Segunda-feira, 28 de Maio, 2007


Vou ver um pedaço do Prós e Contras de hoje sobre a Greve Geral, que mais parece um simpósio da família Silva.

No canto da esquerda de quem observa de esguelha a TV, João Dias da Silva (FNE/UGT) e Carvalho da Silva (CGTP). No canto simbólico da direita, o ferrista reconvertido em socrático por comodidade do chefe, que precisava de alguém com pedigree de esquerda para limpar a Segurança Social, Vieira da Silva.

É impressão minha ou aquilo está morno como um leitinho antes de adormecer?

Anúncios

llosa1.jpgllosa.jpgOs exemplos que se sucedem de ex-sindicalistas e ex-esquerdistas inflamados e de destaque há não muitos anos que se passaram, com o sabre nos dentes, para o outro lado da barricada, assim como a leitura de alguns comentários mais corrosivos e viscerais sobre a sociedade burocrática que temos e algumas das suas organizações (sindicatos, partidos), fazem-me evocar aqui dois livros de um dos autores cuja obra completa não levaria para uma ilha deserta, se para lá fosse desterrado por uma qualquer Directora-Regional, mas que me deram suculentos momentos de prazer literário.

Mario Vargas Llosa não me interessa como político e como escritor há coisa de 20 anos que me custa a cativar, mas confesso que as obras aqui apresentadas, originalmente de 1973 e 1984 (em Portugal as edições foram em 75 e 87), são para mim mais esclarecedorasdo que muitos ensaios sobre certas formas de comportamento político, individual e de grupo, que marcaram uma época, permanecendo entre nós como fantasmas difusos que ainda condicionam muitos tiques e ensombram muitas atitudes.

Li Pantaleão e as Visitadoras bastante novo, ainda na fase incial da adolescência na segunda metade dos anos 70, e ri-me como poucas vezes me tinha rido até aí com a descrição detalhada das desventuras do pobre capitão Pantaleão Pantoja, jovem militar de princípios e valores conservadores, que é obrigado pelos seus superiores a ir para a selva amazónica organizar um serviço secreto de visitadoras destinadas a tornar menos desagradável e dura a permanência nessas paragens dos soldados peruanos. A forma rigorosa e burocrática como Pantaleão Pantoja se esforça por dignificar um serviço de prostituição em plena selva é um monumento irónico e de uma irrisão sem paralelo em qualquer obra crítica da burocratização da vida moderna.

Quanto à História de Mayta, obra mais tardia de Vargas Llosa e quando ele já se afastou das posições da juventude, é um testemunho ainda pouco azedo e mesmo quase carinhoso, apesar de desencantadosobre as ilusões de uma juventude profundamente ideologizada que, nos tais anos finais de 60-inícios de 70 em que se movia Pantaleão, acreditava que a Revolução estava ao virar da esquina, para isso bastando uma vanguarda de meia dúzia de militantes, um jornal revolucionário e muita ingenuidade.

A leitura de qualquer destas obras vacinou-me pela via do humor contra várias tentações e perigos, entre o(a)s quais está o levar demasiado a sério construções teóricas muito sofisticadas e auto-explicativas, tanto no plano político como sociológico ou mesmo histórico. São, em qualquer dos casos e apesar da diversidade do olhar do autor nos dois momentos, denúncias extremanente eficazes dos perigos, a um tempo, da obediência cega ás ordens superiores, aos paradoxos entre os valores declarados e praticados por organizações e indivíduos, do sectarismo político, da incapacidade do diálogo causada pelo excesso de ideologia e, indirectamente pelo percurso do autor, das consequências dramáticas para os indivíduos quando percebem que a Fé em que acreditavam era vã e apressadamente procuram, ao perceberem o erro, atacá-la com tantas ganas como antes a tinham defendido.

Se é bom que tenhamos crenças e valores a que nos agarrar e se detesto as teorias do consenso paralisante, também não deixa de ser verdade que dou tanto valor aos fundamentalistas de uma cor como aos fundamentalistas de sinal oposto que acabam por agir da mesma forma que aqueles que criticam.

E, claro está, embora possa apreciá-las nalguns aspectos da forma, reservo o mesmo valor para as respectivas retóricas e o mesmo desdém pelo afã persecutório que exibem os seus protagonistas.

Graças a nota atempada do DA, eis que tenho conhecimento das listas de candidatos ao Conselho dos 60, já disponíveis no site do patronato.

No caso que melhor conheço, o distrito de Setúbal, existem 3 listas que envolvem 12 candidatos efectivos e 9 suplentes.

Fico orgulhoso porque das escolas por onde passei nos últimos 15 anos – e foram umas quantas – só lá encontro um nome. Percebe-se, portanto, porque salvo raríssimas excepções e episódios esporádicos tenho boas recordações dos meus CD’s/CE’s. Tudo gente mais de trabalho do que de pose e ânsia de protagonismo.

Em contrapartida, por testemunhos alheios que fui ouvindo e recolhendo, encontro alguns nomes conhecidos pelo seu zelo e devoção pelo cumprimento até à última nota de rodapé da mais remota circular, na versão mais exacerbada, de toda e qualquer instrução ministerial que vise diminuir a autonomia dos docentes e amesquinhar a sua função.

