hespanha.jpgAntónio Hespanha escreveu na revista História deste mês um muito bom texto sobre a ascensão e queda das universidades privadas portuguesas nas últimas duas décadas.

Está lá quase tudo o que é essencial, desde a pressão sobre o numerus clausus na década de 80 nas universidades públicas, aos interesses financeiros em jogo, passando pela colaboração e posterior apatia na fiscalização do poder político na matéria.

António Hespanha é, para que fique claro, alguém que conheço pessoalmente (embora não seja necessário exagerar na proximidade, não gosto de me colocar em bicos de pés) e estimo, pois foi um dos organizadores do primeiro colóquio em que participei como comunicante e texto publicado em actas (A Arqueologia do Saber, 1987), assim como foi quem me contratou para a coordenação de parte de um projecto em que trabalhei episodicamente para a CNCDP. Alguém com quem sempre tive um relacionamento cordial e cuja probidade e conhecimentos admiro.

Por isso mesmo lamento que no seu texto muito do seu conhecimento não surja, em especial no que se refere à descrição da permeabilidade (ia escrever promiscuidade, mas lá me acusam ainda de ser pouco equilibrado na verborreia) dos corpos docentes de algumas universidades públicas e privadas, assim como aos arranjos que se fizeram em redor de nomes e de sub-empreitadas pedagógicas. Penso que não sou apenas eu que se lembra das história dos turbo-professores tão falados nos anos 90, tempo áureo das privadas entre nós. Dessas histórias e não só.

Vamos lá esclarecer melhor as coisas, tal como eu me lembro delas:

  • As universidades privadas que nasceram por óbito da Universidade Livre (e se foram multiplicando depois), na busca de nomes que prestigiassem o corpo docente apresentado ao ME para autorização de funcionamento e aos futuros alunos como caução de qualidade, contrataram com fartura no ensino universitário público professores de maior ou menor renome para os seus quadros.
  • Muitos desses professores mantiveram com as tais universidades relações quase platónicas (não fora a parte comercial) que, em tantos casos, mal passavam de um contacto ocasional, umas aulas dadas de quando em vez, delegando-se tudo o resto em assistentes, muitos deles pagos à jorna e quantos deles ligados aos tais docentes titulares das cadeiras em matéria de investigação. Aliás, foi assim que se desenvolveu um assinalável proletariado docente no ensino superior que, apesar de preencher os formulários da Biblioteca Nacional com o título de “professor(a) universitário(a)”, andava positivamente às cascas em matéria de pagamentos. Mas assim se fizeram carreiras.
  • Muitos desses professores do ensino público assistiram, ou se não assistiram é porque não passavam por lá o tempo suficiente e que teoricamente deveriam passar, ao definhar dos projectos pedagógicos dessas universidades. E nem todos se desligaram de tais situações ou as denunciaram. E outros houve que, embora não dando directamente o seu nome para os quadros de tais instituições, eram, na prática, quem indicava aquelas “jovens esperanças” que, não podendo ter lugar nas universidades públicas e tendo serviços prestados de relativo mérito ao seu patrono, eram assim arrumados numa prateleira de salvação, meio periclitante, mas que era melhor do que nada.

Porque acredito que o professor Hespanha sabe de tudo isto, por observar ou ouvir falar, tenho imensa pena que neste texto não tenha abordado desde já estes cambiantes do fenómeno. Vou esperar pelo texto do próximo mês.  Pode ter sido por mera questão da gestão de espaço e de número de caracteres.