Sei que é daquelas fórmulas impossíveis de testar, acredito que resultado de investigação aturada do autor (Jonathan Haidt, hoje em destaque na revista do Expresso), mas que é obviamente algo mais facilmente assimilável enquanto coonsequência da mera observação e senso comum.

O F é de Felicidade.
O G de predisposição ou herança genética para a dita felicidade.
O A é para o ambiente social em que se vive e condições de vida.
O V para os actos voluntários que vamos fazendo ao longo da vida.

Perante isto não é de estranhar que em estudo recente da Universidade de Cambridge (instituição ligeiramente acima da Independente em credibilidade académica), também citado na revista, Portugal seja um dos três países com a população mais infeliz da União Europeia.

É que se descontarmos a herança genética – e a nossa em matéria de felicidade é secularmente escassa, para não dizer pior – os outros dois factores cada vez vão minguando mais na vida dos portugueses.

O A cada vez anda pior, pois em nome da nossa salvação obrigam-nos a tomar um remédio que nos vai matando aos poucos, de modo por vezes manso mas nem por isso menos fatal.

Quanto ao V, e por mim falo, cada vez os actos que pratico são mais condicionados exteriormente do que voluntários na sua acepção mais pura. Se escrever aqui aumenta ou pouquinho o F, e se em matéria de trabalho ainda reservo uma margem de liberdade só possível porque me imunizei contra muitos disparates, a realidade é que cada vez mais somos em grande número conduzidos para a execução de rotinas mecânicas impostas pelas tais condições de vida que também estão longe de melhorar. Os actos voluntários – e através deles a felicidade – reduzem-se não só por factores mais óbvios e dramáticos (doenças de familiares, imposições profissionais, infelicidade de amigos), como por aqueles pequenos contratempos do quotidiano qu, em forma de moínha, nos massacram a pouco e pouco.

Dizem que os dinamarqueses são dos mais felizes e os coitados até vivem num país frio, com sol escasso e céus quantas vezes cinzentos, enquanto nós aqui estamos nesta margem soalheira do Atlântico. Pagam impostos elevadíssimos, trabalham imenso e são muito organizados, diz ainda quem os conhece. Só que, por outro lado, sabem que cumprindo as suas obrigações, os outros em seu redor fazem o mesmo e não há preocupações adicionais. Confiam nos governantes e têm uma cultura de cooperação, em que cada um conhece o seu lugar, mas também sabe que não precisa de ser subserviente. Afirma Eva Henningsen que:

Na mentalidade dinamarquesa, quem está na base tem os mesmos direitos de quem dirige. Isto é ‘sagrado’. Numa empresa, ou numa escola, ninguém tem dúvidas sobre quem manda, mas todos entram pela mesma porta, usam o mesmo refeitório, as mesmas casas de banho, e sentem que devem falar quando estão em desacordo como alguma coisa porque vão ser ouvidos.

Nada mais diverso do que se passa por cá. Onde se cultiva o autoritarismo na relação hierárquica, desincentivando a crítica frontal aos superiores e optando pela antes pelo comentário lateral, com receio das consequências. Daí a enquinamento completo das relações de confiança é um pequeno passo. Somos especialistas no compromisso hipócrita da não-agressão frontal – herança do salazarismo, mas com raízes mais fundas – em simultâneo como a crítica generalizada à boca pequena, aqui que ninguém nos ouve, mas todos acabam por saber. É a arma dos que não têm outro poder se não o de espalhar palavra lateralment, sem enfrentar quem está em cima, com receio de represálias.

E este mundo depois espraia-se na vingança mesquinha, no abuso de poder por parte de quem o tem. Como o vergonhoso caso que a Sofia deixou num comentário sobre o processo disciplinar imposto a um funcionário da DREN por ter reproduzido uma piada sobre o Primeiro-Ministro. Mas outros casos há, como o de quem ouve ou lê e depois vai contar que ouviu ou leu, se possível, com uma pequena vírgula, umas reticências ou uma certa entoação, para melhor dar ênfase ao que lhe interessa, se o interesse for entalar o próximo porque falou ou escreveu.

Quando atingimos este patamar de mesquinhez nas relações humanas e profissionais, resultado de longos processos de recalcamento social e individual, de uma relação esquizofrénica com a autoridade (seja com o exercício ou com a sua aceitação) e de uma reinstalação do medo no ambiente de trabalho e no espaço público do exercício da liberdade de expressão, a felicidade começa a ser difícil de ser conquistada.

Passamos a olhar sobre o ombro, para ver quem nos pode ouvir, preocupamo-nos com a escolha dos alvos das críticas públicas; pior, recomendamos a maior das prudências aos outros, aconselhamos que – para o “seu bem”, claro, sempre com as melhores das intenções – se evitem posições mais incómodas, alvos menos problemáticos, argumentos mais ácidos. Em especial quando se está por conta própria, sem quem nos proteja a rectaguarda.

Nesse caso já não é só a Felicidade que está em jogo, é apenas uma Aparência de Vida que subsiste.