Quinta-feira, 17 de Maio, 2007


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Publicado hoje em Diário da República. As competências e o resto são estas. Só é pena que as contas continuem mal feitas nos cálculos para a distribuição dos lugares. Será que o Plano de Acção para a Matemática não passou por aqui?

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Stephen Frears, Dangerous Liaisons (1988)

Visto no Mundial, não muito tempo depois da abordagem ao Casanova, Sade e o próprio Choderlos de Laclos na cadeira do 4º ano de História Cultural e das Mentalidades (idos de 87, lá vão já 20 anos), e quando preparava uma das minhas primeiras comunicações a um colóquio, exactamente sobre a sedução setecentista.

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… o povo não faz boas nem más acções que por costume e por imitação; e raríssimas vezes se move por sistem,a nem por reflexão: será cortês ou grosseiro, sisudo ou ralhador, pacífico ou insultador, conforme for tratado pelo seu cura, pelo seu juíz, pelo escudeiro ou lavrador honrado. O povo imita as acções dos seus maiores. A gente das vilas imita o trato das cidades à roda; as cidades o trato da capital; e a capital o da corte. Deste modo, que a mocidade plebeia tenha ou não mestre, os costumes que tiver serão sempre a imitação dos que virem nos seus maiores, e não do ensino que tiveram nas escolas. Todo o ponto é que das leis do Estado estejam de tal modo decretadas, que não falte à mais ínfima classe dos súbditos o trabalho, e que se despenda nisto o que se despende nos hospitais gerais e nas confrarias. (Ribeiro Sanches, Cartas sobre a Educação da Mocidade, s/d, p. 131)

A propósito dos dados do relatório sobre o Índice de Competitividade abordado neste post, desafiei o Manyfaces (que é da área) a arranjar dados mais completos do que os acessíveis ao comum mortal. Apesar de os de 2007 não estarem à mão, ele encontrou os de 2006 e fez esta belíssima prosa, que constata aquilo que eu bem já suspeitava. Mas eu deixo o comentário para o local apropriado.

Como vai sendo costume estes relatórios são normalmente apresentados na imprensa sem grandes cuidados no que toca a definir o que são e para que servem. Fica-se a análise pela rama, a que se seguem uns comentários governativos de bota-acima ou bota-abaixo consoante o relatório pareça favorável ou não. Já analisar e tirar conclusões dá trabalho e não vende papel… Neste caso apenas apareceu o ranking global de competitividade de 2007 sem terem aparecido os rankings parciais dos factores, sub-factores e critérios que levaram à construção do ranking global, o que é pena porque estes rankings parciais revelam algumas coisas interessantes. Já lá iremos…

Antes de mais, de que trata este relatório? Trata-se de um relatório que avalia e ordena a capacidade dos Países em criarem e manterem um ambiente favorável à competitividade das empresas. Não avalia a competitividade dessas empresas mas sim o que se pode chamar a “competitividade das nações”.

Obviamente que isto é decisivo no que toca a decisões de investimento no Pais, porque nos avalia enquanto bons ou maus hospedeiros de empresas e respectivos investidores…

Não conseguindo pôr as mãos no relatório completo de 2007, utilizei na análise o de 2006 que não deve estar muito longe dos resultados de 2007 (sabe-se que caímos 2 lugares de um ano para o outro).

A avaliação do ambiente competitivo em cada País é feita utilizando 4 factores de base:
– Desempenho económico (42)
– Eficiência governativa (36)
– Eficiência nos negócios (43)
– Infraestrutura (30)

Cada um destes factores é dividido em 5 sub-factores. Ou seja, ao todo existem então 20 sub-factores que são tidos em conta em igual medida (5% cada) para o cálculo da competitividade global. Cada um desses sub-factores é ainda determinado por um conjunto de critérios, existindo no total 300 critérios individuais que são contemplados no cáculo da competitividade global. Isso é já muito detalhe para uma análise individual, pelo que me concentro nos sub-factores e critérios mais positivos ou negativos.

O nosso ranking global em 2006 foi 37º, em 55 Países. O ranking para cada um dos 4 factores base está em cima, entre parêntesis. Estamos claramente abaixo do nosso ranking global no que toca ao desempenho económico e eficiência de negócios, mas não estamos nada mal em infraestrutura (sendo que este factor contém o sub-factor educação, tendo este um ranking de 30). Também um dos sub-factores de infraestrutura é “saúde e ambiente” e aí estamos bem em 21º…

Passando os olhos pelos pontos mais fortes e mais fracos dos 20 sub-factores: estamos muito bem em preços (13), enquadramento social (20) e na já citada saúde e ambiente (21). Quanto a estes pontos fortes devo dizer que no critério de justiça estamos em 45º, uma posição miserável, mas que ainda assim não prejudica muito o ranking do enquadramento social, porque existem neste sub-factor outros critérios em que somos muito bons.

Estamos francamente mal em Produtividade e Eficiência (49!!!) e em práticas de gestão (45!!!) e ainda em nas Finanças públicas (43), que é um sub-factor da eficiência governativa.

No sub-factor educação nada de muito surpreendente. Os critérios batem certo com os rankings de anteriores relatórios da OCDE que já comentei por aqui (estando a educação nos 30 não é por aí que estaremos pior em competitividade, pelo contrário).

Vou antes bater forte e feio nos piores índices. Fui ver porque é que estamos tão mal nas praticas de gestão e reparei que num dos seus critérios, credibilidade dos gestores, estamos em 45º!!! Noutro dos critérios, empreendedorismo estamos num honroso…. último lugar.

