Domingo, 20 de Maio, 2007


hespanha.jpgAntónio Hespanha escreveu na revista História deste mês um muito bom texto sobre a ascensão e queda das universidades privadas portuguesas nas últimas duas décadas.

Está lá quase tudo o que é essencial, desde a pressão sobre o numerus clausus na década de 80 nas universidades públicas, aos interesses financeiros em jogo, passando pela colaboração e posterior apatia na fiscalização do poder político na matéria.

António Hespanha é, para que fique claro, alguém que conheço pessoalmente (embora não seja necessário exagerar na proximidade, não gosto de me colocar em bicos de pés) e estimo, pois foi um dos organizadores do primeiro colóquio em que participei como comunicante e texto publicado em actas (A Arqueologia do Saber, 1987), assim como foi quem me contratou para a coordenação de parte de um projecto em que trabalhei episodicamente para a CNCDP. Alguém com quem sempre tive um relacionamento cordial e cuja probidade e conhecimentos admiro.

Por isso mesmo lamento que no seu texto muito do seu conhecimento não surja, em especial no que se refere à descrição da permeabilidade (ia escrever promiscuidade, mas lá me acusam ainda de ser pouco equilibrado na verborreia) dos corpos docentes de algumas universidades públicas e privadas, assim como aos arranjos que se fizeram em redor de nomes e de sub-empreitadas pedagógicas. Penso que não sou apenas eu que se lembra das história dos turbo-professores tão falados nos anos 90, tempo áureo das privadas entre nós. Dessas histórias e não só.

Vamos lá esclarecer melhor as coisas, tal como eu me lembro delas:

  • As universidades privadas que nasceram por óbito da Universidade Livre (e se foram multiplicando depois), na busca de nomes que prestigiassem o corpo docente apresentado ao ME para autorização de funcionamento e aos futuros alunos como caução de qualidade, contrataram com fartura no ensino universitário público professores de maior ou menor renome para os seus quadros.
  • Muitos desses professores mantiveram com as tais universidades relações quase platónicas (não fora a parte comercial) que, em tantos casos, mal passavam de um contacto ocasional, umas aulas dadas de quando em vez, delegando-se tudo o resto em assistentes, muitos deles pagos à jorna e quantos deles ligados aos tais docentes titulares das cadeiras em matéria de investigação. Aliás, foi assim que se desenvolveu um assinalável proletariado docente no ensino superior que, apesar de preencher os formulários da Biblioteca Nacional com o título de “professor(a) universitário(a)”, andava positivamente às cascas em matéria de pagamentos. Mas assim se fizeram carreiras.
  • Muitos desses professores do ensino público assistiram, ou se não assistiram é porque não passavam por lá o tempo suficiente e que teoricamente deveriam passar, ao definhar dos projectos pedagógicos dessas universidades. E nem todos se desligaram de tais situações ou as denunciaram. E outros houve que, embora não dando directamente o seu nome para os quadros de tais instituições, eram, na prática, quem indicava aquelas “jovens esperanças” que, não podendo ter lugar nas universidades públicas e tendo serviços prestados de relativo mérito ao seu patrono, eram assim arrumados numa prateleira de salvação, meio periclitante, mas que era melhor do que nada.

Porque acredito que o professor Hespanha sabe de tudo isto, por observar ou ouvir falar, tenho imensa pena que neste texto não tenha abordado desde já estes cambiantes do fenómeno. Vou esperar pelo texto do próximo mês.  Pode ter sido por mera questão da gestão de espaço e de número de caracteres.

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Notícias recentes dão conta de episódios preocupantes: um docente-funcionário requeisitado na DREN leva com um processo disciplinar por fazer observações jocosas sobre o currículo do primeiro-Ministro; o Governo anuncia a intenção de criar uma base de dados com elementos sobre a próxima Greve Geral.

Numa primeira leitura, não completamente errónea, parecemos encontrar demasiados pontos de contacto com um passado que se jujgava ter ficado quase enterrado. A perseguição por delito de opinião, a estratégia da intimidação acenando com a identificação dos prevaricadores.

Num segundo momento fico na dúvida. Se isto fosse durante o governo Santana/Portas, caracterizado por um desajustamento imenso entre as ambições de controle da agenda comunicacional e uma manifesta inépcia quanto à implementação dos seus desejos, acredito que o valor real equivalesse ao facial. O que parecia, efectivamente era. E todos apareciam a apontar o dedo, do artigo de opinião mais remoto à Presidência da República seria um ai jesus de todo o tamanho, que a República estava em frangalhos.

Nos tempos do governo Sócrates, com a dupla Coelho/Vitorino na sombra, a caução académica de um Vital Moreira e uma série de (ainda) aspirantes de feiticeiro a dar a cara pela retórica governamental (Vitalino, Silva Pereira), assessorados por diversos pseudo-magos do marketing político, nem tudo o que parece é.

Para além de que já ninguém se parece inflamar tanto com as ameaças aos direitos. liberdades e garantias individuais. Na imprensa, vive-se o remanso do episódio da licenciatura de Sócrates, apagado quando certos alguéns acharam que o puxão de orelhas já chegava; na Presidência da República estamos em 1º mandato à espera do 2º, pelo que lá poderia estar a rainha de Inglaterra que seria o mesmo; entre os opinadores “de referência”, como as vítimas não são de grupos de pressão tidos como relevantes e até são encarados como conservadores resistentes à mudança, ninguém se encrespa por aí além.

Mas mais importante: a dramatização do clima político actual, com especial destaque novamente na área da Educação, assim como a aparente manobra de intimidação governamental para com os potenciais grevistas, serve exactamente a quem?

Quem ganha com essa dramatização? Quem considerará beneficiar com uma escalada do confronto e da tensão por estes dias?

Numa leitura das coisas, dir-se-ia que os sindicatos ganharão com a demonstração da acção malévola deste governo.

Mas num outro olhar – certamente mais cínico e que aprendeu com as cascas de banana do passado – eu arriscaria dizer que é o próprio Governo que joga no tabuleiro da dramatização. E até penso entrever por que razões o actual poder político achará que a dramatização do clima ante da próxima greve lhe será vantajoso.

Alguém me acompanha no raciocínio?

E já agora, como matéria adicional, leiam este excelente texto do Pacheco Pereira (“Poder:O Que é tem muita força”) no Abrupto, que reproduz com imagens, o que foi publicado ontem no Público. Porque é um dos poucos que se dá ao trabalho de ler nas entrelinhas.

… bloqueia o que não deve. Hoje, antes da limpeza geral andei a passar os olhos pelo spam (2080 msgs) e a encontrar diversos comentários regulares lá pelo meio, do DA, do H5N1, da Amélia Pais. etc. Agora já estão todos – ou quase – no seu lugar. Espero…