Terça-feira, 8 de Maio, 2007


Este subsite da Inspecção-Geral da Educação (o link agora já está directo) que nos permite conhecer, concelho a concelho e ciclo a ciclo o desempenho dos alunos, introduzindo o nível de IDS (Índice de Desenvolvimento Social). Tudo numa perspectiva de benchmarking.

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No site da DGRHE temos acesso ao Manual Jurídico da Boa Prática Administrativa, em cuja introdução podemos ler que:

…o propósito do presente manual é auxiliar os serviços, os funcionários e os agentes da DGRHE, a adoptarem condutas das quais resultem decisões de mérito em detrimento das meramente formais.

Isto deixa-me um tudo nada perplexo a dois níveis, sendo que um é a interrogação sobre a forma como os funcionários e agentes da dita DG terão conduzido nas suas acções até à actualidade, enquanto o outro é a necessidade de perceber exactamente onde é que uma decisão de mérito pode deixar de ser formal ou colidir com a tal formalidade. Porque se é verdade que eu percebo que a ideia possa ser a ousadia de ir para além da letra da lei e não a aplicar de forma cega, por outro lado receio não perceber até que ponto isso poderá ir e, afinal, onde é que o mérito colide com a aplicação do quadro legal.

É que eu pessoalmente até tenho uma boa impressão do funcionamento da antecessora DGAE, exactamente porque perante situações de tentativa de uso criativo da legislação, sempre me deram razão nas reclamações feitas a esse propósito e no sentido de ser respeitada a dita legislação quando outros serviços, ao nível de Escola ou de DRE, decidiram fazer dela leituras pouco formais.

Ver para crer e já agora vou experimentar com uma reclamação relativa a um velho problema da minha cara-metade, que dura há cerca de uma década por má-vontade da chefia prepotente de uns serviços administrativos, em conivência com um órgão de gestão algo absentista das suas obrigações e uma DREL demasiado permeável a respostas pedidas à medida.

Nem sei como apresentar a coisa, se com laivos de dramatismo pelo descalabro das aprendizagens, se como interrogação existencial profunda sobre as minhas incapacidades de transmitir conhecimentos básicois, se meramente como episódio anedótico que me fez rir com gosto hoje ao final da tarde.

Vamos aos factos: hoje foi dia de teste de HGP (História e…) para as turmas de 6º ano. pelas características especiais de uma delas os conteúdos não estão a par e as fichas são diferentes. Na turma, digamos assim, “regular”, o tema era o final do século XIX em Portugal, a implantação da República e as suas principais consequências.

A certa altura da ficha, decidi introduzir o novo conjunto de questões com a frase: «Em 1910, os republicamos conseguem derrubar a Monarquia». Vai daí e com extrema falta de imaginação – provavelmente deveria pedir que eles apenas colorissem as bandeiras da Monarquia e da República – coloco uma daquelas questões velhas, velhas como tudo: «Em que data foi proclamada a República?» e espero que ao ano os alunos me acrescentem o sacramental 5 de Outubro, cuja abordagem em aula teve o momento alto com a cantoria também tradicional de A Portuguesa em som capaz de se fazer ouvir em qualquer extremidade da escola. Uma pessoa pensa que algo terá ficado para além do hino mas engana-se.

Por estranho que pareça, em 14 presentes apenas uma aluna conseguiu indicar a data completa de forma correcta, enquanto dez alunos se enganaram no ano da implantação, que variou entre 199 e 1980.

OK. É nestes dias que um tipo percebe que, provavelmente, provavelmente, a culpa deve ser mesmo minha.

Como centenas ou milhares de colegas, ando este mês a preparar os meus alunos para as provas de aferição dos próximos dias 22 (L. Portuguesa) e 24 (Matemática).

Todas as semanas vou-lhes apresentando uma prova, ou parte dela, dos últimos anos para ver como reagem, quais os pontos fracos, a origem dos maiores equívocos. Até ao momento fizeram a primeira parte das provas de 2004 a 2006, embora pela ordem inversa. A passada sexta-feira foi a vez da prova de 2004, cuja 1ª parte é uma coisa verdadeiramente pasmosa, não necessariamente pela extensão, mas pela forma como está organizada. Duvido que na sua concepção tenha estado – ou se esteve não posso acreditar que tenha estado de acordo com aquilo – algum docente “normal” do 2º CEB. Aquilo é obra claramente de alguém que não conhece o aluno médio, produzido actualmente de acordo com as regras do jogo que temos desde oi início dos anos 90.

Eu com toda a sinceridade gostaria que os meus alunos, os actuais (que são fraquinhos em média, já sei disso, são turmas com características muito específicas) ou os pretéritos conseguissem resolver a prova de forma satisfatória no tempo pretendido, mas há dois obstáculos quase insuperáveis:

  • Antes de mais, esquecendo tudo o que é dito e aconselhado sobre a forma de lidar com os alunos nas aulas e sobre o bom que é deixá-los expressarem a sua criatidade e intervirem activamente no processo de ensino-aprendizagem, apresentam-se regras de conduta draconianas que só quase à base do terror psicológico é possível impor.
  • Em seguida, o enunciado das provas – e esta de 2004 é sintomática – é feito com base num tipo de vocabulário e com uma parafernália aparatosa de indicações que, em muitos casos, fazem com que a miudagem passe adiante diversas questões, porque pura e simplesmente não percebe o que se pretende ou fica intimidada com a apresentação. Na prova em causa, uma questão bastante simples como a 9 é introduzida com um palavreado perfeitamente desnecessário, enquanto a 11 – apesar das estimáveis intenções – é tão longa na formulação relativamente ao que é pedido, que foram bastantes os alunos que optaram por passar adiante.

Isto não significa que, repentinamente, eu seja favorável a provas infantilizadas e demasiado fáceis ou evidentes. O problema é o evidente desajustamento entre as orientações dadas para a avaliação regular dos alunos e sobre a forma como elaborar os seus “instrumentos” e depois a prova que é apresentada para “aferir” esse trabalho. Caramba, a prova de 2006 tinha mais de 20 páginas; mesmo se em algumas páginas só existe um par de questões, não são poucos os que ficam quase aterrados.

Mas claro que, depois e no fundo, toda a exigência é muito relativa, porque nos critérios para a correcção das provas permanece uma daquelas indicações memoráveis que deixou boquiaberto um colega meu, bem mais novo, que nunca passou pela experiência de corrigir as ditas provas. Para toda a primeira parte da prova, determina-se que:

correc.jpg

Ou seja, há imensa parra, mas depois parece que ninguém está verdadeiramente muito interessado em avaliar a qualidade da uva depois de espremida.