Analisando os piores índices, aqueles em que estamos mesmo mal, podem então identificar-se alguns em que uma melhoria para os nossos níveis médios poderia trazer grandes ganhos de competitividade:

  1. Melhorar finanças públicas. Isto passa pela reforma do estado e dos custos com funções base do estado. O estado gasta muito e mal. Um bom exemplo é a saúde e a educação onde temos índices razoáveis, mas pagamos bastante por isso…
  2. Melhorar produtividade. Trabalhamos pouco e sobretudo trabalhamos mal.
  3. Melhorar a justiça. Funciona mal e é muito cara. As empresas têm com isto riscos acrescidos consideráveis.
  4. Melhorar qualidade da gestão a todos os níveis. Até porque isso tem grande impacto no ponto 1, 2 e 3.

Ou seja, concentremo-nos na gestão pública, na gestão das empresas e na gestão da justiça. Se calhar o choque escolhido foi o errado….. Precisamos é dum bom choque… de gestão.

Manyfaces, que escreve normalmente por aqui.

O ME avança destemidamente para uma nova fase da sua política de racionalização da rede escolar e, depois de ter triturado o 1º CEB, fazendo a dita rede recuar para níveis de há várias décadas atrás – eu sinceramente gostaria de ler agora a opinião de certos cientistas sociais que tanto criticaram outras épocas históricas por não investirem na educação e no alargamento da cobertura do território nacional – vai passar para a fatia seguinte que será o do tratamento dos 2º e 3º CEB e Ensino Secundário.

Com a desculpa da falta de condições, em Corroios vai proceder-se ao encerramento da Escola do Moinho de Maré, o que levará à dispersão de perto de meio muilhar de alunos por outras escolas. Note-se que o ME não pensa construir uma nova escola que substitua a actual, que afirma estar em más condições, mas apenas encerrá-la. As consequências para alunos (deslocação), docentes (extinção dos lugares) e órgãos de gestão (espero que sejam dos que ficaram calados nas reuniões na 5 de Outubro, pensando que iam escapar à razia) são todas negativas. A única vantagem é a poupança. Lamento a referência excessiva, mas o economista-contabilista Salazar, ditador que quase todos afirmam avesso à instrução do povinho, não chegou a tanto e até tinha orgulho em ver escolas pelo país.

Mais a norte, em Arcos de Valdevez (e agradeço a referência da notícia à Amélia Pais, que a recebeu por sua vez da Luísa Brito) o projecto é o de fundir a EB 2+3 com a Secundária do concelho. Como ainda há gente com bom senso, incluindo nas autarquias, a reacção não se fez esperar e muito bem. De acordo com o Público:

O vereador da Educação na Câmara de Arcos de Valdevez, Pedro Teixeira, ameaçou hoje avançar para os tribunais para impugnar a decisão da DREN de fundir as escolas EB 2,3 e Secundária da sede do concelho.
“Consideramos que se trata de um perfeito disparate e, como tal, estamos dispostos a tudo para travar essa intenção. Se for preciso, vamos para os tribunais”, disse o autarca à agência Lusa.
Segundo Pedro Teixeira, a intenção da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) é fundir aquelas duas escolas e criar um único agrupamento, cujo conselho executivo teria que gerir cerca de 2500 alunos, 420 professores e funcionários e 28 edifícios.
“Seria criada uma megaestrutura que vai contra todos os princípios das políticas educativas”, frisou.
Lembrou ainda que, a concretizar-se a fusão daquelas duas escolas, isso implicaria o convívio no mesmo edifício de alunos entre os 09 e os 20 anos, “idades muito díspares que, por vezes, podem dar azo a situações complicadas”.

Como se percebe as razões aduzidas são mais do que lógicas, pois é incompreensível este tipo de fusão de escolas, em especial pelos evidentes prejuízos que acarretam do ponto de vista pedagógico.

Mas eu esperaria, a breve prazo, por outras iniciativas deste tipo um pouco por todo o país, com os efeitos previsíveis: alunos subitamente enviados para outros ambientes, cada vez mais sobrelotados, docentes e funcionários a perder o seu lugar no quadro e a ficarem a meio caminho de qualquer coisinha má. No meio de tudo isto, e porque sou de maus fígados, só gostaria de saber se no próximo processo eleitoral para o Conselho dos 60 notáveis, os Presidentes de CE’s destas escolas a extinguir ou fundir, ainda serão considerados eleitores ou elegíveis.

Espero que, de uma vez por todas, os docentes – e nisso incluo os colegas em órgãos de gestão e futuros titulares – se apercebam que quase ninguém está neste momento a salvo da sanha da tutela, mesmo aqueles que pareciam ir ficar blindados contra todo o tipo de intempéries.

Só não vê…

Mas estamos quase lá, embora alguns mais precocemente envelhecidos já lá chegaram, saltando directamente da adolescência algo inflamada para uma meia-idade de acomodada resignação.

O debate que ontem aconteceu na RTPN sobre a blogosfera e, na parte final, sobre as potencialidades pedagógicas e educativas dos blogues.

Quatro senhores, de que só conhecia o Paulo Querido, pois de todos os outros fiquei sem perceber o nome ou quais serão os respectivos blogues, dissertaram de forma tão sensaborona que quase me convenceram a fechar o blogue, de tão satisfeitos estavam com o seu próprio papel de “profetas” (não estou a gozar, houve um que usou essa expressão para qualificar o grupo) da blogosfera nacional.

Se isto é para andarmos todos com punhos de renda por aqui, a imitarmos os jornais sem gastar o papel, não vale a pena.