Sábado, 5 de Maio, 2007


No caderno Actual do Expresso surge hoje novo artigo de João Andrade Peres, que aqui se poderá encontrar numa versão mais alongada.

Entretanto, a tão anunciada Conferência Internacional sobre o Ensino do Português, irá decorrer nos próximos dias 7 a 9 de Maio, calendário perfeitamente anedótico para a generalidade dos docentes do ensino não-superior interessados em participar. Se é prometida a cobertura legal para as faltas dadas para participar na iniciativa, no entanto parece desconhecer-se a altura sensível do ano lectivo em que nos encontramos, muito em particular no caso dos docentes de Língua Portuguesa, com provas de aferição e exames à porta. Se a ideia era promover o encontro de pouco mais de uma dúzia de especialistas em torno de estimáveis generalidades, moderados por meia dúzia de personalidades notáveis, percebe-se. Agora se o objectivo era suscitar um debate alargado em torno do ensino da Língua Portuguesa o tiro errou completamente o alvo.

Mas provavelmente nada disto acontece por acaso.

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Não compreendo aqueles que, como fórmula infalível, apresentam sempre a diferenciação, hierarquização e segmentação das carreiras como fórmula para o sucesso, seja esse sucesso medido por uma hipotética maior eficácia do modelo, seja por um pretenso mérito definido por quotas estreitamente quantificadas. Assim como não compreendo que as soluções para todas as situações profissionais tenham que obedecer à mesma lógica formatadora.

Uma das principais críticas que alguns fazem à carreira docente corresponde exactamente ao que durante muito tempo foi, para mim, uma das suas maiores vantagens. Para os próprios docentes, mas não só. A crítica baseia-se no facto de quase todos os professores progredirem até 2005 de uma forma razoavelmente paralela e isso significar que tal progressão não revela mérito, mas mera passagem de tempo.

Quem isso afirma certamente não leu a legislação que esteve em vigor, ou então assumiu que era letra morta (foi o que fez o Estado ao não regulamentar parte do que tinha prometido quanto à possível diferenciação da progressão). Mas esse já não é o meu ponto de interesse aqui.

O que aqui me interessa é que a progressão na carreira não era feita contra ninguém, nem à custa de ninguém. O que, apesar das naturais picardias que sempre existem ou da falta de sintonia entre pessoas que trabalham juntas mais ou menos tempo, era uma enorme vantagem em termos de ambiente de trabalho e de possibilidade de trabalho em equipa.

Porque uma das consequências das novas normas de progressão, assim como de acesso à categoria de professor-titular é que, a muito breve prazo, a progressão na carreira vai ser feita contra alguém, em virtude do sistema de quotas, sendo que esse alguém é com quem nós devemos trabalhar em equipa no quotidiano diário. Não bastará ter mérito e alcançar os objectivos, será necessário ultrapassar o outro. Sendo que essa ultrapassagem tem muito que se lhe diga, pois não dependerá de critérios tão objectivos como grelhas quantificadoras poderão fazer crer.

Não me venham com exemplos de outras profissões, com características bem diversas. Acredito que a competição entre advogados numa grande empresa do ramo seja óptima para o negócio, através da captação e satisfação dos clientes. Apesar do trabalho em equipa ocasional, cada um é responsável pela sua carteiora de casos. O seu desempenho será julgado essencialmente com base num trabalho individual. E os exemplos possíveis são muitos e variados, só que não vale a pena ocupar mais espaço, porque a ideia é a mesma.

No caso dos professores, em especial no caso dos que trabalham a partir do 2º ciclo que implicam um trabalho necessariamente em equipa, mas também em todos os casos que implicam uma coordenação da actividade docente num grupo mais ou menos alargado de colegas (seja de grupo disciplinar, de departamento, etc), um sistema de progressão que implica uma competição directa por determinado lugar com mais vantagens materiais, em vez de ser positivo e estimulante da excelência, torna-se prejudicial, porque provocará naturalmente a erosão dos laços de solidariedade e camaradagem. Sei que é isso que a tutela pretende, na busca da atomização dos docentes para melhor os controlar e manobrar, mas pelo menos não disfarcem isso com celofanes baratos. Também sei que parecem conceitos anacrónicos – camaradagem?, ainda existe? – mas nem tudo o que é antigo perdeu a validade ou o valor.

Até agora – e volto a sublinhar que as excepções existem e sei disso na primeira pessoa, porque tenho um historial apreciável de conflitos mais ou menos assumidos em cerca de duas décadas de ofício – apesar de tudo imperava um espírito de camaradagem, pois ninguém precisava de disputar com os outros a progressão salarial. As disputas situavam-se mais no plano das ambições pessoais de maior ou menor protagonismo. Ou no choque de personalidades. E quase só isso. E já era muito, mesmo assim.

