Ao vivo e a cores assisti, através da Sic-Notícias, a um excerto das declarações do secretário de Estado Pedreira sobre os objectivos da realização das provas de aferição.

Numa versão mais soft do que a assumida pelo ME até aqui, mas ambígua até à medula, Jorge Pedreira afirmou que o objectivo destas provas é avaliar o sistema educativo, os alunos, etc e tal, e não avaliar imediatamente os professores.

Isto suscita-me naturalmente um conjunto imenso de dúvidas, embora desde logo assuma que o imediatamente está colocado de forma cirúrgica nas declarações para manter a insinuação da ameaça, remetendo a sua concretização para um momento que se supõe não ser o dia seguinte à afixação das pautas.

Mas não é isso que me (pre)ocupa mais neste momento, porque afinal já nos habituámos a este tipo de esquivas habilidosas. O que me levanta alguma perplexidade passa pelo facto de – pelo menos a acreditar na retórica ministerial – já existir um sistema de avaliação dos professores vertido em lei através do Estatuto ministerial, assim como na legislação que se lhe vai apensando. Ora muito bem, então vamos lá a esclarecer uns quantos pontos:

  • O novo sistema de avaliação para progressão na carreira é, afinal, imperfeito ou lacunar, necessitando de métodos de diagnóstico complementares?
  • Se o objectivo é avaliar os docentes, então porque não exigir claramente que sejam os próprios avaliados? Esta forma de avaliação indirecta do seu trabalho, ainda para mais sem qualquer tipo de critério de correcção com base nos contextos específicos de cada turma, é vagamente defensável?
  • Se eu vou ser avaliado como professor de Língua Portuguesa (ou de Matemática), como ficam os docentes das outras disciplinas? Por avaliar? E já agora, na minha qualidade de professor 2 em 1, de LP e HGP, como serei avaliado na segunda área do meu trabalho? E quando estiverem a funcionar os professores generalistas, tipo 5 em 1, que peso terá o resultado nas provas de aferição em LP na avaliação do dos docentes em causa?

Com sinceridade, acho que esta forma de langar uma vaga névoa atemorizadora sobre os docentes – que alcançou alguns resultados, admito-o – é indigna de governantes de um país que queira reger a sua vida pública e a relação entre poder político e cidadãos, em especial os que dependem do Estado em termos laborais, por critérios de transparência, dignidade e respeito mútuo

Porque não há que enganar: isto não passa de mais uma forma encapotada de tentar instilar o medo num sector específico da classe docente – olhem que nós podemos, não-imediatamenmte, fazer qualquer coisa – e de espalhar um nevoeiro paralisante, pelo que tem de indefinido e vago.

Se tudo correr bem aposto que vão dizer que foi por causa das medidas colocadas em prática pelo Governo; se correr nal, a culpa será dos professores e o imediatamente transforma-se em já a aseguir.

Porque ou existe um plano definido de acção, ou está-se à espera dos resultados para decidir o que fazer em seguida. E esse tipo de navegação à vista, sem ideias claras, não pode ser encoberto com semi-declarações de eventuais possibilidades de no futuro, quiçá, porventura, talvez se vir a fazer alguma coisa.

Mas o mais paradoxal de tudo isto é que quem avaliará as provas serão exactamente os professores que irão estar, indirectamente, a ser avaliados por outros professores, que por sua vez… numa lógica em espiral que…