Terça-feira, 15 de Maio, 2007


Let the seasons begin – it rolls right on
Let the seasons begin – take the big king down

De uma ou outra forma, recebi o desafio para nomear cinco blogues que me façam pensar ou que, de um modo ou outro, se enquadrem nas minhas preferências quotidianas. Pelo menos no Assobio Rebelde, do Educação Crítica e no Educação Cor-de-Rosa detectei esse tipo de referência ao Umbigo.

provavelmente estou a ser injusto ou distraído, mas é verdade que não faço as minhas rondas bloguísticas com o tempo e a calma que desejaria.

Por isso, também sinto que uma lista de cinco deve representar, não apenas as minhas declaradas afinidades absolutas, mas principalmente uma amostra da pluralidade de perspectivas que por aí andam e que ajudam a enriquecer, até pelo contraditório, uma minha visão do mundo, em geral, e dos fenómenos educativos, como manda o particular.

Vai daí e, desculpem-me os ausentes, lá vão cinco, por ordem alfabética, com curta justificação:

  • A Angústia da Docência, porque o João Pires é meu compadre e acredita sinceramente numa série de coisas em que eu nunca consegui chegar a acreditar, pelo que acabamos por discordar da forma mais cordial possível entre amigos. E por tudo o resto também, incluindo o facto de ser o meu descodificador do sindicalismo actual e de ter sido provavelmente eu que lhe meteu o bichinho da bloguice.
  • Anterozóide, porque foi desde o início o blogue que eu esperava que aparecesse, dada a qualidade do material que já antes circulava na net, quase de forma apócrifa, do Antero Valério.
  • Da Crítica da Educação à Educação Crítica porque, apesar dos nosso olhares partirem de pontos diferentes e com perspectivas não necessariamente concordantes, o Henrique Santos foi e continua a ser uma das visitas regulares deste espaço que mais suscita o debate e confronto de ideias (o mesmo sendo válido para comentadores como o António Ferrão, agora por Londres, o H5N1, o Manyfaces, que tem também o seu próprio espaço, ou o PJ, com quem ando agora de candeias às avessas, tudo gente com ideias firmes, que não são necessariamente as minhas).
  • Memórias Soltas de Prof que, apesar das pausas da Isabel Campeão, é um espaço onde se reflecte de forma ponderada e lúcida sobre a Educação.
  • Terrear, do José Matias Alves, porque procura também sempre dosear uma reflexão ampla sobre a Educação com tudo o resto que nos envolve.

E quantos outros ficam de fora, imperdoavelmente? Muitos! Mesmo à porta ficou o outrÒÓlhar do Miguel. Mas sempre fui muito disciplinado nisto. Se é para escolher cinco, escolhem-se cinco. Depois logo me arrependo e recrimino pelos que deixei de fora.

Hoje foi dia de fornecimento de dados da IGE à imprensa e, como de costume, a agenda é dominada pelos números debitados pelo Ministério, sem que os mesmos sofram grande profes.jpganálise crítica. No Jornal de Notícias há ainda uma referência à insuficiência da rede do ensino pré-escolar, mas no Público (p. 8, sem link, mas com imagem ao lado) o enfoque é sobre o número de docentes sem turmas. No Correio da Manhã, o grande destaque de primeira página é o encerramento de quase 2500 escolas, mas lá por dentro as matérias são muito próximas dos outros órgãos de informação.

Um dos destaques que parece querer passar-se para a opinião pública é o do aparente desperdício de dinheiro, com a alegação de existirem cerca de 900.000 euros (um milhão, para alguns) de gastos injustificados nas Escolas ou “unidades de gestão” inspeccionadas.

O que realmente falta é colocar em perspectiva aquele valor, através da sua leitura cuidada, o que irei fazer em notas telegráficas.

Tendo sido inspeccionadas 312 “unidades de gestão” isso significa que o desperdício médio foi de 30.000 euros, coisa que não dá para metade do carro de um ministro.

No âmbito desse desperdício, em todas as 312 unidades, menos de 45.000 euros foram gastos em pagamentos considerados indevidos, o que dá algo como uma média de 1500 euros. Desculpem-me, mas isto é muito pouco, mesmo muito pouco. Em qualquer lado, em qualquer sector de actividade.

