Sábado, 26 de Maio, 2007


Algumas pessoas e colegas menos familiarizad(o)as com o processo de classificação das provas de aferição têm demonstrado algum espanto e incredulidade com parte dos critérios, em especial no caso da Língua Portuguesa.

Como este ano tudo está muito moderno e online, eu chamaria a atenção para a prova que mais me toca, a de 6º ano, assim como para os critérios, não deixando de sorrir pelo facto de estar ainda acessível a versão inicial, com os critérios incompletos ou equivocados que, entretanto, já foram actualizados na nova versão de que os correctores supostamente dispõem. Eu chamaria a atenção para a questão 16, onde se eliminava a hipótese de “linda” com adjectivo, assim como o “de” como preposição. Tomar ainda  atenção à forma de classificar as perguntas 2 e 14.1, neste caso quanto ao modo como se (não) classificará quem juntar as quantidades aos ingredientes.

Já agora, atentem nos critérios – que já são conhecidos de outros anos – usados para a classificação da produção escrita e façam um cálculo – assim por alto – quanto ao tempo que levará a classificar seriamente cada composição.

E já agora que tal observarem as grelhas de classificação que é necessário preencher?

Tudo na componente gratuita e mais do que recongelada do serviço docente?

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Via Jacky, no blog do Raim.

Já cá tenho as 60 provas para corrigir. Não é algo que me preocupe em excesso, pois é a terceira vez desde 2001 (e não leccionava quando se realizaram as provas de 2004, 05 e 06, pelo que posso considerar-me um cliente assíduo, 3 vezes em 4 possíveis), e num dos outros anos cheguei a corrigir umas 140.

No entanto, para quem entra no carrossel, ou para quem tem um ritmo de trabalho mais calmo, estas 60 provas acarretam muitas horas de trabalho por parte daqueles que o Ministério considera incompetentes, até prova em contrário. E muitos dos que foram convocados – a maioria? – estarão congelados durante muitos anos e este trabalho significará zero para a sua progressão.

Vamos fazer umas contas simples. A prova tem cerca de 20 questões para classificar, mais dois textos, um para ser avaliado segundo quatro critérios e outro com base em oito parâmetros. Tudo deve ser registado numa grelha, incluindo sinaléticas específicas para situações menos regulares.

Acho que não exagerarei se disser que a maior parte das pessoas demorará 20 a 30 minutos a classificar e registar a classificação de cada prova. Há quem leve mais, há quem leve menos. Lembro-me que nos primeiros anos, com uma prova mais pequena, existia um cálculo de tempo inferior que era recomendado. Mas fiquemo-nos pelos 25 minutos, para facilitar as coisas. As 60 provas implicarão 25 horas de trabalho adicional em pleno final do ano lectivo. Se tivermos em conta que temos em média 6-7 horas lectivas diárias nas escolas e que o fim de semana deveria ser para acompanhar as nossas famílias, existe alguma dificuldade em distribuir essas 25 horas de trabalho contínuo por 10 dias úteis disponíveis, por onde ainda passam duas sessões de 3-4 horas de trabalho em grupo com o(a)s supervisor(a)s.

Vamos ser honestos: em duas semanas o ME exige que 8000 docentes ofereçam 35 horas suplementares de trabalho em troca da ameaça velada de, algures, outros colegas na mesma situação estarem a avaliar as provas dos nossos alunos e, na lógica retorcida da tutela, estarem avaliar-nos.

Ora o que me deixa espantado é que eu, docente cuja competência e trabalho está em avaliação (imediata ou não, o secretário de Estado Pedreira o saberá), seja considerado competente para avaliar (mais ou menos directamente) a competência e trabalho de outros docentes como eu, quando classifico as tais 60 provas.

Porque isto é o chamado Catch 22. Uma situação circular kafkiana, em que a lógica se dobra sobre si mesma.

Questionarão alguns: mas então como é possível aferir o sistema de ensino em matérias tão sensíveis como a Língua Portuguesa e a Matemática (e porque não em Inglês, História ou Ciências?), como será possível erguer tal aparato de forma alternativa?

É simples: basta não tratar como incompetentes e não ameaçar aqueles que são exactamente os executores da aferição/avaliação. Não introduzir factores de coacção adicional em tudo isto.

E não me venham com aquele chavão, qual mito piedoso, de que toda a avaliação é uma auto-avaliação e que, estando eu a corrigir provas de alunos de Pindarelhos de Cima e da Rebordosa Pequena, me estou a avaliar a mim próprio. É que eu já ando há demasiado tempo nisto, para ir em cantigas dessas…