Agora tudo isso vai inevitavelment piorar. Só em teorias distópicas de gabinete é que não. O encapsulamento de uma elite dirigente nas escolas, com maiores vantagens em termos materiais, de acesso restrito e, a partir de determinado momento, de alargamente em regime quase exclusivamente de cooptação, vai potenciar o aparecimento ou agravamento dos piores fenómenos que a natureza humana nos reserva. Em muitas escolas e agrupamentos, o ambiente que actualmente já nem sempre é o mais sadio, tornar-se-á quase irrespirável, com a institucionalização de redes de fidelidade quase pessoal e nepotismo. De invejas e de truqes na manga. De desgaste do antigo espírito de camaradagem.

Não percebo os fantasmas que atormentam algumas mentes, certamente ainda perturbadas pelo papão da gestão democrática das escolas ou pela permanência de hábitos de relação igualitária entre pares. É que nem acho que seja uma disputa entre um socialismo anacrónico e um liberalismo modernizador (afinal o liberalismo como ideologia sistematizada é mais antigo que o socialismo, se descontarmos da equação a mensagem cristã mais radical). É apenas a imposição arbitrária de um desejo de destruir o que existe, em nome de um pretenso valor intrínseco da mudança e de valores que sabemos – pelo exemplo pessoal de alguns dos protagonistas – não existirem.

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O Antero Valério tem um novo blog, agora dedicado à sua pintura. E não é que o moço tem mesmo jeito para a coisa? O que me dá uma certa inveja, que só tenho inclinação para as letras e quase jeitinho nenhum para as Artes, que não sejam de olhar, ouvir ou saborear. Especialmente para estas últimas.

É que ainda por cima aquilo cai-me no goto, já que sou um incondicional do estilo. Sempre me faltou foi o essencial para comprar um Miró, um Kandinsky ou um Mondrian. Será que me candidato a Palerma do Ano para comprar um Antero certificado?

jgil.jpgFinalmente. Lá comprei a Visão na papelaria de serviço e acedi ao texto de José Gil que tanto queria ler (e já agora, lá por dentro parece que se respira um clima agreste para Sócrates, ao fim de dois anos de alinhamento estratégico da orientação editorial). A Edimpresa vai mandar-me uma nova edição, as só deve chegar quando calhar e eu tinha pressa. O ridículo é que me deixaram na caixa de correio, hoje pela manhã, uma Visão endereçada a outra pessoa da minha urbanização que mora no nº 22 de uma rua completamente diferente e nem sequer contígua, enquanto eu moro no 5. E tenho o nome bem à vista. Mas isso não interessa nada.

Fica aqui a imagem do artigo para quem o quiser ler na íntegra (é só clicarem na imagem), com um destaque que subscrevo aplaudindo de forma entusiástica, embora ainda acredite que a coisa se venha a inscrever:

Quando um pai acusa o filho injustamente e o castiga em seguida por ele protestar acabando por o calar (domar), este interioriza a primeira acusação com a aceitação da segunda. Obedecerá dali em diante voluntariamente sem saber porquê, apenas porque é uma ordem. Assim se incorpora inconscientemente medo e submissão. Porque a questão do currículo do primeiro-ministro foi enterrada sem ter sido esclarecida (quando o que stava em jogo era a autoridade moral de alguém que quer criar uma nova moralidade e racionalidade nos comportamentos dos portugueses), não houve inscrição, nada sucedeu, e o (pouco) protesto que se levantou foi abafado. Duplo-abafamento que cria mais obediência irracional e passiva. Não é assim que se fomentam espíritos livres. À força de não inscrever em nome da vontade de inscrição, à força de segregar mais obediência quando se diz querr mais criatividade e inovação, de produzir mais confusão, irracionalidade em nome da racionalidade da modernização, esquece-se que só existe invenção, inovação, produção criativa deixando margem para o imprevisível, o inavaliável, a irrupção da singularidade.

Aqui ficam inscritos na perfeição os paradoxos da hipocrisia deste governo socrático, baseado na aparência do movimento e da acção e na exigência da obediência acrítica – que tem um enorme paroxismo na área da Educação, área sensível nesta ordem discursiva da modernidade e da inovação e qualificação. E se aflora a contradição não resolvida em portugal há muito entre medo e respeito, submissão forçada e apática e adesão voluntária e activa.

Sendo que a margem da singularidade é, apesar de pouco, aquilo que nos resta para combatermos as tentações totalitárias em jogo. As mais evidentes, mas também as que, em nome da coerência do combate, se exercem em sentido contrário.

E, no meu cso, há muito que margem da singularidade é a única saída que encontro para combater o carneirismo e o automatismo. E o medo que se quer reinscrever (ou apenas reanimar?) na nossa mentalidade colectiva e igualmente na mentalidade individual de cada um de nós, incutindo-nos o medo se nos singularizarmos, assim nos tornando um alvo mais fácil para os novos guardiães do regime. Porque passamos a ser um pontinho colorido no meio do cinzentismo. Como José Gil, com as devidas distâncias salvaguardadas e imodéstias à parte.