Domingo, 13 de Maio, 2007


Don’t say it’s easy to follow a process
There’s nothing harder than keeping a promise

Blood runs through your veins, that’s where our similarity ends
Blood runs through our veins

Blood runs through your veins, that’s where our similarity ends
Blood runs through our veins

There’s nothing believable in being honest
So cover your lies up with another promise

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Eu garanto que não demoro muito a dar o meu contributo para os thinking blogs e outras correntes do mesmo género que me têm chegado. Assim como há que tempos que estou para actualizar o blogroll do Umbigo. Promessa de…

Aqui fica o texto deste mês para o Correio da Educação que muitos já terão recebido, o qual retoma uma ideia recorrente em vários posts do Umbigo. Cortei-lhe no início apenas um “do que”, por ser redundante na frase. Desculpem lá a repetição de ideias, mas hoje é Domingo e ontem a casa esteve cheia de miudagem e graudagem e as minhas costas não me permitem grandes estadias ao teclado.

Questões de Imagem

Contrariamente a alguns puristas, mais dados apenas à análise das questões materiais do exercício da docência, a mim interessam-me também os aspectos simbólicos da função que exerço. Não nos colocam a comida na mesa, mas não podemos apenas viver do que é material e corpóreo. Isso significaria um lamentável retrocesso na nossa evolução cultural e social.
Por isso me preocupa a forma como a imagem dos docentes, em especial os do ensino público não-superior, é percepcionada numa sociedade em que esse grupo profissional é sujeito a múltiplas pressões:

Da tutela, que, não assumindo os erros de sucessivas políticas educativas parcial ou totalmente falhadas e/ou erradas, prefere lançar o ónus da culpa das insuficiências do nosso sistema educativo para os docentes.
Da comunicação social, onde os docentes surgem de forma paradoxal: ou quase como carrascos dos alunos, por serem insensíveis às suas necessidades de “sucesso”, ou como vítimas impotentes de actos de violência; isto quando não passam apenas por absentistas relapsos, a cada vez que o ME decide deitar cá para fora estatísticas manipuladas e aceites sem crítica.
De alguns grupos sociais, por vezes representados por organizações instrumentais que circulam na órbita do ME, que gostam de menorizar e amesquinhar o desempenho e o papel dos docentes porque isso lhes serve de desculpa para as suas próprias insuficiências enquanto educadores no âmbito da família.

Perante isto não é raro que os docentes actuem de forma meramente reactiva e defensiva, perdendo por completo o domínio da agenda política e comunicacional que os envolve. E a percepção dessa perda, individual e de grupo, do controlo sobre o seu próprio destino é uma das principais causas para o desenvolvimento de situações de stresse profissional e do agora mais conhecido burnout, que mais não é que o bom e velho esgotamento físico e psíquico perante um ambiente que se sente ser cada vez mais hostil.
Contra isso, é necessário incutir na classe docente – e isso deve partir do seu próprio seio – uma maior dose de auto-estima, de resiliência (um conceito agora muito em voga) perante as adversidades, de capacidade de identificação dos pontos comuns a toda a classe profissional e de construção de uma identidade própria, orgulhosa de si mesma e capaz de se projectar para o exterior.

Porque é ridículo que, sendo o grupo profissional com qualificações de nível superior mais numeroso (e muito em especial dentro do aparelho de Estado), os docentes sejam por regra tratados de forma diferenciada, para pior, em relação a outros grupos profissionais com qualificações equivalentes, mas que souberam auto-regular o exercício da sua profissão e criar uma imagem social sólida, com um capital de prestígio que resiste às tentativas de erosão vindas do exterior e com poder junto da opinião publicada.

Tudo aquilo que ainda falta aos docentes.
Infelizmente.
Está nas nossas mãos e na nossa imaginação decidir durante quanto tempo mais.

six.gifExiste um daqueles mitos por comprovar, a navegar entre a teoria “científica” e o dito popular, que afirma serem apenas necessários cinco elos de ligação para ligar uma pessoa a qualquer outra do planeta. Ou seja, no máximo, existe a possibilidade de estarmos relacionados com alguém neste mundo por seis graus de separação.

