Sexta-feira, 4 de Maio, 2007


A incipiência do vídeo e a fraca qualidade imagem só ajudam à ideia.

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Vivi muito parcialmente a asfixia que muitos descrevem sobre o quotidiano no regime salazarista. Não foi culpa minha. Foi apenas uma questão de idade. Ainda conheci os resquícios, as fugas de familiares por razões económicas ou políticas, os livros escondidos em malas debaixo da cama – escasso recurso – ou o receio da ronda da GNR pela noitinha. Aquela triste, vil e apagada tristeza que acabou por caracterizar muito do quotidiano português que não poucos indígenas mais cosmopolitas ou visitantes que por cá passaram, notaram de há 200 ou 250 anos para cá, se não mesmo mais,.

Por ter crescido e me ter formado já em período de Liberdade e Democracia, mais ou menos perfeitas é outra discussão, o livro de José Gil sobre O Medo de Existir atraiu-me mas ao mesmo tempo parecia remeter-me para um Portugal de outrora, que eu ainda há poucos anos (a edição original é de finais de 2004, retomando escritos anteriores) julgava já algo residual. A sedução foi paralela à que senti nos anos 80 com O Labirinto da Saudade do Eduardo Lourenço. Ambas as obras tocam-se muito, complementam-se e, cada uma de sua maneira, para mim funcionaram como um díptico sobre a forma de estar do português suave, que eu queria acreditar estar a ser progressivamente arredado. Apesar de tudo.

Desde então para cá, fui obrigado a realinhavar convicções e a reanalisar evidências. Aquele estado de permanente representação do eu (Lourenço), de teatralização de um passado mítico que acaba por ensombrar o presente e que se traduz numa recorrente anomia típica do portuguesinho, vítima de si e dos outros, com uma relação esquizofrénica com a autoridade, temendo-a e maldizendo-a, mas reverenciando-a e secretamente desejando-a, desde que seja para colocar os “outros” na ordem. A sina da inveja sobre que JGil também tão bem escreve e fala.

Não sei se estou demasiado pessimista, mas sinto que aquela opaca névoa, não de esperança sebastiânica, mas de pasmosa inibição dessa mesma esperança que induz à resignação, nos volta a cercar, a entristecer e a amodorrar. Sendo que alguns episódicos estertores se estridência não passam, pela sua própria ritualização e ineficácia – e sim, já adivinharam, discordo de mal planeadas coreografias da contestação – , de úteis excepções que servem para os senhores das regras afirmarem que afinal tudo está bem.

Medo de existir? Não sei, mas certamente medo de agir, de arriscar, de fruir, quase de pensar e cada vez mais certamente medo de falar. Porque pode ser inconveniente, pode ser incorrecto, afrontar sem nexexidade, prejudicar a carreira, a avaliação, o emprego. E vamo-nos auto-censurando, auto-mutilando a nossa expressão. Quase não precisamos dos mestres-censores de que fala Elisabeth Lévy. Agora já quase fazemos a censura sozinhos. Sai mais barato e tudo. Não agrava o défice.

Mas há quem não tenha medo de existir, de fruir, de falar. Esses são os que estão bem assim. Num noticiário da noite vi o Ministro das Obras Públicas, Mário Lino, em pleno Mosteiro de Alcobaça, perorar com evidente satisfação perante muitos daqueles a quem o negócio da Ota vai reconfortar e bem. Mário Lino chegou mesmo a mostrar o seu à-vontade, ironizando o seu estatuto de engenheiro civil e «inscrito na Ordem», com sorriso nos lábios, para gáudio de uma assistência que se riu com gosto e alegria (o que acaba por nos fazer pensar sobre quem afinal decide verdadeiramente quem se pode rir…). Eles estão alegres.  Que bom. Mas muitos são os que não estão. Mas que começam a ficar insensibilizados e resignados ao seu destino. A festa foi bonita, pá. Mas curta. Para alguns extremamente curta. Para mim até nem por isso. Apesar de tudo, ainda quis acreditar no oposto das minhas convicções mais profundas, o que é sempre tarefa complicada.

Por isso recupero uma passagem de José Gil, que sou forçado a aceitar como efectivamente actual. Afinal ele tinha razão e viu com clareza, para além do nevoeiro de que tão habilmente fala:

Portugal conhece uma democracia com um baixo grau de cidadania e liberdade. (…) Sabemos pouco – quero dizer, raros são aqueles que conhecem – o que é um pensamento livre. Raramente no nosso pensamento se exprime o máximo da nossa potência de vida. Dito de outro modo: estamos longe de expressar, de explorar, e portanto de conhecer e re reivindicar os nossos direitos cívicos e sociais de cidadania, ou seja, a nossa liberdade de opinião, o direito à justiça, as múltiplas liberdades e direitos individuais no campo social. (José Gil, Portugal. Hoje, pp. 41-42)

E pensava que assim seria Portugal, Ontem. Mas não, é mesmo hoje e adivinha-se que seja cada vez mais assim amanhã. Chamados de 4 em 4 anos a assinar de cruz uma carta em branco. Ou anualmente a manifestar, de forma mecânica e ritual, a nossa adesão formal à Democracia, à Nação, à República e à Independência, tudo quase de dois em dois meses entre Abril e Dezembro, se descontarmos o Julho e o Agosto que são para veraneio.

E não esqueçamos ainda aqueles que, pensando e proclamando ser livres, são prisioneiros em outras celas. Porque pensamento também permanece enclausurado.

Retomo o tema de alguns comentários que por aí vão ficando: o cansaço vai-se acumulando, a irritabilidade fica à flor da pele; regressam alguns dos abatidos em combate entre o 1º e 2º período, mas há outros que partem, para lamber as mazelas. Entretanto, aí estão a chegar as provas de aferição, os exames, as actividades de final de ano lectivo que se vão planeando e onde será necessário estar do sorriso afivelado para a fotografia, o súbito recrudescimento das visitas de alguns encarregados de educação, que em Maio descobrem por fim que há problemas por resolver, quando durante seis meses nem um telefonema, um recado. Quanto às substituições, já não sei quem as começa a detestar mais, se as funcionárias que as distribuem sabendo que serão recebidas de soslaio, se quem as vai dar à laia de serviço comunitário, se quem a elas assiste a olhar para o infinito e nada ouvindo.

Já sei que é tudo em nome do bem comum, da salvação da educação, do fim dos “privilégios” dos professores, que todos devemos trabalhar ao ritmo do que um amigo meu chama a belmirização da sociedade, cada vez mais uma enorme linha de montagem de operadoras de caixa indiferenciadas de uma grande ou enorme superfície.

A mim ninguém me desconvence que isto é apenas a opção pelo nivelamento por baixo e a opção pela mediocridade da vida do maior número, para que alguns permaneçam no conforto das suas tamanquinhas.

Que raio, porque não descobri eu o segredo de fazer os trabalhos em casa e mandá-los depois para quem de direito, com um bilhetinho?

Vosso,

Parece ser o que José Gil acha.
Mas será que alguma vez foi realmente afastado? Chegou a parecer que sim, mas afinal…