Tive hoje o prazer de ouvir no horário nobre da Sic-Notícias, e graças ao Mário Crespo, o testemunho entre o irónico e o ácido, de José Adelino Maltez sobre alguns dos traços característicos da nossa sociedade, em especial aqueles que convivem de forma amigável com o continuum que se estende entre a “inocente” cunha e a descarada corrupção, que JAM qualifica, bem, como a compra do poder por aqueles que têm os bens, leia-se “dinheiro”, para o fazer. O pretexto era o caso daquele angariador de fundos para o PS no Brasil, que também parece ter algumas ligações à campanha do actual Presidente da República e que agora está preso por delitos vários. Mas podia ser qualquer outro episódio da nossa vida pública, neste pastoso e pasmoso concubinato que se vive entre a política partidária e o mundo dos “negócios”.

Para além de recomendar a leitura de um seu texto recente no blogue Sobre o tempo que passa, com o título “Que os repúblicos sejam homens livres, mas com âncora” (ligação a partir da página pessoal), recuperaria aqui algumas das observações feitas de forma clara e que, apesar de sabermos há muito que retratam o que existe e nos rodeia, sempre nos dá o conforto da partilha de conhecimentos e ideias: antes de mais, o facto se existirem investigações jornalísticas que ficam afastadas do “grande público” porque, apesar de disporem da documentação comprovativa, são incómodas e não servem às agendas editoriais do momento, sempre muito específicas, dos órgãos nacionais de referência, enquanto são demasiado arriscadas para a capacidade de choque e luta de órgãos de média e pequena dimensão. Em seguida, o facto de ele encarar, tal como eu acho, que o que se passa entre nós em termos de nepotismo e redes clientelares tem muito de similar ao sistema feudal da encomendação dos vassalos.

Por fim, a história não tão anedótica quanto isso, do caçador de cérebros alemão que considera Portugal como uma espécie de Paraíso por lhe ser fácil contratar a melhor mão-de-obra qualificada que existe ao mais baixo custo da Europa, o que só é possível por duas razões: a primeira, porque como o ministro Manuel Pinho tanto se vangloria, essa mão-de-obra é efectivamente muito barata, só não percebendo o inteligente que quem pode levar indígenas de valor a baixo preço, não precisa de vir para cá investir; a segunda razão, adiantada pelo tal caçador, é que os melhores raramente são contratados em Portugal nos concursos públicos, porque são preteridos por quem tem as conexões certas.

E esta é a triste verdade com que convivemos, mesmo se alguns – aqueles que se alimentam directamente da primeiroia torneira do monstro –  gostam de afirmar que este tipo de comentários, denúncias ou opiniões, correspondem a uma visão demasiado pessimista do mundo e que estão paredes-meias com algumas teorias da conspiração ou alegadas invejas.

Não, infelizmente não. A mediocridade e o descarado clientelismo entre nós reproduzem-se de forma acelerada, como erva daninha, e a multiplicação é tanto maior quanto se reforça a retórica em torno do rigor e da transparência. E nada melhor do que terminar com uma outra citação do próprio JAM:

Ainda hoje podemos dizer, como Álvaro Ribeiro, que quem não escreve em papel pautado por qualquer ortodoxia, quem não está inscrito numa congregação de elogio-mútuo, quem está disposto a lutar contra a pela sindicalização do trabalho intelectual que ameaça o pensamento livre, pela recíproca defesa das mediocridades e pela agressividade da inveja que se manifesta pela humilhação, corre o risco de nem sequer poder comunicar com outros que gostariam de fugir dos pretensos canalizadores da opinião crítica e da opinião pública.