Sábado, 12 de Maio, 2007


Afinal os receios só se concretizaram pela metade. Houve 65 candidaturas às diversas variantes do Prémio Luditas d’Oiro, sendo que só 2 são provenientes do sector privado. Afina, a Escola Pública reagiu a tempo.

O prémio gordo teve direito a 35 candidaturas, o que num universo de 140.000 docentes dá a verdadeira dimensão da popularidade da iniciativa, pois corresponde a 0,025% dos docentes em exercício e, por exemplo, a pouco mais de 0,5 dos docentes com possibilidade de concorrerem a titular.

Para além de que ouvi alguns comentários quanto a certas candidaturas arranjadas à força em certos estabelecimentos de ensino, à aproximação do prazo final para serem apresentadas. Até a mais de uma categoria. Se me perguntarem se alguma é de Setúbal, eu não confirmo, nem desminto.

Só me espanta mesmo é que apenas tenham aparecido 10 candidatos ao prémio de Liderança, pois assim o futuro Conselho dos 60, que irá servir de muleta do ME para açaimar os docentes, fica curto em 50 excelências.

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Ainda a propósito da Matemática, da sua capacidade de sedução e da possibilidade de ser lida quase como um romance policial ou uma aventura.

Três livros que são três portas diferentes para a abordagem da Matemática e da Ciência em geral. Num caso temos a história apaixonante de um famoso teorema matemático só completamente resolvido em 1995; em outro temos uma biografia de um excêntrico matemático, Paul Erdös. Por fim, o registo de uma iniciativa nacional para “abrir” o mundo da Ciência ao grande público, embora com resultados desiguais nas colaborações, quase todas a tentarem o “salto” que só alguns notáveis cientistas conseguem dar da erudição para a divulgação (sendo Bento de Jesus Caraça e Rómulo de Carvalho entre nós os grandes representantes de uma linhagem quase perdida).

Se nem sempre é possível para um leigo acompanhar as demonstrações, pelo menos é certo que ficamos com desejo de o conseguir. E sobra todo o resto.

Está bem. Gosto de criticar, apontar erros aos outros, detectar contradições. Já quem diga que sou demasiado radical mnas posições, enquanto outros acham que sou excessivamente contemporizador e que ainda acredito na salvação disto.

É verdade que, de algum modo prefiro ver o copo sempre meio vazio. Alguns confundem isso com pessimismo. Se calhar é.

Só que eu acho que a melhor coisa que nos pode acontecer é sermos pessimistas. Dessa forma raramente nos desiludimos e, quando as coisas correm bem, por poucas vezes que seja, ficamos agradavelmente surpreendidos. Sou pois, dos que acham que uim copo meio vazio pode acabar de ser enchido. O que é bom.

Dos optimistas natos, de sorriso afivelado, tenho alguma pena. Porque a realidade está sempre a pregar-lhes partidas. E o copo meio cheio corre o risco de, se as coisas estão bem, assim ficar, ou ainda esvaziar mais.

Mas isto serve apenas para explicar que, nos próximos tempos, vou tentar teorizar (e concretizar, sempre que possível) acerca de três origens dos principais erros que são cometidos na Educação em Portugal e que não são da responsabilidade dos alunos, das famílias ou dos docentes. São eles a forma como se elaboram os currículos, os programas disciplinares, assim como os manuais escolares. Um quarto erro é como tudo isto se conjuga e como, de forma pouco articulada, se baralham as coisas a certa altura do processo.

O caso recente da TLEBS foi exemplar quanto à “metodologia” quantas vezes usada pela tutela nesta matéria, metodologia essa que inverte a ordem normal de um processo que deveria partir do geral para o particular ou que, em outros casos, muda uma das variáveis sem atender às outras. Ou que, cumulativamente, promove alterações que mais não são do que manifestações de poder de uma facção. Mas esse exemplo está longe de ser o único. Sendo que muito dos responsáveis pelos erros cometidos permanecem décadas nos corredores do poder, imunes à crítica porque quase invisíveis, resistindo às mudanças políticas e, com a caução de serem “especialistas”, condicionarem na sombra a agenda educativa que temos.

Se tenho arte, engenho e suficientes conhecimentos específicos para dar conta do recado logo se vê.

Adenda: a Fernanda chamou-me a atenção, e muito bem, para um aspecto relacionado com estes acima referidos e que passa pela formação (inicial e contínua) dos docentes. Lá vai mais um post, portanto.

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Sempre achei despropositada a calma inicial do Ensino Superior às políticas deste governo. Houve uns protestos contra a falta de verbas, mas tudo muito cordato, para a gravidade do que se adivinhava. Separada a “Educação” do “Ensino Superior”, parecia existir a esperança de as Universidades e Politécnicos (estes com Valter Lemos bem posicionado no ME com ponta de lança) não sofressem da mesma morrinha que passou a cair sobre o Ensino Básico e Secundário. Como se a coisa correspondesse a uma separação das águas: vocês vão para ali e deixem-se estar, que nós vimos para aqui. Nada de confusões.

Alegadamente em nome do gigantismo de um Ministério único e para agilizar políticas de excelência para a Ciência e Ensino Superior.

Acreditou quem quis. Mariano Gago teria de ser Ministro e não tem paciência para a Educação menor. Muito menos para negociações de carreiras e isso tudo. A divisão em ME e MCTES foi assim instrumental e apenas isso.

Já em alguns momentos afirmei estranhar o posicionamento do professor e reitor António Nóvoa ao lado da ministra MLR em alguns debates. Sei das justificações, mas estas são coisas que acabam por “cair mal”.

Entretanto, após longa inacção, mal disfarçada com os episódios em torno do Choque/Plano Tecnológico, o ministro Mariano Gago começou a estender os tentáculos do poder executivo sobre o Ensino Superior. E começaram as primeiras queixas a sério.

Na semana que passou, com o habitual manto comunicacional dos benefícios para a gestão, os recursos e etc, deu-se a mais firme investida contra a autonomia das Universidades no plano, não apenas financeiro, mas de todo o tipo de gestão. O modelo das Fundações seria interessante se seguisse o exemplo americano.

Mas isto não é a América e as Fundações serão formas mais ou menos encapotadas dos governos controlarem apertadamente as Universidades. Agora o CRUP argumenta que as medidas são contrárias ao quadro legal em vigor e à própria Constituição.

Pois.

Nada que se não tivesse passado com o Ensino Não-Superior, como me fartei de escrevinhar aqui.

Ou esperavam que não eram os clientes a seguir na fila?