Dos 900.000 euros alegados, a mais grossa fatia (quase 80%) deve-se a gastos com destacamentos irregulares (338.341 euros) ou com horários indevidamente ocupados por professores contratados (330.939 euros). E é aqui que eu queria chegar, pois seria interessante saber quem é efectivamente responsável por estes gastos.

gestao.jpgLembremo-nos que os destacamentos, sendo pedidos pelos docentes, são aprovados pelos serviços centrais e/ou regionais do Ministério. Seria do mais interessante saber quem foi beneficiado com esses destacamentos, porquê e quem os autorizou. Por casos que conheço, assim como devido à necessidade de visitar a DREL em 2004 e 2005 devido a erros dos serviços em algumas colocações, quer-me parecer que a batata escaldaria na boca de alguém, que não os docentes, em geral. Já em particular, encontraríamos, repito, situações muito curiosas…

Quanto aos horários indevidamente ocupados por contratados, mais não é do que uma prova aparente daquilo que muitos de nós sabemos e denunciamos: em tempos em que se afirma que existem demasiados professores no sistema, há hipóteses escancaradas de deturpação e desregulamento dos concursos, nomeadamente através da desnecessária contratação directa de docentes exteriores aos quadros.

Por isso, estes números representam para mim a demonstração cabal de:

  1. O desperdício de dinheiros directamente assacável aos docentes e aos estabelecimentos de ensino é praticamente residual.
  2. A origem e responsabilidade pelos maiores desperdícios, se bem analisadas, encontram-se exactamente nos serviços centrais do ME – que autorizam indevidamente destacamentos – ou em práticas irregulares de contratação de docentes, quando poderiam existir soluções dentro dos quadros.
  3. Em termos de gestão, as Escolas e agrupamentos afinal são capazes de pedir meças a quase todos os serviços públcios e a muitas empresas privadas que, a acreditar nas suas declarações, apresentam prejuízos anos sobre anos.

Mas claro que isto não ocorre a João Marcelino, muito recente director do DN, que é perfeitamente livre de escrever os disparates que bem entende. É uma liberdade que lhe assiste, a de tomar partido sobre algo cujos detalhes parece desconhecer. Talvez se conseguisse informar-se um pouco melhor, ou mesmo ouvir algumas opiniões menos encarneiradas, sempre poderia manter o que afirma, mas admitindo o direito ao contraditório.

Porque não tentarmos organizar, com os conhecimentos e recursos possíveis, uma espécie de Encontro Nacional sobre Blogues e Educação? Algo mais do que aquelas iniciativas muito restritas a uma instituição e a dois ou três convidados?

Porque não pensar nisso a prazo razoável para não ser em cima do joelho (6 meses, 1 ano?), tentar sistematizar a ideia, obter apoios e um espaço para a sua realização, definir painéis para as intervenções e procurar mobilizar tanto os autores como os consumidores da blogosfera educativa?

Há temas óbvios a abordar; as razões e objectivos para a criação dos blogues, a possibilidade de uma blogosfera educativa, a cartografia temática dessa blogosfera, a presença dos divesos níveis de ensino e o perfil académico e profissional dos autores/consumidores, as relações com os ambientes bloguísticos envolventes, os exemplos internacionais, tudo isso e muito mais sriam temas de grande interesse.

Assim como proceder a um recenseamento sistemático dos blogues relacionados com a Educação em Portugal, projecto que vou acarinhando – um pouco para fazer uma espécie da cartografia à moda das que foram surgindo para a Educação Comparada, por exemplo – para desenvolver lá mais para as férias.

Sendo que este movimento, caracterizado por funcionar em rede e de forma espontânea, é um dos traços mais inovadores na vivência de muitos docentes e uma das possibilidades de estreitamento de laços de uma classe ou grupo profissional cada vez mais fragmentado ou atomizado nas suas experiências quotidianas, um encontro deste tipo seria potencialmente muito útil, mesmo se servisse para o confronto de perspectivas antagónicas sobre muitas questões. Aliás, essa seria uma das maiores vantagens de tal iniciativa.

Mas algo aberto a todos, dentro da Educação – níveis de ensino, famílias, instituições – ou mesmo fora dela.

Não sei se será um pálido reflexo do Graal da reconstrução ou restauro de uma identidade profissional ameaçada, mas certamente poderia ser um ponto de partida.

O que acham?