interesse.jpgO livro não é o mais recente sobre o assunto, mas é uma óptima síntese as pesquisas empíricas em torno de alguns mitos relacionados com a vida política nas sociedades ocidentais.

E conclui que não. Que afinal os eleitores, depois de muito escrutinadas as suas intenções explícitas ou implícitas com métodos mais ou menos sofisticados, ainda votavam até aos anos 90 principalmente com base em coisas como «preferências éticas» ou «convicções», baseadas principalmente na sua visão de um modelo de sociedade preferencial.

Como explicação para a permanência do mito – que agora está tão em voga entre nós, entre algumas linhas de análise política que mandam conquistar o centro – o autor adianta, retomando diversos contributos, que a ideia de que o eleitor baseia a sua decisão num interesse pessoal parece tão evidente e óbvia, que acaba por resistir em algumas mentes à demonstração empírica do contrário.

Claro que este tipo de conclusões, a contrario sensu das “evidências” e das análises acomodadas, são quase sempre mal recebidas e desvalorizadas. E também é claro que se dirá que – e em parte é verdade – os tempos são outros e que cada vez estamos mais cínicos. Mas, de qualquer modo, eu prefiro ainda prefiro alinhas com as análises fundamentadas em estudos devidamente citados do que impressões recolhidas a partir de contextos localizados ou baseadas em agendas políticas específicas.

Aliás, a recente eleição em França ganha por alguém que se afastou claramente do centro e que apostou num discurso pouco virado para a algibeira, mas mais para a segurança e para a questão da “ordem” e da “nação francesa”, demonstra exactamente isso. Porque, gostemos ou não de Sarkozy, a verdade é que a maioria da população foi mais sensível a esse discurso do que ao de Ségolène Royal que, para além da deriva centrista, acenava de forma bem mais evidente para questões económicas e sociais.