Já parece embirração e se calhar o melhor é assumir que é mesmo.

Cada vez que leio declarações ou outras prelecções de Maria de Lurdesa Rodrigues interrogo-me sobre a responsabilidade pela prosa e/ou sobre a origem dos ditos.

Desta vez o pretexto da minha diatribe é o discurso inaugural de MLR na Conferência Internacional sobre o Ensino do Português. Como diria qualquer um dos Gato Fedorento, isto é fraquinho, muito fraquinho. Eu acrescentaria que não passa de algo de circunstância, debitado porque sim, e fraquinho na forma e conteúdo. A começar pela abertura, protocolar:

Iniciativas desta natureza são particularmente importantes, porque significam a possibilidade de constituição de um espaço para a reflexão e o debate colectivo sobre os problemas teóricos e práticos ligados ao ensino.

A seguir temos um naco de politiquês, cruzado com eduquês e sociologês, aquele tipo de discurso onde tudo são espaços, intersecções, construções, visões e articulações, mas onde tudo redunda no vácuo, em matéria de substância ou consubstanciação, ão:

O encontro de vários especialistas e profissionais permite a confrontação de visões e experiências variadas, estimulando a reflexão colectiva sobre questões por norma envoltas em alguma controvérsia.
A construção de consensos em torno destas questões, de grande complexidade, afigura-se mais difícil justamente porque envolvem importantes dimensões técnico-científicas, pedagógicas e de intervenção política.
Estes três planos, importa lembrar, são relativamente autónomos, e a clareza da distinção em termos de análise e de decisão não deve prejudicar, pelo contrário, os necessários esforços de articulação e de construção de espaços comuns de trabalho.

Há ali um erro de concordância numa frase que vamos deixar por conta de um plural distraidamente usado. Depois, temos um imenso resto polvilhado de lugares comuns, entremeados com declarações de intenções piedosas:

O ensino da Língua Portuguesa tem sido atravessado por tensões clássicas que opõem, por exemplo, uma perspectiva mais devedora da Literatura a uma que se inscreve mais na linha dos estudos linguísticos.
(…)
Estas tensões e controvérsias clássicas constituem o essencial do debate legítimo nas Ciências da Educação e áreas afins e devem basear e fundamentar a decisão política.
O ensino da Língua Portuguesa é seguramente um dos campos disciplinares onde o debate adquire maior visibilidade pública sendo, também por esta razão, mais exigente encontrar consensos que sustentem e confiram coerência às decisões e escolhas políticas.
Importa também não esquecer que o ensino de Português é a única disciplina que é ministrada a todos os alunos, desde o 1.º ano do ensino básico ao 12.º, e último, ano do ensino secundário.
Assim, a realização desta conferência internacional justifica-se pelo reconhecimento das tensões existentes no que concerne ao ensino do Português, mas também pela convicção da necessidade e possibilidade de encontrar as soluções que correspondam a uma base de apoio tão ampla quanto possível.

Temos, portanto, a constatação de que existem tensões, que são clássicas ,que são legítimas e que têm visibilidade pública. Acredito que também tenham visibilidade privada, mas essas são, talvez por definição menos visíveis, pelo que talvez sejam menos tensas, mas porventura igualmente clássicas.

Assim como é extremamente útil e reconfortante ver confirmado que o Português é ensinado do 1º ao 12º ano pela Ministra. Eu acho que é algo que deve ser sublinhado. Não percebo exactamente porquê, mas terá a sua relevância, assim como o desejo de se encontrar «soluções que correspondam a uma base de apoio tão ampla quanto possível». Que bom, parece que deve ser esta a única área onde o ME se preocupa com tal desejo de consenso. Se calhar por causa das tensões, e por serem visíveis. Publicamente. Caso contrário…

Mas eu finalizo com a tirada que considero, para além de mais robusta, especialmente crucial:

O domínio da língua, nas diferentes vertentes da palavra escrita e falada, da leitura e da oralidade, é crucial nos mais variados domínios da vida individual e colectiva.
Não há cidadania nem competência profissional plenas sem um domínio robusto da língua portuguesa.
É uma responsabilidade central da escola pública garantir aos futuros cidadãos e profissionais do País o acesso aos bens e recursos linguísticos, cognitivos e culturais que o domínio do Português confere.

E assim vamos, cantando e rindo, no reino da Parvónia, onde se deve garantir o acesso aos bens que o domínio do Português confere. Ou vice-versa. Tanto faz.