Segunda-feira, 14 de Maio, 2007


touch2.jpg

Há que tempos que estava para fazer isto com o Touchgraph, um site com um software (atenção que precisa de uma aplicação Java actualizada) que nos permite analisar o cluster de relações estabelecidas a partir e para um qualquer site, blogue ou tema na net. Hoje, como foram ultrapassadas as 200.000 visitas, sendo que a contabilidade se iniciou, na prática, em Maio de 2006, lá me arrisquei a ver a teia em que me meti.

Só que confesso que a do Umbigo me deixa um bocado baralhado (clique quem quiser ver melhor).

Tive hoje o prazer de ouvir no horário nobre da Sic-Notícias, e graças ao Mário Crespo, o testemunho entre o irónico e o ácido, de José Adelino Maltez sobre alguns dos traços característicos da nossa sociedade, em especial aqueles que convivem de forma amigável com o continuum que se estende entre a “inocente” cunha e a descarada corrupção, que JAM qualifica, bem, como a compra do poder por aqueles que têm os bens, leia-se “dinheiro”, para o fazer. O pretexto era o caso daquele angariador de fundos para o PS no Brasil, que também parece ter algumas ligações à campanha do actual Presidente da República e que agora está preso por delitos vários. Mas podia ser qualquer outro episódio da nossa vida pública, neste pastoso e pasmoso concubinato que se vive entre a política partidária e o mundo dos “negócios”.

Para além de recomendar a leitura de um seu texto recente no blogue Sobre o tempo que passa, com o título “Que os repúblicos sejam homens livres, mas com âncora” (ligação a partir da página pessoal), recuperaria aqui algumas das observações feitas de forma clara e que, apesar de sabermos há muito que retratam o que existe e nos rodeia, sempre nos dá o conforto da partilha de conhecimentos e ideias: antes de mais, o facto se existirem investigações jornalísticas que ficam afastadas do “grande público” porque, apesar de disporem da documentação comprovativa, são incómodas e não servem às agendas editoriais do momento, sempre muito específicas, dos órgãos nacionais de referência, enquanto são demasiado arriscadas para a capacidade de choque e luta de órgãos de média e pequena dimensão. Em seguida, o facto de ele encarar, tal como eu acho, que o que se passa entre nós em termos de nepotismo e redes clientelares tem muito de similar ao sistema feudal da encomendação dos vassalos.

Por fim, a história não tão anedótica quanto isso, do caçador de cérebros alemão que considera Portugal como uma espécie de Paraíso por lhe ser fácil contratar a melhor mão-de-obra qualificada que existe ao mais baixo custo da Europa, o que só é possível por duas razões: a primeira, porque como o ministro Manuel Pinho tanto se vangloria, essa mão-de-obra é efectivamente muito barata, só não percebendo o inteligente que quem pode levar indígenas de valor a baixo preço, não precisa de vir para cá investir; a segunda razão, adiantada pelo tal caçador, é que os melhores raramente são contratados em Portugal nos concursos públicos, porque são preteridos por quem tem as conexões certas.

E esta é a triste verdade com que convivemos, mesmo se alguns – aqueles que se alimentam directamente da primeiroia torneira do monstro –  gostam de afirmar que este tipo de comentários, denúncias ou opiniões, correspondem a uma visão demasiado pessimista do mundo e que estão paredes-meias com algumas teorias da conspiração ou alegadas invejas.

Não, infelizmente não. A mediocridade e o descarado clientelismo entre nós reproduzem-se de forma acelerada, como erva daninha, e a multiplicação é tanto maior quanto se reforça a retórica em torno do rigor e da transparência. E nada melhor do que terminar com uma outra citação do próprio JAM:

Ainda hoje podemos dizer, como Álvaro Ribeiro, que quem não escreve em papel pautado por qualquer ortodoxia, quem não está inscrito numa congregação de elogio-mútuo, quem está disposto a lutar contra a pela sindicalização do trabalho intelectual que ameaça o pensamento livre, pela recíproca defesa das mediocridades e pela agressividade da inveja que se manifesta pela humilhação, corre o risco de nem sequer poder comunicar com outros que gostariam de fugir dos pretensos canalizadores da opinião crítica e da opinião pública.

1057a.jpg

(c) Antero Valério

Sócrates inscreveu-se para ser dador de medula óssea

Sei que chego atrasado ao trma, mas o trocadilho fácil há dias que me importunava.

hesse.jpg

Camadas inteiras da população vivem hoje num estado de apatia permanente, não experimentando mais nem alegria de viver nem amor. Este novo modo de existência, estranho a toda a asensibilidade artística, oprime e mortifica os espíritos refinados, que preferem retirar-se da vida pública. É triste constatar que o ritmo desenfreado da época actual influi sobre nós de maneira nefasta e prejudicial desde a infância. No entanto, este fenómeno parece inevitável. Podemos lamentar simplesmente que as nossas pequenas distracções sejam, depois de algum tempo, elas próprias afectadas pela impaciência moderna. A nossa maneira de fruir as coisas é a custo menos febril e extenuante que a prática da nossa profissão. Obedecemos à divisa que manda «fazer o máximo no mínimo de tempo». Assim a alegria diminui, mau-grado a multiplicação dos divertimentos. (Herman Hesse, “Propos sur les joies modestes de l’existence” in L’art de l’oisiveté, pp. 13-14)

Quem diria que o escrito é originalmente de 1899!