E não havia uma palavrinha portuguesa para usar como padronização, ou a pura e simples expressão calendarização do processo? Mas afinal do que falamos quando falamos assim? Falta de tempo? Falta de cuidado? Falta de inclinação para o linguajar materno?

E então o que dizer dos enablers, forma ridícula de designar o que não passam de intervenientes e instrumentos ao serviço do concurso?

Se o objectivo era clarificar seria útil, utilíssimo mesmo que estivessem reunidas as seguintes condições antes de elaborarem o coiso-show:

  1. Clareza dos conceitos e critérios a usar.
  2. Comunicação dessa informação com a devida antecedência às escolas.
  3. Domínio razoável da Língua Portuguesa.
  4. Economia de palavreado desnecessário.

Reunida esta trindade de condições tudo seria mais fácil porque evitaria equívocos, ambiguidades, instruções desencontradas e resoluções casuísticas de situações não previstas. A bem do rigor e da transparência. Para não falar do mérito.

Já agora, e só para chatear, quem e quando avaliará quem será(ão) o(s) responsável(eis) pelos trambulhões e entorses que irá sofrer todo este processo?

Adivinhava-se e vai andar por aí em muitos agrupamentos e escolas. Por enquanto ainda mais na base do alvoroço, do espanto resultante do desconhecimento das regras específicas do concurso para titulares, as tais com efeitos retroactivos que fazem com que muita gente se sinta justamente injustiçada. O espectáculo não se adivinhava risonho. E confirma-se. Só espero que se lembrem que a culpa não é do(a)s colegas do lado, mas de quem preparou a coisa. Porque há quem, na cegueira do momento, atire aos alvos mais próximos, por ter falhado o tiro certo no momento apropriado, por falta de visão ou apenas porque é nestas alturas de crise e aperto que se percebe exactamente o que prdomina no âmago de cada um de nós. E o espectáculo, em tais circunstâncias, repito, está muitas vezes longe de ser enriquecedor.

Vou ser franco. Há uma certa perda de vigor físico. percebemos que não somos imortais. Os nossos mentores, para quem antes olhávamos com tanta admiração, começam a dar sinais de que também não o são. Há uma capacidade de deslumbramento que se perde. Os dias ficam mais curtos. Os anos passam – estamos em Fevereiro? Já? – mais depressa. A capacidade de trabalho fica reduzida. Damos por nós com uns apetites suspeitos de votar centrão. Tornamo-nos razoáveis, até um bocadinho conservadores. Começamos (os que temos filhos) a resmungar contra a falta de apoios fiscais para as grandes famílias. Até porque, nos tempos que correm, um agregado familiar de quatro bocas já constitui uma grande família. E, se não nos pomos a pau, ficamos cinzentos. Começamos a dizer coisas tipo «no meu tempo», o que é perigoso, porque as palavras podem ser perigosas. As palavras criam realidade. Se repetirmos muitas vezes «no meu tempo» ainda acabamos, de facto, excluídos deste tempo. Não admira que muitos quarentões tenham a impressão de que a vida lhes passou ao lado. São eles os primeiros culpados, com essa do «no meu tempo». (Rui Zink, Luto pela Felicidade dos Portugueses, 2007, p. 9)

Mas depois o texto anima um pouco e demonstra-nos as vantagens dos 40. Que são menos que as dos 30 e muitos menos que as dos 20, na minha opinião, mas que ainda são consideráveis.

Rui Zink é um quase contemporâneo na FCSH da Nova, parecendo-me que era finalista por lá, quando eu era caloiro em 1983. Em 1984 foi um dos promotores da Pornex, uma mítica exposição de objectos, filmes, etc de cariz pornográfico no velho barracão da Avenida de Berna. Coisa que deu relativo brado na época, que era o tempo dos choques púdicos com os Patos com Laranja. Haveriam de esperar pelos Morangos com Açúcar e veriam.

Enfim. Rui Zink não é uma das minhas referências literárias e aborrece-me que cicie um bocado a falar quando vai à televisão. Ele não tem culpa. Eu também não. Mas parece um tipo simpático, apesar de se ter tornado amigo do troglodita Manuel Serrão.

Mas isso não vem ao caso.

Vem isto apenas a talhe de foice porque daqui a duas horas se irão reunir alguns resistentes que anualmente se reencontram por ocasião do aniversário da conclusão em licenciatura da FCSH da Nova que por lá andou entre 1983 e 1987. Éramos uns 50 e acabámos em marcha ordeira uns 40, mais alguns que se foram juntando no percurso, por transferência ou outro motivo. Num mítico ano bom, acho que em meados dos anos 90 chegámos a reunir mais de 30 convivas.

Agora juntamos normalmente uma dezena, uma dúzia, eventualmente com família e já é bom. Ainda quase ninguém vota no centrão e são poucos os que se preocupam com os benefícios fiscais com as famílias numerosas. Nos que aparecem regularmente não há figuras públicas; entre os que não aparecem nunca há alguns que gostariam de ter sido figuras públicas e quase o conseguiram. O quase parece que é a razão para não aparecerem.

Após 18 anos a tentar reunir as hostes, este vai ser o meu último ano na função. Para castigo vamos comer a pouco mais de 500 metros da minha base, num local cuja qualidade do serviço, na opinião de um colega pouco cinzento, se assemelha a um orgasmo. Eu não diria tanto, mas concordaria que equivale a uns excelentes preliminares. A única desvantagem é que ficando em pleno deserto, é mais difícil cumprir a tradição que até 2004 mandava que parte de nós a seguir descesse o Parque Eduardo VII numa investida sobre a Feira do Livro. Fica para amanhã.

Estamos quase todos mais gorditos, em especial eu, com mais uns 12 kg que há 20 anos. Mais calvos. Com aquelas pequenas mazelas da idade a aparecer. As raparigas, não; estão como dantes. Com responsabilidades acrescidas, contas por pagar. Divórcios, mortes de amigos, doenças impedem parte do núcleo duro de aparecer.

Já falamos algumas vezes em «no nosso tempo». Mas nem sempre para dizer que é bom. Era apenas diferente. Quer dizer, agora a moda parece voltar a estar parecida e, numa turma de Letras com uma elevada percentagem de rapazes, infelizmente parte da vestimentária feminina dos anos 80 regressou, o que não é nada bom.

Mas felizmente continuamos algo incontinentes quando nos encontramos. Verborreicos. Curiosamente os percursos profissionais não passaram de forma esmagadora pela docência. O que é bom. Porque o fel se destila de diversas direcções contra aqueles que – independentemente do posicionamento de cada um de nós – detestamos em comum. Os só-cretinos, como antes os durões, os portinhas e os guterrões. Nenhum de nós tem (ainda) cartão partidário e acho que não há elementos de nenhuma obra à mesa do primeiro sábado de Junho. Talvez por isso continuemos a gostar de nos encontrar. Vinte anos depois.

A dúvida do título, pedida de empréstimo aos coevos Talking Heads, nem se aplica tanto a nós mas, infelizmente, ao que nos rodeia. Porque será que, apesar de tanta mudança, parecemos ter quase voltado ao ponto de partida?