A propósito dos dados do relatório sobre o Índice de Competitividade abordado neste post, desafiei o Manyfaces (que é da área) a arranjar dados mais completos do que os acessíveis ao comum mortal. Apesar de os de 2007 não estarem à mão, ele encontrou os de 2006 e fez esta belíssima prosa, que constata aquilo que eu bem já suspeitava. Mas eu deixo o comentário para o local apropriado.

Como vai sendo costume estes relatórios são normalmente apresentados na imprensa sem grandes cuidados no que toca a definir o que são e para que servem. Fica-se a análise pela rama, a que se seguem uns comentários governativos de bota-acima ou bota-abaixo consoante o relatório pareça favorável ou não. Já analisar e tirar conclusões dá trabalho e não vende papel… Neste caso apenas apareceu o ranking global de competitividade de 2007 sem terem aparecido os rankings parciais dos factores, sub-factores e critérios que levaram à construção do ranking global, o que é pena porque estes rankings parciais revelam algumas coisas interessantes. Já lá iremos…

Antes de mais, de que trata este relatório? Trata-se de um relatório que avalia e ordena a capacidade dos Países em criarem e manterem um ambiente favorável à competitividade das empresas. Não avalia a competitividade dessas empresas mas sim o que se pode chamar a “competitividade das nações”.

Obviamente que isto é decisivo no que toca a decisões de investimento no Pais, porque nos avalia enquanto bons ou maus hospedeiros de empresas e respectivos investidores…

Não conseguindo pôr as mãos no relatório completo de 2007, utilizei na análise o de 2006 que não deve estar muito longe dos resultados de 2007 (sabe-se que caímos 2 lugares de um ano para o outro).

A avaliação do ambiente competitivo em cada País é feita utilizando 4 factores de base:
– Desempenho económico (42)
– Eficiência governativa (36)
– Eficiência nos negócios (43)
– Infraestrutura (30)

Cada um destes factores é dividido em 5 sub-factores. Ou seja, ao todo existem então 20 sub-factores que são tidos em conta em igual medida (5% cada) para o cálculo da competitividade global. Cada um desses sub-factores é ainda determinado por um conjunto de critérios, existindo no total 300 critérios individuais que são contemplados no cáculo da competitividade global. Isso é já muito detalhe para uma análise individual, pelo que me concentro nos sub-factores e critérios mais positivos ou negativos.

O nosso ranking global em 2006 foi 37º, em 55 Países. O ranking para cada um dos 4 factores base está em cima, entre parêntesis. Estamos claramente abaixo do nosso ranking global no que toca ao desempenho económico e eficiência de negócios, mas não estamos nada mal em infraestrutura (sendo que este factor contém o sub-factor educação, tendo este um ranking de 30). Também um dos sub-factores de infraestrutura é “saúde e ambiente” e aí estamos bem em 21º…

Passando os olhos pelos pontos mais fortes e mais fracos dos 20 sub-factores: estamos muito bem em preços (13), enquadramento social (20) e na já citada saúde e ambiente (21). Quanto a estes pontos fortes devo dizer que no critério de justiça estamos em 45º, uma posição miserável, mas que ainda assim não prejudica muito o ranking do enquadramento social, porque existem neste sub-factor outros critérios em que somos muito bons.

Estamos francamente mal em Produtividade e Eficiência (49!!!) e em práticas de gestão (45!!!) e ainda em nas Finanças públicas (43), que é um sub-factor da eficiência governativa.

No sub-factor educação nada de muito surpreendente. Os critérios batem certo com os rankings de anteriores relatórios da OCDE que já comentei por aqui (estando a educação nos 30 não é por aí que estaremos pior em competitividade, pelo contrário).

Vou antes bater forte e feio nos piores índices. Fui ver porque é que estamos tão mal nas praticas de gestão e reparei que num dos seus critérios, credibilidade dos gestores, estamos em 45º!!! Noutro dos critérios, empreendedorismo estamos num honroso…. último lugar.

Analisando os piores índices, aqueles em que estamos mesmo mal, podem então identificar-se alguns em que uma melhoria para os nossos níveis médios poderia trazer grandes ganhos de competitividade:

  1. Melhorar finanças públicas. Isto passa pela reforma do estado e dos custos com funções base do estado. O estado gasta muito e mal. Um bom exemplo é a saúde e a educação onde temos índices razoáveis, mas pagamos bastante por isso…
  2. Melhorar produtividade. Trabalhamos pouco e sobretudo trabalhamos mal.
  3. Melhorar a justiça. Funciona mal e é muito cara. As empresas têm com isto riscos acrescidos consideráveis.
  4. Melhorar qualidade da gestão a todos os níveis. Até porque isso tem grande impacto no ponto 1, 2 e 3.

Ou seja, concentremo-nos na gestão pública, na gestão das empresas e na gestão da justiça. Se calhar o choque escolhido foi o errado….. Precisamos é dum bom choque… de gestão.

Manyfaces, que escreve normalmente por aqui.