Pensando bem, essas candidaturas são as mais naturais e aquelas que certamente o ME mais acarinhará no seu amplo regaço.

Como já escrevi, o relatório final do debate alargado sobre a situação da Educação em Portugal promovido pelo Parlamento deve ter o mesmo destino de diversos outros produzidos em catadupa nos últimos 20-30 anos.

Normalmente destes relatórios só são aproveitadas pelo poder político as partes que se adequam às opções já previamente tomadas e que apenas esperam pela caução dos “especialistas”. Em alguns casos não fica nada, excepto o papel (agora já é menos, por causa dos suportes virtuais), umas linhas curriculares nos colaboradores e coordenadores e, espero, alguma compensação material pelo tempo gasto, que eu quase diria perdido.

No caso deste relatório, cuja leitura é útil, apesar de encontrarmos na equipa que o produziu muitos dos nomes de responsáveis não-políticos por boa parte das políticas educativas dos últimos 20 anos, achamos um conjunto de conclusões que seria interessante explorar. Embora sob a aparência da repetição do óbvio, parte do que se escreve – exactamente pela repetição – é importante para compreendermos as razões do nosso insucesso especificamente educativo, mas também do fracasso global das políticas sociais.

E é exactamente por aí que começam as «Propostas para melhorar a Educação nos próximos anos» (pp. 141ss):

1. Conceder especial atenção à educação das crianças (do nascimento aos 11 anos), dentro de uma política social global e não apenas escolar.

Esta proposta, como acima escrevi, entra resolutamente pelo caminho do lugar-comum recorrente no discurso educacional. É incontroverso que se deve dar especial atenção à educação das crianças; se é até aos 11 ou outros anos é uma questão de detalhe.

O que interessa é a parte final em que se declara que a atenção a dar à educação das crianças não deve – nem pode – passar apenas pelas Políticas da Escola, mas sim por uma política social global. Que é exactamente onde o Estado tem vindo a recuar em passo apressado nos últimos anos.

Não vale a pena apontar para o crescimento da rede pré-escolar no último par de anos, porque essa não é mais do que a faceta das Políticas da Escola que falhou mais redondamente nos últimos 30 anos. Quando se fala numa política social global, isso passa por políticas de apoio às famílias que não se limitem a arranjar espaços para depositar crianças a partir dos 3 anos. Passa pela protecção – a começar pelo mundo do trabalho – às mães e pais das crianças, permitindo-lhes condições que possibilitem um efectivo acompanhamento dos seus filhos, assim como às famílias não andarem permanentemente sob níveis de pressão que se reflectem depois em situações de ruptura.

O que nos diferencia, apesar de todas as medidas mais restritivas que possam estar a ocorrer em outros países, das nações mais desenvolvidas cujos modelos só importamos nas partes que precarizam as condições laborais e de protecção social, é que nessas paragens existem políticas pró-activas em matéria de natalidade e protecção à família, desde o nível dos abonos de nascimento e família a facilidades de horário para as jovens mães. Na Alemanha, a generalidade dos infantários da rede pública estão fechados às 4 da tarde porque as mães já puderam recolher os seus filhos. Na França e na Holanda os apoios às famílias “numerosas” começam a partir do terceiro filho.

Entre nós, o movimento é já de retrocesso, quando nunca se atingiram os níveis de desenvolvimento experimentados além. Nesse países, os eventuais recuos nas políticas sociais acontecem a partir de posições que para nós são apenas imagináveis. A flexisegurança na Dinamarca acontece num contexto completamente diverso do português. Nem vale a pena querermos fazer crer que entre nós funciona, a meio da escalada, algo que deu bom resultado para quem está no topo do monte.

Por isso, qualquer política pró-activa no sentido do sucesso educativo, medido pelos critérios de exames e provas de aferição (cuja existência não contesto) realizados sobre as aprendizagens desenvolvidas e adquiridas nas escolas, deve começar antes da escola e continuar depois dela. E em seu redor.

A Escola não é um oásis, nem à sua volta existe um deserto. É isso para que aponta esta proposta sensata, óbvia, mas sistematicamente ignorada. O contexto não é tudo, mas sem agirmos sobre o contexto envolvente, dificilmente as escolas conseguem funcionar como grande normalizador das desigualdades e como mecanismo compensatório das situações de vulnerabilidade económica e cultural. O que a sociedade não resolve, no seu todo, é resolúvel pela Escola?

Porque este é um fenómeno em que, como na teoria dos vasos comunicantes, é impossível termos altos níveis de desempenho num ambiente que comunica com outro(s ) em situação de extrema fragilidade.

Não chega despejar – nem que seja em catadupas – quadros interactivos e calculadoras nas escolas, se os alunos não chegarem lá com um nível mínimo de disponibilidade e predisposição para a aprendizagem, com a crença de que isso lhes será futuramente útil na sua vida.

Porque se continuarmos a apresentar-lhes como inevitável um modelo social em que as regras são desiguais, as oportunidades estão à partida condicionadas por factores estranhos ao mérito e as perspectivas de progresso cortadas, só podemos dar graças aos deuses do acaso por ainda termos alunos que se interessam vagamente por nos ouvirem e estarem dispostos a confiar em nós.

Nota final: Texto escrito muito rapidamente, depois eu apanho as gralhitas que por aí devem ter poisado.

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