No caso da docência eu acrescentaria a possibilidade de ser necessário mais um elo, e reforçaria a ideia de separação em vez de ligação.

Apesar de tudo aquilo que poderia unir os docentes, existem diversos factores que potenciam situações de conflito e quebra de solidariedade. Existem diferentes trajectos académicos, diversíssimas origens disciplinares, experiências profissionais muito díspares. Para falar apenas em factores já “tradicionais”, que os novos estão ainda a crescer. Mas tudo o que foi referido pode contribuir para uma variedade e riqueza da profissão, mas também permite criar zonas de fricção.

No entanto, e pela observação que vou fazendo, nada acentua mais as clivagens entre docentes, do que os “graus” de docência a que pertencem e que muitos parecem assumir como sendo significativos de uma escala ascendente de competência profissional e valor acrescido da opinião. Uma tendência antiga é descarregar o ónus do insucesso escolar dos alunos para os docentes do “nível” imediuatamente anterior, visto como de certo modo “inferior”. No ensino superior afirma-se que as culpas é da má preparação dada no Secundário; neste as queixas recaem sobre o Ensino Básico que deixa os alunos acabarem o 9º ano impreparados para as durezas que os esperam; no 3º ciclo a culpa é do 2º CEB; neste olha-se com desconfiança para o 1º que, por seu turno, se justifica com a falta de uma apropriada educação pré-escolar.

Em matéria de status opinativo, a situação não é muito diferente, infelizmente, em muitos lugares e situações. Estando mais próximo da base da escala implícita do “mérito”, já dei comigo várias vezes – e com colegas meus – a ser destratado a sangue frio por alguém que, por leccionar o 3º ciclo na mesma escola, se considera mais competente e com poderes de análise e liderança mais avançados que os de qualquer docente do 2º CEB. O mesmo acontece em muitas Escolas Secundárias em relação a quem só lecciona do 10º ao 12º ano e os “outros” que só têm turmas até ao 9º ano. E depois temos ainda os professores do Ensino Superior com um spleen imenso a dissertar sobre todo o resto do sistema de ensino, de que eles se sentem a cúpula. A cabeça do corpo de que os outros são as mãos e os pés que mexem na matéria mais incómoda ou que se enterram na lama. Bom, mas sempre fazendo alguma separação entre politécnicos e universidades. Porque um professor universitário é um sempe um professor universitário.

Porque há quem, apenas por ter um assento morno numa Universidade, considere que a sua opinião não é comparável à de um(a) professora “primária” ou do “ciclo”. E que na sua posse é que está uma fatia da verdade iluminada.

Temos assim na escala descendente do mérito e da competência: ensino universitário, politénico, secundário, básico (3º, 2º e 1º ciclos) e pré-escolar. Sete graus de separação, cujas clivagens são estimadas pela(s) tutela(s). A separação entre Ensino Superior e Não-Superior é a mais alimentada, até pelos próprios que se sentem mais altos no edifício, esquecendo-se que se as bases forem poucos firmes, tudo cai, magoando-se mais quem mais alto estiver.

No entanto, lamento mais – talvez porque sejam as que observei mais no quotidiano – as formas mesquinhas de tentativa de separar as águas, sempre que alguém tem uma vaga hipótese para demonstrar um estatuto adicional, ao nível dos Ensinos Básico e Secundário.

A introdução do sistema de titulares vai agravar este fenómeno, mas, para além disso, adicionar-lhe tensões transversais. Quando docentes dos 1º e 2º CEB, no âmbito dos Agrupamentos Departamentos, acederem a posições desconfortáveis para os do 3º CEB. E nas Secundárias, entre os que até agora ficavam restrito ao dito 3º CEB e os “Secundários”. Vai ser interessante de ver para quem estiver de fora e em especial para quem delineou um modelo que, entre outros pecados maiores ou menores, foi pensado exactamente para quebrar os laços de solidariedade e cooperação entre a classe docente.

Resta saber se existe a capacidade de resistir e inverter a tendência ou se é desta vez que tudo ficará irrespirável em muitos agrupamentos e estabelecimentos de ensino.